Guerra Fria | © Midas Filmes

Guerra Fria, em análise

Guerra Fria”, uma história de amor atribulada cheia de música e belíssimas imagens a preto-e-branco, valeu ao realizador polaco Pawel Pawlikowski o Prémio de Melhor Realização no Festival de Cannes deste ano.

Numa festa das elites intelectuais parisienses, Zula, uma cantora polaca expatriada em Paris nos anos 50, bebe sozinha na casa-de-banho. Ela não parece muito contente e está certamente muito inebriada, tanto pelo álcool como pelo ciúme. Antes de se fechar nesta clausura improvisada, Zula confrontou uma poetisa que é também a ex-amante de Wiktor, o homem que tem sido o centro da vida da cantora há anos. A escritora francesa defendeu a tradução que fez de uma canção para o álbum da polaca, mostrando um certo desdém pelo modo como Zula não compreende a metáfora empregue nos versos. Pela sua parte, a presente companheira de Wiktor não morre de amores por metáforas incompreensíveis e verbaliza esse mesmo desgosto, os azulejos e espelho da casa-de-banho sua única audiência.

Nestes espectadores sem voz, ela poderia, em tempos, ver o reflexo de alguém com uma face angelical de linhas eslavas e palidez marmórea. Agora os reflexos revelam uma mulher indisputavelmente bela, mas cansada, com maquilhagem esborratada à volta dos olhos e um coração partido. Zula detesta metáforas, mas o filme em que ela se insere adora-as quase tanto como ama ver o sofrimento romântico dos seus protagonistas. Poderíamos facilmente caracterizar “Guerra Fria” como um diálogo de metáforas em simbiótica comunhão. O romance de Wiktor e Zula é tanto uma metáfora para as convulsões sociopolíticas e culturais da Polónia entre o pós-guerra e meados da década de 60, como o contexto histórico é uma representação metafórica do tipo de relação tóxica que somente floresce perante obstáculos.

Guerra Fria critica
Um casal que dança a dança da destruição mútua.

É em 1949 que os protagonistas de “Guerra Fria” se conhecem. Ele tem trabalhado na recolha de música tradicional polaca por entre a miséria ruinosa da nação a seguir à 2ª Guerra Mundial. Ela é uma cantora que vem fazer audições para um projeto que pretende levar o folclore nacional até aos grandes palcos. A conexão entre os dois é imediata, mas o seu romance tem de viver nas sombras e em salas fechadas, escondido dos olhares do mundo. Quem sabe o que aconteceria se eles viessem a público com o seu relacionamento, especialmente quando uma autoridade superior já forçou Zula a ceder informações privadas sobre Wiktor. O sucesso rapidamente transforma o projeto musical de celebração patriótica da cultura dos camponeses polacos em mais um objeto de propaganda soviética.

As músicas, outrora cantadas em casarões arruinados sem acompanhamento musical, são agora sujeitas a orquestrações robustas e epicizantes. Entre a massa de caras progressivamente mais maquilhadas das cantoras, há uma tentativa de apagar traços cuja etnia sugira sangue judaico e não os cânones da beleza eslava com suas tezes pálidas, cabelos loiros e olhos azuis. Quando a trupe leva seu espetáculo a Berlim, no início da década de 50, Wiktor tenta convencer Zula a fugir com ele para o oeste, para Paris. Ele bem espera por ela junto à fronteira, mas chega a noite e ela ainda não apareceu. Wiktor abandona o Leste, mas Zula ainda detém o seu coração, como se torna óbvio quando, anos depois, ela reaparece na sua vida, em Paris. O encontro é fugaz e acaba noutra separação, mas não é, nem por sombras, a última vez que os dois protagonistas cruzam caminho.

