Dieter Bachmann é um professor muito especial. ©Medeia Filmes

O Professor Bachmann e a Sua Turma, em análise

‘O Professor Bachmann e a Sua Turma’, é um surpreendentemente, emocionante e inteligente documentário de Maria Speth, sobre um professor do ensino secundário alemão, que merece os maiores elogios do mundo.

O professor Dieter Bachmann acabou de entrar na sala de aula (ou melhor no ecrã) em ‘O Professor Bachmann e a Sua Turma’, mas não é necessário que todos os alunos se levantem, muito menos os espectadores que assistam a esta obra notável e única, que tardava em estrear nas aulas, desculpem, nas salas de cinema nacionais. Porém ‘O Professor Bachmann e a Sua Turma’, o documentário de mais de 200 minutos de Maria Speth, merece ser aplaudido de pé e deveria deixar todos os professores do mundo orgulhosos deste homem, pela sua humanidade, humildade e competência profissional. O filme foi apresentado na Competição da Berlinale 2021 — a apresentada online pode causa da pandemia — e ganhou merecidamente um Urso de Prata (Prémio do Júri). Sobre a realizadora, argumentista e produtora alemã Maria Speth, nascida em 1967, podemos dizer que iniciou a sua carreira como assistente de montagem e de realização. Realizou a sua primeira curta metragem, ‘Barfuss’, em 1999. A estreia em longas-metragens dá-se com o filme ‘In den Tag Hinein’, filme também premiado no Festival de Roterdão em 2001. Em 2007, estreou ‘Madonas’ também na Berlinale, onde regressaria mais tarde com ‘Töchter’, em 2014. Speth surge associada ao grupo designado como ‘Escola de Berlim’, composto por um conjunto de cineastas germânicos que emergiram na década de 90, dando novo fôlego ao cinema alemão.

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Quanto a ‘O Professor Bachmann e a Sua Turma’, o filme é muito mais do que um mero documentário escolar ou sobre uma escola especial: é uma bela história real sobre um ‘mestre’ do ensino secundário, que usa um gorro e uma t-shirt dos AC/DC, que toca guitarra e faz malabarismos, mas que o seu comportamento não está em seguir uma moda educativa, mas antes fazer uma extraordinária e diferente abordagem no seu trabalho e na sua relação com os seus alunos. Curiosamente, a longa duração do filme até funciona a seu favor, que nem damos pelo tempo passar, tornando-se autêntica aula em quase somos também participantes, de como ensinar, de como conhecer uma escola diferente e de como conseguir admirar um professor muito peculiar e os seus métodos; oferecendo-nos ao mesmo tempo, a oportunidade única de conhecer-mos um grupo de jovens de mais ou menos 13 anos, que chegaram recentemente à pequena cidade de Stadtallendorf, na Alemanha, que nasceram ou vivem lá desde muito pequenos. As crianças têm as origens mais diversas, vêm de países como Turquia, Bulgária, Rússia ou Marrocos; são ateus, muçulmanos, católicos e ortodoxos. Não têm nada em comum, mas ao mesmo tempo têm tudo, pelo menos na sala de aula do Herr Bachmann. Por seu lado, Herr Bachmann é um professor altamente heterodoxo, agindo quase como se fosse um pai-substituto para os ‘seus filhos’, ensinando-os a respeitarem-se uns aos outros, a falarem o que pensam e a entenderem os seus sentimentos e aspirações. Tudo isto numa atmosfera de disciplina, descontração e respeito, que traz ao mesmo tempo uma sensação de segurança e de limites para seus alunos, em vez de sufocá-los.

A turma de Herr Bachmann
As crianças têm as origens mais diversas e são filhos de imigrantes. ©Medeia Filmes

Herr Bachmann trabalhou como professor durante dezassete anos neste núcleo social de crianças filhas de imigrantes ou de refugiados. O seu tipo de ensino procura dar respostas diferentes às mais diversas questões que atormentam o nosso mundo: desde a xenofobia aos avanços da extrema-direita. Bachmann é um ex-revolucionário, desertor, cantor popular e escultor nas horas vagas. O seu principal objetivo é transmitir a este grupo de crianças a segurança e equilíbrio para saírem do ninho. Toda a gente possui as suas próprias competências e habilidades. À beira da reforma Bachmann procura ainda despertar nestes jovens cidadãos, já na sua maioria alemães, curiosidade em relação a um vasta gama de profissões, assuntos, culturas e opiniões. Bachmann educa-os para oferecer-lhes perspectivas de um futuro melhor do que o dos pais no novo país, mas também lhes conta como foi a complexa história dessa região da Alemanha e da sua relação histórica com os estrangeiros e imigrantes: durante a II Guerra Mundial, muitos foram levados dos seus países de origem para fazerem trabalhos forçados, quando não mesmo foram exterminados. Da década de 60 à década de 90 a economia alemã dependeu muito do trabalho dos chamados Gastarbeiter (trabalhadores convidados), principalmente da Turquia e num aparte do filme, também curiosamente de muitos imigrantes portugueses. Os conceitos de identidade nacional e cidadania não são imutáveis, pelo contrário podem ser uma escolha e às vezes essa escolha é geralmente muito difícil e estranha principalmente para os mais jovens. Por isso, o documentário de Speth transmite também com um conhecimento profundo e uma análise observacional, que esta escolha, não se trata de uma ação forçada e imposta aos jovens, mas antes de um processo lento de aculturação e de procura de identidade mais ou menos individual.

