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Dois Papas, em análise

Em ‘Dois Papas’ história da amizade imaginária entre Bento XVI e Francisco é recriada num filme do brasileiro Fernando Meirelles: dois papas, um alemão e outro argentino em tudo opostos nas ideias acaba num misto de respeito e admiração e numa parábola sobre a tolerância.

Ainda em cartaz nos cinemas e disponível também na Netflix, que produziu o filme, ‘Dois Papas’, do brasileiro Fernando Meirelles — uma das obras com várias nomeações aos Oscares 2020, incluindo a de Melhor Filme — vai longe ao imaginar como teria sido o encontro entre o cardeal Ratzinger (Anthony Hopkins) e o cardeal Bergoglio (Jonathan Pryce), num momento de profunda mudança para cada um deles e para a Igreja Católica, em 2013: por um lado a estranha decisão de Ratzinger de se tornar o primeiro papa em 700 anos a renunciar ao episcopado; e por outra a tentativa de Bergoglio de abandonar as responsabilidades de cardeal e regressar às pequenas tarefas paroquianas na sua terra natal, a Argentina. Ratzinger vê o pedido de Bergoglio com uma certa ambivalência, pois o cardeal argentino era então uma das vozes mais críticas ao conservadorismo de Bento XVI. A sua renúncia cardinalícia seria vista como uma forte crítica à Igreja, ao mesmo tempo que lhe retirava qualquer possibilidade de vir a ser eleito papa na próxima conclave. Depois de uma carta não respondida, Bergoglio chega à residência de verão do papa, curiosamente a pedido do patriarca da Igreja Católica, mas não sem uma certa resistência. O respeito hierárquico e místico pelo Papa Bento XVI, não faz com que Bergoglio não deixe de expôr a suas ideias e os seus desapontamentos em relação às várias posições do então ocupante da Cadeira de São Pedro: a condenação do divórcio, da homossexualidade e do aborto, entre outras; e sobretudo a passividade de Bento XVI, em relação aos escândalos de pedofilia e abuso sexual no seio de várias instituições da Igreja Católica.

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“Dois Papas” ©Netflix

Se no início a oposição entre os dois religiosos parece insuperável, numa demonstração de grandeza, e através de um inteligente e constante debate, aos poucos, o filme abre caminho para compreender-mos as razões de cada um; e sobretudo para uma amizade, cumplicidade e para a necessidade de uma profunda mudança na Igreja: ‘Não concordo com nada do que você diz, mas você é aquilo de que a Igreja precisa agora’, diz o então papa alemão Bento XVI, para o argentino Bergoglio, um jesuíta e o primeiro papa (Francisco) sul-americano em dois milénios de tradição católica.

No fundo, o que vamos assistir em ‘Dois Papas’, são cerca de dois dias em que Ratzinger e Bergoglio  — Hopkins e Price são magníficos e merecem as nomeações na categoria de actores — passaram juntos em Castel Gandolfo e no Vaticano, onde vão contestar-se debater as suas ideias e curiosamente até trocar confissões, bem mais mundanas que o habitual entre religiosos de tão alto nível: vão falar da beleza da arte do Vaticano, de futebol, entreter-se ao piano com peças clássicas e velhas canções de cabaré da Alemanha. E principalmente vão rir-se e divertir-se um com o outro como dois homens comuns: ‘Sabe como um argentino se suicida?, pergunta Jorge Bergoglio. Ele sobe até o alto do seu ego e atira-se lá de cima’. Joseph Ratzinger ri de uma forma sarcástica pois não achou graça à piada metida no meio de uma séria discussão, mas para desanuviar. Mais tarde, Ratzinger faz também um esforço para ser jocoso, mas percebe que a graça passou ao lado de Bergoglio: ‘É uma anedota alemã; não precisa de ser engraçada’. Por isso ‘Dois Papas’ conquista-nos em boa parte pelo humor e por uma honestidade que nos obriga a considerar vários pontos de vista.

