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O Espião Inglês, em análise

‘O Espião Inglês’ (‘The Courrier’), do realizador britânico Dominic Cooke, com Benedict Cumberbatch como protagonista, não é apenas mais um thriller passado durante a Guerra Fria. É baseado em factos reais e desenvolvido no contexto da Crise dos Mísseis de Cuba.

Greville Wynne (Benedict Cumberbatch) um dinâmico empresário, é contactado por Emily (Rachel Brosnahan), uma agente da CIA, que juntamente com o MI6, os serviços secretos britânicos, convencem-no para além da sua actividade, a desempenhar um papel excecional na Guerra Fria. Em lados opostos da Cortina de Ferro, o empresário britânico e o oficial soviético Oleg Penkovsky (Merab Ninidze) vão criar uma parceria secreta e arriscada, criando uma camaradagem e mesmo uma amizade improvável, fornecerem a inteligência crucial e necessária, enquanto os dois lutam por evitar um conflito nuclear e neutralizar o Crise dos mísseis de Cuba. Na verdade, as atividades secretas de Wynne e Penkovsky, e a relação que estabeleceram, constam de vários livros de história da espionagem e acabaram por inspirar Tom O’Connor (O Guarda-Costas e o Assassino e Fogo Contra Fogo) que escreveu o argumento de ‘O Espião Inglês’, um filme realmente feito a partir de factos reais dos bastidores da guerra secreta russo-americana, condimentado obviamente, com um pouco de ficção. O realizador Dominic Cooke, tem uma longa carreira no teatro e, recentemente, trabalhou na série de televisão ‘The Hollow Crown, juntamente com Benedict Cumberbatch, razão pela qual voltaram a reunir-se. Nomeado para Óscar de Melhor Ator por O Jogo da Imitação, Cumberbatch é Greville Wynne, e o ator Merab Ninidze (A Lua de Júpiter), é Oleg Penkovsky, a quem se junta Rachel Brosnahan, actriz nomeada para dois Globos de Ouro pela magnífica e aclamada série The Marvelous Mrs. Maisel. O filme teve a sua estreia mundial no Festival de Sundance 2021 e chegou enfim, finalmente às salas de cinema nacionais. 

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No início dos anos 60, um engenheiro electrotécnico britânico Greville Wynne (Benedict Cumberbatch) mantinha com dificuldade o seu pequeno e inovador negócio de patentes. Mesmo assim vai promovendo os seus produtos, geralmente pequenas invenções britânicas, em todo o mundo e consegue viajar várias vezes por ano e conseguir mesmo mercado de exportação — embora obviamente limitado, mas para ele, com potencial de desenvolvimento — nos países para lá da Cortina de Ferro. Porém, as suas inofensivas atividades comerciais tornam-no de uma forma quase improvável, num mensageiro ideal para o MI6, os serviços secretos britânicos. A missão de Wynne, passa assim por entrar em contato com Oleg Penkowski (Merab Ninidze), em Moscovo, um oficial soviético, também ligado às actividades comerciais e às inovações tecnológicas. Durante anos Penlowski entregou a Wynne, mais de 50 microfilmes, contendo informações secretas sobre o programa de armas nucleares soviéticas, que acabaram por chegar às mãos da inteligência britânica e americana. Em troca, Wynne foi recebendo mais patentes para impulsionar a produção de bens de consumo na União Soviética. Durante estes encontros, entre Penkowski e Wynne vai também nascer uma particular aproximação e amizade entre os dois. Enquanto isso, Sheila (Jessie Buckley), a esposa de Wynne, suspeita que por trás das viagens frequentes a Moscovo do marido, há algum caso amoroso, ao passo que Nina (Emma Penzina), a esposa de Penkoswki, está encantada com o novo relacionamento do marido, no ocidente.

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Benedict Cumberbatch. Nos Audiovisuais ©

O relacionamento cordial e humano entre os dois homens é o centro deste thriller de Dominic Cooke, aliás o seu segundo trabalho como realizador, numa carreira que provém dos palcos de teatro. Talvez por isso, este humanista drama de espionagem é solidamente encenado, seguindo os melhores padrões do género, sempre muito apelativo para os espectadores de cinema. As referências são também evidentes a partir de filmes como O Toupeira (2011), de Tomas Alfredson (onde Cumberbatch vestiu igualmente a pele de um agente britânico na Guerra Fria). ou A Ponte dos Espiões (2015), de Steven Spielberg. Porém, ‘O Espião Inglês’ (ou melhor ‘The Courrier’ no original) é baseado nas memórias de um dos próprios protagonistas: Greville Maynard Wynne. Talvez por isso, consiga evocar de uma forma bastante convincente no espectador, o  drama vivido pelo mundo, no início dos anos 60, uma época marcada pelo medo da Guerra Fria e de um eminente ataque nuclear. As cenas de Londres são tão atraentes quanto as de uma Moscovo cinzenta, tendo estas ainda mais impacto que as do ocidente, porque nos dão quase sempre uma sensação de vertigem e perigo; um espião amador nesta situação poderia facilmente sucumbir à sua própria paranóia e insegurança. Mas não, Cumberbatch interpreta o simpático e estroino Wynne com brilhantismo, construindo ao mesmo tempo um homem corajoso, disposto a pagar um preço, para evitar que o mundo se precipite numa guerra nuclear. Digamos mesmo que, com todo o mérito, Cumberbatch carrega uma boa parte do filme às costas e o filme é mesmo feito para ele brilhar. 