Herr Bachmann
Herr Bachamann é um ex-revolucionário, desertor, cantor popular e escultor na horas vagas. ©Medeia Filmes

A câmara do director de fotografia Reinhold Vorschneider vai assim observando pacientemente as aulas, os diálogos, os gestos, os sorrisos e sobretudo, a exemplar e descontraída interacção entre os alunos e o admirável professor. Mas também mergulha igualmente na vida privada de Dieter Bachmann, que está longe de ser um mar de rosas ou de ter uma vida fácil, apesar do emprego estável. Não há muito a dizer sobre o estilo ou estética do filme, que poderíamos descrever como um documentário observacional paciente, discreto, eficaz e sensível. A realizadora não precisou de procurar reviravoltas ou descobertas espetaculares, algo que muitos documentaristas muitas vezes são tentados a evocar, encenando artificialmente algumas situações, para melhor construírem um certo sensacionalismo ou uma vontade expressa de veicular uma mensagem mais forte. Pelo contrário, a realizadora deixa o documentário correr por si, limitando-se a observar com descrição, como se a câmara não estivesse ali presente.

O Professor Bachmann e a Sua Turma
Herr Bachmann trabalhou como professor durante dezassete anos neste núcleo social de crianças filhas de imigrantes. ©Medeia Filmes

À medida que o ‘O Professor Bachmann e sua Turma’ se vai aproximando do fim, que  coincide com as crianças a concluir o ensino fundamental (pelo que percebemos, aproximadamente o nosso 9º ano da escolaridade) e o professor a passar à reforma, é um momento, que nos dá uma sensação de conforto e tristeza em simultâneo. As crianças saem do ninho para a vida activa ou seguem outro nível de estudos, enquanto o seu brilhante e extraordinário mestre fica sozinho na sala de aula vazia. Para nós confesso foi um momento muito, mas muito emotivo, que ultrapassa o cinema. Uma lição de vida ou melhor de vidas! Senhores professores, jovens estudantes ou melhor todos, vão já a correr ver este filme. É absolutamente genial!

JVM

O Professor Bachmann e a Sua Turma, em análise
O Professor Bachmann e a Sua Turma.

Movie title: Herr Bachmann und seine Klasse

Movie description: ‘O Professor Bachmann e a Sua Turma’, o documentário de mais de 200 minutos de Maria Speth, merece ser aplaudido de pé e deveria deixar todos os professores do mundo orgulhosos deste homem, pela sua humanidade, humildade e competência profissional.

Date published: 3 de February de 2022

Country: Alemanha

Duration: 217'

Director(s): Maria Speth,

Actor(s): Dieter Bachmann, Aynur Bal, Önder Cavdar,

Genre: Documentário, 2021

  • José Vieira Mendes - 90
90

CONCLUSÃO

Filmado em Stadtallendorf, cidade alemã com uma história complexa no que concerne à integração e exclusão de estrangeiros, este extraordinário documentário   proporciona-nos o dia a dia do Professor (Dieter) Bachmann e da sua Turma, que ensina aos seus alunos a chave para um verdadeiro sentimento de pertença. Com idades entre os 12 e os 14 anos, os jovens-estudantes são provenientes de doze países diferentes e alguns ainda não dominam a língua alemã. Bachmann empenha-se em inspirar estes cidadãos-em-construção a terem curiosidade e vontade de desenvolverem um vasto conjunto de saberes, disciplinas, culturas e opiniões sobre o mundo e sociedade onde vivem.

Pros

É mesmo obrigatório ver este documentário até ao fim porque é uma verdadeira lição de educação e cidadania.

Cons

A duração de mais de 200 minutos pode assustar alguns espectadores, mas ficamos tão envolvidos que o tempo passa num instante.

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José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colaborou no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’  (2014) e 'Mar Urbano Lisboa (2019). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’ (2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’ (2012), Mostras de Cinema da América Latina (2010 e 2011), 'Vamos fazer Rir a Europa', (2014), Mostra de Cinema Dominicano, (2014) e Cine Atlântico, Terceira, Açores desde 2016, até actualidade. Foi Director de Programação do Cine’Eco—Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela de 2012 a 2019. É membro da FIPRESCI.

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