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‘Malmkrog’, em análise

‘Malmkrog’, o último filme do romeno Cristi Puiu após o muito aclamado ‘Sieranevada’ (2016), é uma espantosa obra de época, que desenvolve um combate dialéctico sobre a ética, a política, a religião e que antecipa muitas das ideias (boas e más) da Europa da actualidade.

Filme de abertura da nova secção Encounters da Berlinale 70, em fevereiro passado — onde esteve também ‘A Metamorfose dos Pássaros’ da portuguesa Catarina Vasconcelos — e vencedor indiscutível do LEFFEST 2020, ‘Malmkrog’ é sem dúvida um dos filmes europeus do ano, no sentido mais lato da palavra e não apenas no contexto geográfico.

Malmkrog

Se no seu filme anterior o cineasta romeno renovava a narrativa de um drama familiar, desta vez Puiu coloca-se num desafio ainda maior, ao realizar uma longa-metragem cuja ação se desenvolve unicamente através de diálogos e cujo o drama reside sobretudo na capacidade dialéctica dos seus personagens. Dir-se-ia que ‘Malmkrog’ é a completa inversão de alguns dos princípios clássicos do cinema, como o do primado da acção sobre os diálogos. Porém, ao longo de suas três horas e vinte minutos de duração, o realizador explora exaustivamente esta forma de fazer cinema através de um texto magnífico e de notáveis interpretações de um elenco de actores praticamente desconhecidos ou vindos do teatro do leste europeu: Agathe Bosch, Marina Palii, István Teglas (‘A Ilha dos Silvos’, de Corneliu Porumboiu, 2019), e no qual se destaca ainda um imponente Frédéric Schulz-Richard (‘Labour Power Plant’, de Robert e Romana Schmalisch, 2019).

VÊ TRAILER DE ‘MALKROG’

A premissa de ‘Malmkrog’ é no mínimo muito interessante e inteligente: no século XIX, um grupo de convidados da classe alta reúne-se na casa de um aristocrata-oficial do exército na Transilvânia para passar o Natal. A partir daí, o filme parece prometer até uma certa diversão e desenvolvimento, no estilo de ‘Os Oito Odiados’, de Quentin Tarantino. Porque se reunem estas pessoas? Que interesses escondem? No entanto, o filme acaba por seguir em outras direcções completamente diferentes: à medida que os convidados — o dono um general russo, que sem qualquer explicação vai-se embora logo no início — se movimentam na enorme casa, vão surgindo diversos debates ideológicos, numa atmosfera que vai aquecendo e, numa tensão que atinge níveis insuportáveis: discussões sobre o bem e o mal, guerra, religião ou cultura europeia, temas que dão uma enorme dimensão cultural e filosófica ao filme. Ao longo da sua extensa duração — que o espectador quase não sente —, Cristi Puiu arrisca tudo nos diálogos, passando as acções para segundo plano. Como em qualquer conversa, algumas partes têm mais interesse do que outras para o espectador, mas sempre numa proposta tão arriscada, que nos faz sair da sala no final em perfeito estado de choque, depois de ficarmos presos na cadeira do cinema as três horas e tal, quase hipnotizados pelo combate dialético dos protagonistas, quase como uma aula de filosofia, na Ágora. As lutas verbais destes aristocratas da Europa de Leste decorrem em francês, a língua comum das elites da época, alternando por vezes com o alemão: dos senhores para os criado(s), e em húngaro deste(s) para os seus subalternos. Da mesma forma, a impressionante cultura dos protagonistas funciona como a ferramenta essencial, para que o argumento dinamize as intervenções dos protagonistas, que estão efectivamente mais próximas dos monólogos do que dos diálogos.