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Contudo Cooke conta além de Benedict Cumberbatch, com a subtil e discreta interpretação de Merab Ninidze — aliás como era suposto ser na altura um militar soviético — para criar os duas personagens ambivalentes e com várias camadas. Não há nada de heróico em nenhum dos dois homens, embora ambos suspeitem que a paz mundial, depende do seu trabalho de espionagem, e não apenas da crise dos mísseis cubanos. Ambos temem pelas suas vidas, sabendo o preço de serem detidos na União Soviética. Penkovsky não tem medo apenas dos serviços secretos, mas também dos riscos que corre a sua família e dos instáveis caprichos do seu Chefe de Estado: Nikita Sergeyevich Khrushchev (Vladimir Chuprikov). Essa atmosfera de paranóia criada por Estaline, face do poder omnipotente do Estado, cujos representantes como Penkowski vivem no luxo para os padrões soviéticos, é muito bem descrita por Cooke, tanto quanto o medo no ocidente, em relação ao perigo comunista e à ameaça nuclear.

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A primeira hora de filme, concentra-se nas relações humanas e diplomáticas existentes e emergentes entre Grã-Bretanha e URSS, representada nesses dois homens; é talvez melhor do que a segunda parte do filme, que se passa praticamente depois da ordem de prisão dos dois espiões. Há também, apesar de um certo fleumatismo britânico, uma dinâmica doce e realista entre a esposa Sheila e o marido Greville Wynne. Buckley tem um excelente desempenho que a leva ao previsível momento em que, depois das desconfianças, tem de se tornar uma esposa forte, que aguarda cautelosamente o regresso do seu marido. Antes pensava que Greville andava a traí-la com outra, quando o vê experimentar mais do que nunca, coisas novas na cama, que nunca tinham feito antes. Buckley lida com isso com o toque certo de perplexidade e contundência, avisando que não será tão compreensiva, se existir outra mulher. Porém, a sua melhor cena é precisamente quando Buckley, percebe a verdadeira natureza do segredo do marido e o facto nunca ter a oportunidade de dizer-lhe, que lamenta não ter confiado nele.

Embora não haja nada de novo ou transformador em ‘O Espião Inglês’, nem no título (mesmo o original ‘The Courier’) trata-se de um filme a ver sem hesitações (e à falta de melhor) graças às interpretações de Buckley, Cumberbatch e Ninidze. Infelizmente, a atuação da talentosa Brosnahan é um pouco plana, talvez porque a sua personagem está um pouco deslocada do contexto: uma americana, numa história bastante britânica. Brosnahan tem inclusive cena marcante, quando para o convencer a trabalhar para os serviços secretos, tenta aterrorizar Wynne descrevendo, o que aconteceria nos primeiros quatro minutos, se uma bomba nuclear atingisse Londres. O diálogo não é muito convincente e não tem o efeito psicológico que o filme procura. Convém não esquecer também a melancólica fotografia de Sean Bobbitt, onde se destacam o cientismo da luz e dos vestuários de época e a banda-sonora de Abel Korzeniowski, que passa sem quase se dar por isso, por ser tão envolvente. Seja como for O Espião Inglês é um daqueles filmes que poderia ter sido feito na época em que se passa, pois sem ser uma obra-prima é convincente, despretensioso e funciona bem.

O Espião Inglês, em análise
O Espião Inglês

Movie title: The Courier

Date published: 22 de June de 2021

Director(s): Dominic Cooke

Actor(s): Benedict Cumberbatch, Merab Ninidze, Rachel Brosnahan

Genre: Reino Unido, Thriller, Espionagem, 111 minutos, 2020

  • José Vieira Mendes - 60
60

CONCLUSÃO:

‘O Espião Inglês’ é um excelente thriller de espionagem baseado em factos verídicos, que conta a história do empresário britânico Greville Wynne (Benedict Cumberbatch), que foi recrutado para ajudar num dos maiores conflitos internacionais da História, precisamente por causa do seu aspecto banal. A pedido do MI6 britânico e de uma agente da CIA (Rachel Brosnahan), criou uma secreta e perigosa ligação com o oficial soviético Oleg Penkovsky (Merab Ninidze), num esforço para obter dados cruciais para evitar um confronto nuclear e desanuviar a Crise dos mísseis de Cuba. O filme é baseado nas memórias de Wynne e é um dos melhores filmes de espionagem sobre a Guerra Fria, dos últimos tempos. Na verdade também não têm havido muitos!

O MELHOR: Sem dúvida a interpretação de Benedict Cumberbatch, o filme é feito à medida dele;

O PIOR: É uma excelente história, mas por vezes um pouco cansativa e pesada. Às vezes é difícil manter o foco e não nos aborrecermos, mesmo que o final valha a pena.

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José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colaborou no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’  (2014) e 'Mar Urbano Lisboa (2019). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’ (2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’ (2012), Mostras de Cinema da América Latina (2010 e 2011), 'Vamos fazer Rir a Europa', (2014), Mostra de Cinema Dominicano, (2014) e Cine Atlântico, Terceira, Açores desde 2016, até actualidade. Foi Director de Programação do Cine’Eco—Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela de 2012 a 2019. É membro da FIPRESCI.

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