Mãe!, em análise

Darren Aronofsky continua a ser sinónimo de provocação, desconforto e ambição. “Mãe!” não é o filme medíocre que muitos dizem, mas também não merece cinco estrelas. Longe disso. Imersivo, convida a muita discussão e instala-se nas nossas mentes, permanecendo vivo no pós-filme.

Um casal sai da sala de cinema. Ele vira-se para ela e pergunta: bem, e agora, onde é que vamos jantar? Este é um cenário impossível à saída de “Mãe!”. O novo desafio cinematográfico de Aronofsky não deixa ninguém indiferente. Obriga ao diálogo, à discussão, à desconstrução. Quer seja percecionado como uma boa ou má experiência – gostos à parte, sempre desconfortável – proíbe qualquer um de voltar à sua vida como se nada fosse. Saia o espectador traumatizado, intrigado ou impressionado. Ou a soma destes três estados.

Realizadores como Christopher Nolan, Martin Scorsese ou Quentin Tarantino oferecem-nos constantemente filmes que merecem (pedem mesmo, em alguns casos) ser visualizados várias vezes. Seja pelas camadas que possuem, pela composição estrutural ou apenas porque nos fazem sentir bem. Darren Aronofsky é um caso fascinante. “A Vida não é um Sonho” (2000), aquele que ainda é para mim o ex-líbris do realizador, retrata uma “tradição” Aronofsky. É usual brindar-nos com filmes pesados, desconfortáveis e marcantes. Experiências intensas, aterrorizadoras, perturbadoras e paranóicas, rumo à perfeição, à cura ou à prisão de mais uma dose.

É improvável querermos rever “A Vida não é um Sonho”, “Pi”, “O Último Capítulo” e “Cisne Negro”. Porque, mesmo tratando-se de filmes de qualidade, são pesadelos aos quais não desejamos regressar. E é essa a capacidade de Aronofsky: invadir o nosso subconsciente, numa espécie de terapia de choque.

Mãe bardem

A alegoria de “Mãe!” tem origem numa premissa aparentemente simples. Um casal (interpretado por Jennifer Lawrence e Javier Bardem) vê a sua relação testada e a sua paz interrompida com a chegada de uma série de convidados. Importa acrescentar duas ideias: 1) seria certamente interessante cada espectador receber no final do filme um vídeo com a monitorização do seu rosto, em grande plano, ao longo das duas horas de filme, 2) fica o aviso para quem ainda não viu “Mãe!”, abaixo surgirão spoilers, fundamentais na desconstrução desta narrativa.

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“Mãe!” está nos antípodas do comercial, e nesse sentido deve-se elogiar a coragem de um grande estúdio como a Paramount em apoiar a visão e o risco de Aronofsky. Numa narrativa que mais tarde se confirma como circular ou cíclica, esta viagem bíblica não nomeia as suas personagens. Nem precisa, importando sim o que elas representam. Os conceitos e significados que se extraem da alegoria. Ele (Bardem) é o criador, um autor aclamado com um bloqueio criativo, ela (Lawrence) a sua musa. Neste Jardim de Éden, o primeiro convidado é um homem (Ed Harris), chegando depois a sua mulher (Michelle Pfeiffer). Mais tarde, os filhos, interpretados pelos irmãos na vida real Domnhall e Brian Gleeson. E, antes de dilúvios e apocalipses, as pistas de Aronofsky são bastante evidentes: Eva, Adão e a sua ferida na costela, Caim a matar Abel.

Mãe lawrence

A razoável linearidade da primeira fase de “Mãe!” mergulha depois na loucura absoluta. Na destruição. No caos e na perversão. É nesse período que o realizador diz tudo o que tem a dizer – valorizando-se a riqueza com que Aronofsky dispara ou parece refletir sobre temas bem diferentes. E é também esse período que dita a apreciação do filme, e afasta espectadores em direcção a pólos opostos.

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Mas é possível viver algures no meio das duas fações. Jennifer Lawrence é quem nos conduz durante duas horas, quase sempre com a câmara bem próxima e apaixonada pelo seu rosto da sua musa, a captar o desnorte, a impotência e o sofrimento. E a significativa diferença de idades entre Lawrence e Bardem acaba por ser (bem) justificada. Se “Mãe!” se limitasse a servir de retrato para o génesis, nem o mais fervoroso fanático por Aronofsky poderia escapar a considerar a obra fraca. Felizmente, é um pouco mais do que isso.

