Os Oito Odiados, Mini-Crítica

 

Com Os Oito Odiados, Quentin Tarantino regressou com um western gelado e claustrofóbico sobre um grupo de sacanas que se fecham numa casa e se chacinam como cães danados. O mistério não é o clímax da história, mas antes a razão porque estão ali… para desvendar pelo espectador.

FICHA TÉCNICA

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Título Original: The Hateful Eight
Realizador: Quentin Tarantino
Elenco: Ken Russel, Samuel L. Jackson, Jennifer Jason Leigh.
Género: Drama
Prisvideo | 2015 | 187 min[starreviewmulti id=18 tpl=20 style=’oxygen_gif’ average_stars=’oxygen_gif’] 

 

O oitavo filme do realizador é indiscutivelmente mais um com a forte marca Tarantino. E isso está não só no genérico inicial, como em cada plano que conta uma história trágica, quase toda passada num gelado entreposto do oeste, enquanto neva lá fora, e onde os extraordinários diálogos acabam por sobrepor à ação. Pode-se dizer que é um bocadinho mais do mesmo, mas também mais uma pretensão de Tarantino para ser consagrado pela crítica como cineasta-autor, mais pela palavra, engenho e talento narrativo, do que pelos meios disponíveis da indústria de Hollywood, embora se tratando de uma produção independente.

Russel e Jackson, começam na neve.
Russel e Jackson, começam na neve.

‘…neste filme Tarantino parece ter crescido como autor e sobretudo como argumentista…’

Só que em Os Oito Odiados, Tarantino vai mais longe numa construção narrativa dramática que nos transporta quase para a cena e para os códigos do teatro de Shakespeare, improvavelmente localizado em pleno oeste americano. E neste filme Tarantino parece ter crescido como autor e sobretudo como argumentista, ao conseguir com uma extraordinária mestria e génio, levar para o plano visual muitas decisões narrativas, dando a Os Oito Odiados, uma dimensão ainda mais reflexiva sobre a maldade humana e ao mesmo tempo fazer com que o seu humor negro se sinta nos diálogos ainda mais natural, que nos seus filmes anteriores.

Vê Também: Trailer de Os Oito Odiados

Durante uma forte tempestade de neve, o caçador de recompensas John Ruth (Kurt Russell) transporta numa diligência, Daisy Domergue (Jennifer Jason Leigh), uma procurada criminosa, que este espera trocar por grande quantia em dinheiro. No caminho, os viajantes aceitam transportar outro caçador de recompensas, ex-capitão federado Marquis Warren (Samuel L. Jackson), que está de olho em outro tesouro, e o futuro xerife Chris Mannix (Walton Goggins), que está prestes a ser empossado na sua cidade. Como as condições climáticas pioram, a diligência e os viajantes procuram abrigo no Armazém da Minnie, onde estão outros quatro desconhecidos abrigados (Michael Madsen, Tim Roth, Demian Bichir, Bruce Dern). Aos poucos, os oito viajantes começam a descobrir os segredos sangrentos uns dos outros, levando a um inevitável confronto entre verdadeiros ‘filhos da p*ta’.

oito odiados
Grande parte do filme passa-se numa cabana.

‘Um drama perfeito e que consegue agarrar o espectador durante mais de três horas de filme.’

Tarantino começa o filme em exteriores e curiosamente nos códigos clássicos do western americano: a diligência que avança pelas planicies geladas, transportando os personagens principais e chaves da história. No entanto, fecha-os depois numa cabana entreposto-de-diligências e torna-os participantes de um drama coral de mistério (‘whodunit’) à porta fechada, onde pouco a pouco, um grupo de ‘sacanas sem lei’, vai revelando a sua ambiguidade, quem são e o que estão ali a fazer. E tudo é perfeito neste espaço fechado: o perfil imprevisível dos personagens (talvez apenas um deles é mais ou menos previsível), o seus movimentos que marcam as formas do género western, os sotaques, as marcações, no fundo a encenação (a mise-en-scène, para dar um toque mais autoral) e o desenvolvimento do enigma, para que se possa chegar a um clímax, ou vários clímax, inesperados. Um drama perfeito e que consegue agarrar o espectador durante mais de três horas de filme.

Um bando de sacanas sem lei.
Um bando de sacanas sem lei.

‘…é daqueles filmes em que ficamos sempre aquela sensação de ‘falsete’ em relação à violência estilizada…’

A lógica do western à partida, parece ser o de uma continuação de Django Libertado (2012), num combinado com a imprevisibilidade da história de Sacanas Sem Lei (2009). No entanto, Os Oito Odiados, é uma tragédia sangrenta e imoral mais próxima de ‘Cães Danados’ (1991), o filme de estreia de Tarantino. Tem como é habitual nos seus filmes anteriores, muitos piscar de olhos cinéfilos aos vários géneros e clássicos: das várias adaptações ao cinema dos mistérios de Agatha Christie, ao sangue, às asas e vísceras de ‘O Exorcista’, de William Friedkin (1973), e um pouco também do inesperado de ‘A Coisa’, de John Carpenter (1982). Mas no essencial é daqueles filmes em que ficamos sempre aquela sensação de ‘falsete’ em relação à violência estilizada, à verosimilhança daquelas personagens raras e se tudo aquilo que nos contaram é verdadeiro ou falso, como a carta de Lincoln. Um filme absolutamente genial e um dos melhores da obra de Quentin Tarantino.

O MELHOR: o filme todo, sobretudo para os fiéis admiradores do realizador.

O PIOR: descubram!

JVM

 

José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colaborou no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’  (2014) e 'Mar Urbano Lisboa (2019). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’ (2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’ (2012), Mostras de Cinema da América Latina (2010 e 2011), 'Vamos fazer Rir a Europa', (2014), Mostra de Cinema Dominicano, (2014) e Cine Atlântico, Terceira, Açores desde 2016, até actualidade. Foi Director de Programação do Cine’Eco—Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela de 2012 a 2019. É membro da FIPRESCI.

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