Malmkrog

Puiu divide ainda ‘Malmkrog’ em seis capítulos, onde cada um representa o nome de um dos protagonista e que corresponde igualmente a um tema diferente da longa conversa-debate. Do  ponto de vista formal, a incoerência no desenvolvimento dos acontecimentos torna-se igualmente marcante: nevando ou não no exterior da mansão; a árvore de Natal aparece e desaparece…Enfim, são pequenos elementos que procuram igualmente desorientar ainda mais o espectador, retirando-lhe a noção de um tempo preciso. Puiu apresenta a história a partir do filtro da memória, como se alguém estivesse evocando os acontecimentos do futuro, incorporando e rectificando os detalhes à medida que os ia lembrando. Como resultado, encontramos na narrativa uma desordem cronológica, inversões sem sentido e sobretudo lampejos de genialidade raramente vistos. O grande excesso do filme encontra-se, paradoxalmente, na escassez de planos e nos movimentos de câmera. Faz às vezes também lembrar e é uma óptima referência, os filmes de Manoel de Oliveira. ‘Malmkrog’, são também pouco mais de sessenta planos em mais de duzentos minutos, que colocam a resistência do espectador ao limite. Ainda assim, o realizador consegue usar sabiamente escassos movimentos de câmera, que seguem os criados, para aliviar a tensão das disputas e distrair o espectador, durante  determinadas argumentações mais densas. Por fim, ‘Malmkrog’ destaca-se ainda pela sua impressionante localização na Europa Oriental no final do século XIX, no declínio do Império Austro-Hungaro e do Czarismo da Rússia.

Malmkrog
O realizador romeno Cristi Puiu quase que nos hipnotiza com este ‘Malmkrog’, um monumento dedicado à Europa.

É baseado no livro ‘War, Progress, and the End of History: Three Conversations’ (em português ‘Os Três Diálogos e o Relato do Anticristo’) do filósofo russo Vladimir Soloviov, que Puiu já havia adaptado em ‘Três Exercícios de Interpretação’, naquela que foi a sua quarta longa-metragem, de 2013 e que serviu de ensaio para este novo ‘Malmkrog’. Contudo, o próprio realizador reconhece que este filme teve um prolongado processo de reconstituição histórica e ambiental, uma enorme pesquisa de documentação, e até à casa que funciona quase como mais uma personagem, aliás como o guarda-roupa, que nos transporta para esse tempo de uma forma deslumbrante e credível. Sobressai  ainda naqueles debates a ideia de que a história se repete, para colarem na perfeição essas conversas completamente identificadas com muitos dos conflitos existentes na Europa que vivemos hoje.

 

Malmkrog, em análise

Movie title: Malmkrog

Date published: 25 de October de 2020

Director(s): Cristi Puiu

Actor(s): Agathe Bosch, Marina Palii, István Teglas, Frédéric Schulz-Richard

Genre: Drama, , 2020, 200 min

  • José Vieira Mendes - 95
95

CONCLUSÃO:

‘Malmkrog’, foi o grande vencedor do LEFFEST ’20, e trata-se de um filme provocante cujo interesse reside no combate dialético dos seus personagens soberbamente interpretados, por actores desconhecidos até dos mais cinéfilos. O compromisso do filme está no uso de muitos planos fixos, que pesam sobre uns longos diálogos (ou quase monólogos) sobre tópicos transcendentais e imortais, que atraem os  os cinéfilos mais cultos e todos aqueles que não se importam de renunciar à ação para se centrarem na palavra e no conflito narrativo como motor de uma história. Um filme que é um desafio intelectual e hipnótico, mas também é um grande prazer.

O MELHOR: A notável interpretação dos actores que mais que diálogos prolongam-se em perfeitos monólogos;

O PIOR: Têm alguns momentos do diálogo (ou monólogo) em que o personagem falando fica no plano fixo e que podem se tornar algo aborrecidos para alguns espectadores menos habituados a uma espécie de teatro-filmado.

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José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colaborou no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’  (2014) e 'Mar Urbano Lisboa (2019). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’ (2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’ (2012), Mostras de Cinema da América Latina (2010 e 2011), 'Vamos fazer Rir a Europa', (2014), Mostra de Cinema Dominicano, (2014) e Cine Atlântico, Terceira, Açores desde 2016, até actualidade. Foi Director de Programação do Cine’Eco—Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela de 2012 a 2019. É membro da FIPRESCI.

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