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Wiktor e Zula parecem destinados, ou talvez condenados, a passar a vida na órbita um do outro. Só quando têm de lutar para estarem juntos é que o casal encontra algum semblante de felicidade amorosa. Quando as suas vidas estão em paz e a possibilidade de um futuro calmo na companhia um do outro se começa a manifestar no horizonte, então eles não aguentam a companhia um do outro por muito que proclamem seu amor. A cantora e o músico despertam as piores facetas na personalidade um do outro e dançam a dança de mútua destruição que é a sua vida conjunta. Em parelha, a Polónia dança outra coreografia de destruição, onde o comunismo pode ser parceiro principal, mas o fascismo nunca está longe. Nem a música, que a certa altura parece a terra de ninguém onde os dois guerreiros da batalha amorosa e cultural podem encontrar entendimento, consegue acalmar seus impulsos mais odiosos.

Seguindo a tradição de muito do cinema polaco mais importante na História do Cinema, “Guerra Fria” é permeado por uma melancolia que, nas mãos de um realizador menos seguro que Pawel Pawlikowski, poderia facilmente cair no miserabilismo gratuito, sufocante e opressor. O cineasta, que dedicou o filme aos pais, volta ao registo formal que já havia explorado em “Ida”, com imagens em aspeto 4:3 em aguçadas gradações de preto, branco e cinza. As composições são inventivas, especialmente no uso de espaço negativo que ocasionalmente parece quase exercer peso sobre os ombros das suas personagens em constante conflito. A montagem, seguindo o exemplo do texto e sua documentação fragmentada do romance central, constrói ritmos de precisão mecânica, onde transições bruscas são algo constante que, não obstante a sua violência, jamais traem a elegância que domina todo o projeto.

Guerra Fria critica
Até no amor tóxico, Pawlikowski consegue encontrar beleza.

A música, como elemento imprescindível na vida de Wiktor e Zula, é uma maravilha que tanto deleita como perturba. Com o tempo, uma canção de amor vai sendo manipulada e transmutada até que nenhuma da glória original se mantém, perdida algures na reinvenção contínua e saltos entre Este e Oeste, entre folclore e blues, entre as contradições de uma cultura nacional cicatrizada pelo nazismo, mas cheia de antissemitismo. Pawlikowski tudo isto regista com um olho e um ouvido que tanto se interessam pela tragédia como pela sensualidade, pela beleza da dor, pela transcendência da perda. Nos papéis principais, Joanna Kulig e Tomasz Kot encontram autenticidade nas contradições de Zula e Wiktor, cuja espiral autodestrutiva é tão mais assombrosa pelo modo como, enquanto espectadores, conseguimos entender e simpatizar com a sua incapacidade de fugir ao destino que está traçado desde o momento em que os seus olhares se cruzaram pela primeira vez.

Guerra Fria, em análise
Guerra Fria

Movie title: Zimna wojna

Date published: 23 de September de 2018

Director(s): Pawel Pawlikowski

Actor(s): Joanna Kulig, Tomasz Kot, Borys Szyc, Agata Kulesza, Cédric Kahn, Jeanne Balibar, Adam Woronowicz, Adam Ferency, Aloïse Sauvage, Anna Zagórska

Genre: Drama, Romance , 2018, 88 min

  • Cláudio Alves - 85
  • José Vieira Mendes - 80
  • Maria João Bilro - 96
  • Miguel Pontares - 85
  • Catarina d'Oliveira - 85
86

CONCLUSÃO

O retrato de um romance fatalista pintado no estilo de impressionismo monocromático, “Guerra Fria” é mais uma joia cinematográfica do cineasta polaco Pawel Pawlikowski. Apesar da sua melancolia pervasiva e densidade concetual, o filme é um deleite sensual, cheio de beleza visual e musical para inebriar o coração do espetador.

O MELHOR: Uma brisa de vento que pinta o vazio da última imagem com a sugestão de uma paz final, depois da destruição mútua de Zula e Wiktor.

O PIOR: A estrutura fragmentada de “Guerra Fria” demonstra uma capacidade de síntese formidável por parte de Palikowski, mas também acaba por tirar alguma da complexidade humana às personagens principais, cujo crescimento pessoal se perde por entre as transições.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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