Difícil de mastigar e de digerir, um dos problemas do filme está porventura no seu target. Num diagrama de Venn, poder-se-ia determinar o público ideal de “Mãe!” como aquele que conhece a bíblia mas condena a ideia de Deus. Embora se possa extrapolar e ler como objetivos simultâneos do autor um ensaio ou crítica à religião como um todo, sem descurar noções como fama e celebridades, política e redes sociais, a relação entre homem e mulher, o Homem e a Terra.

Mãe pfeiffer

Numa época em que o pós-filme e o período que intercala dois episódios de uma série tem cada vez maior peso, graças aos Reddits desta vida, ao passa-a-palavra e ao sentimento de pertença, o principal fator na avaliação de um filme deve continuar a ser a experiência do filme em si. Embora muitos filmes nos façam pensar depois e cresçam em nós, é o durante que mais pesa. Compreende-se a divisão entre elogios babados e críticas devastadoras. Seria difícil outra consequência de algo tão intenso, perturbador e por vezes bizarro. Aliás, esqueçam o por vezes. Cómico também, em alguns momentos, embora não fosse certamente esse o intuito do realizador.

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Neste pedaço de arte arriscada, a recriação da bíblia serve de tela para pintar um quadro mais amplo. A experiência não é agradável – reforço, traço habitual dos filmes de Aronofsky – mas a pluralidade de leituras que a reta final, insana, sobrelotada, confusa mas brilhantemente executada, possibilita salva o filme. E justifica a sua existência.

Incomoda, choca, divide, estimula, ofende, impressiona, provoca. Num filme que não irá escapar ao rótulo de pretensioso, Aronofsky diz muita coisa. Infelizmente, talvez demais. E fá-lo através de um subtexto que, aqui e ali, até deixa de o ser.

“Mãe!” é um pesadelo. Não o queremos viver de novo mas, de um modo surreal, caótico e desconexo, acaba por dizer bastante sobre nós. Não é o pior filme de sempre, nem o pior filme do ano. Mas também não é um bom filme. Agora que já deitaste isto tudo cá para fora, vai fazer o que realmente sabes, Aronofsky.

Trailer | “Mãe!” é um pesadelo que só faz sentido viver uma vez

Já foste ver “Mãe!” ao cinema? Quais te parecem ser os pontos fortes e os pontos fracos do filme?

Mãe!
Mãe poster

Movie title: Mãe!

Director(s): Darren Aronofsky

Actor(s): Jennifer Lawrence, Javier Bardem, Ed Harris, Michelle Pfeiffer

Genre: Drama, Horror, Mistério

  • Miguel Pontares - 71
  • Rui Ribeiro - 80
  • Daniel Rodrigues - 83
  • José Vieira Mendes - 50
  • Filipa Machado - 70
  • Cláudio Alves - 85
73

CONCLUSÃO

Mãe! é um pesadelo. Não o queremos viver de novo mas, de um modo surreal, caótico e desconexo, acaba por dizer bastante sobre nós. Bem distante do nível que Aronofsky já apresentou, não deixa ninguém indiferente. Convida à discussão e à desconstrução, através da abordagem usual do realizador - incomoda, choca, divide, estimula, ofende, impressiona e provoca.

O MELHOR: A reta final, numa descida à loucura, ao caos e à destruição, é polémica mas uma montanha russa bem executada. Jennifer Lawrence está apenas decente, mas "aguenta" a câmara que a segue quase todo o filme, apaixonada pelo seu rosto.

O PIOR: O subtexto do autor é, aqui e ali, verbalizado. Mãe! é tudo menos um filme consensual e universal, castigando a falta de foco. É invariavelmente difícil de mastigar e digerir, um traço partilhado por outros filmes (bons) de Aronofsky.

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Miguel Pontares

Licenciado em Comunicação Empresarial, estudou ainda Escrita de Argumento para Cinema e Televisão. É um dos autores do blog Barba Por Fazer.

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