Dois Papas
Dois Papas © Netflix

Ratzinger, na verdade é — ainda está vivo aos 92 anos, como papa emérito — teólogo alemão, erudito e rigoroso — que ainda há bem pouco tempo protagonizou uma polémica por causa da questão do celibato — pratica e acredita que a Igreja deve libertar homem das coisas materiais para conduzi-lo apenas à espiritualidade, e por isso tem de confrontar-se com a perspectiva de Bergoglio que passou por uma dura e algo controversa experiência com a ditadura militar, as crises económicas e as desigualdades sociais na Argentina e na América do Sul. Bergoglio, foi na verdade um padre jesuíta com um passado duvidoso de pacto com a ditadura militar argentina, que de algum modo também comprometeu a sua missão de solidariedade e humildade e, que se vê obrigado igualmente a considerar a argumentação de Ratzinger sobre a dimensão espiritual necessária a um papado e fundamental para a instituição Igreja em geral. O exercício dialéctico entre os dois e a visão de que não existe apenas uma verdade é tão bem sucedido, que acaba por alterar toda a nosa primeira impressão inicial da possibilidade de ver-mos um filme apenas para vangloriar a personalidade de Francisco, uma das personalidades mais marcantes no bom sentido, da actualidade. Pelo contrário de mero antagonista, Bento XVI (Ratzinger) — ou mesmo do nosso preconceito — torna-se também protagonista do filme de Fernando Meirelles e sentimos vontade de saber mais sobre ele e as suas ideias aparentemente ultraconservadoras.

Dois Papas
Dois Papas © Netflix

Em rigor a história contada em Dois Papas’ por Fernando Meirelles — um cineasta com uma longa carreira internacional de militância e idealismo progressista — não deixa de ser pura especulação. No entanto, esta especulação é fundamentada por várias afirmações públicas e formais dos dois pontífices que já se encontraram várias vezes; e  tudo foi muito bem construído e misturado — verdade e ficção — pelo argumentista neozelandês Anthony McCarten, (‘A Teoria de Tudo’ e ‘A Hora Mais Negra’), razão pela qual a interacção entre os dois personagens parecem de uma autenticidade e plausibilidade extrema, ao ponto de parecer mesmo verídica. Depois Fernando Meirelles, realiza o filme também com uma habilidosa e inteligente descrição, dando relevo e valorizando trabalho e a fabulosa química de interpretação de Anthony Hop­kins e Jonathan Pryce‘Dois Papas’ mostra que o que está em causa não é o catolicismo mas a missão da Igreja Católica, um modelo que, ao mesmo tempo, une e separa Bento XVI e Francisco. Hopkins e Pryce interpretam esse excitante e difícil desafio de alcançarem  um  respeito e algo de superior no qual possam concordar e nós assistir-mos. Por isso, ’Dois Papas’ é cinema pura feito sem afetação e grandes truques cinematográficos, e com um interesse genuíno para todos os espectadores sejam eles de qualquer religião ou pensamento.

Dois Papas
Dois Papas

Movie title: Two Popes

Date published: 2020-01-25

Director(s): Fernando Meirelles

Actor(s): Anthony Hopkins, Jonathan Price

Genre: Drama, Biografia, 2019, 125'

  • José Vieira Mendes - 65
  • Maggie Silva - 75
  • Cláudio Alves - 40
  • Virgílio Jesus - 70
63

CONCLUSÃO

Fernando Meirelles não faz uma filme religioso sobre as questões dos dogmas ou das doutrinas da Igreja Católica, nem um filme biográfico sobre os dois pontífices. ‘Dois Papas’ é um mosaico histórico sobre a actualidade na defesa das ideias e valores da tolerância, compreensão e debate de ideias.

O MELHOR: A interpretação de Anthony Hopkins e Jonathan Price é tão convincente que chegamos a acreditar que estamos a assistir ao diálogo entre os dois pontífices;

O PIOR: Depois do prazer de ver o filme e quando começamos a pensar nele, até que ponto tudo aquilo tem algo de verdadeiro.

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José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colaborou no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’  (2014) e 'Mar Urbano Lisboa (2019). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’ (2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’ (2012), Mostras de Cinema da América Latina (2010 e 2011), 'Vamos fazer Rir a Europa', (2014), Mostra de Cinema Dominicano, (2014) e Cine Atlântico, Terceira, Açores desde 2016, até actualidade. Foi Director de Programação do Cine’Eco—Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela de 2012 a 2019. É membro da FIPRESCI.

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