Por Treze Razões

Por Treze Razões, segunda temporada em análise

A segunda temporada de “Por Treze Razões” já estreou na Netflix e nós temos para ti a nossa análise! Queres conhecer a nossa opinião?

Não há nada mais perigoso para uma série de sucesso do que a ambição desmedida dos seus criadores e produtores. Que o diga o mais recente sucesso da Netflix, “Por Treze Razões”. Ninguém estava a contar com o êxito que a série obteve aquando do lançamento da sua primeira temporada. Para a surpresa de muitos, “Por Treze Razões” tornou-se num grande fenómeno televisivo. Poucos dias depois da sua estreia na Netflix, não havia praticamente ninguém que não soubesse de que série se tratava. Mesmo não tendo visto um único episódio. Este efeito viral que a série conseguiu deveu-se bastante às temáticas que abordou ao longo da primeira temporada – abuso sexual, suicídio, bullying, entre outros.

A série dividiu bastante as opiniões dos espectadores. De um lado defendia-se que a série romantizava o suicídio, e surgiu a preocupação de que a série acabaria por incentivar jovens a viver uma situação semelhante à da protagonista a encontrar no suicídio a resposta para o seu sofrimento. No lado oposto, encontrávamos espectadores que consideravam importante que uma série abordasse aquele tipo de questões, quer por alertar um público mais distraído acerca destes problemas, quer por criar um espaço onde fosse possível discutir e debater estes assuntos, sem qualquer tipo de medos ou tabus.

Na altura em que publicámos a nossa análise à primeira temporada, fomos bastante claros quando afirmamos que não deveria existir um segundo capítulo. Contudo, como dissemos há pouco, a série acabou por sofrer devido à ambição dos seus criadores. Nem sempre “mais” significa “melhor”. E isso parece ser algo que os responsáveis por “13 Reasons Why” ainda não perceberam. De acordo com o criador Brian Yorkey, ainda há muita história para contar sobre os personagens de “Por Treze Razões”. E é com esta ideia em mente que surge a temporada 2.

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A segunda temporada de “Por Treze Razões” decide mergulhar a um nível mais profundo na vida dos personagens que se cruzaram com Hannah (Katherine Langford). Utilizando como ponto de partida o julgamento em tribunal onde os pais de Hannah acusam a escola de Liberty High de não ter protegido a jovem, vamos conhecendo mais pormenores sobre a vida da adolescente. Em particular, através dos testemunhos que ouvimos. Com esta táctica, a temporada 2 resolve algumas pontas soltas que ficaram pendentes na primeira temporada, mas também cria mais histórias relacionadas com a protagonista.

Estas histórias oferecem novas perspectivas sobre momentos que testemunhamos na primeira temporada, mas outras acabam por gerar uma versão completamente nova e diferente daquela que ouvimos na temporada 1. Percebemos que o objetivo é salientar uma das ideias centrais da série: uma história tem sempre mais do que uma versão. Mas não acreditamos que esse objetivo seja realmente alcançado. Na verdade, ele tem o efeito oposto e é, no geral, desnecessário, tal como toda esta temporada.

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Vamos por partes. Quando os testemunhos revelam novas informações ou novos pontos de vista sobre situações que o espectador já conhecia, é sempre uma mais valia para a história de Hannah. Porque o que ouvimos e vimos na primeira temporada, foi essencialmente a versão dela. Mais do que isso, fomos limitados a momentos que ela escolheu partilhar connosco. O resto da história, a parte que ela não considerava necessário descrever nas cassetes, ficou por contar. É essa parte que é completada, e bem, por alguns testemunhos. Embora muitos desses momentos pareçam uma tentativa de algumas figuras se redimirem, na generalidade eles são úteis por nos mostrarem como é que Hannah era vista pelos colegas. E de uma forma global, aquilo que Hannah contou, e o que os colegas afirmaram em tribunal, coincidia.

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Mas depois tivemos certos testemunhos que criaram uma história totalmente nova daquela que nos foi contada anteriormente por Hannah. Mais do que criar uma nova história, os argumentistas conceberam uma nova relação entre Hannah e um dos personagens, que nunca foi mencionada na primeira temporada. Na verdade, nem sequer houve uma única pista que desse a entender que aquela relação tinha existido. Quem já tiver visto o sexto episódio, “The Smile at the End of the Dock”, saberá do que estamos a falar.

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Não somos contra aquilo que os argumentistas quiseram fazer com esta revelação. Aliás, a intenção é boa, na medida em que quiseram demonstrar que Hannah não teve apenas experiências traumatizantes. Também teve momentos de alegria e felicidade. O problema não está aí. O que nos causa alguma confusão é a forma como a série decide ignorar uma certa lógica da narrativa só para acrescentar aquilo que na gíria se designa por “palha”. De tal forma que quando essa relação é revelada, qualquer espectador ficará baralhado. Porque nunca foi mencionado nas cassetes. Porque nunca tivemos qualquer indício de que aqueles dois personagens tinham desenvolvido uma relação tão próxima e íntima. Ficamos com a sensação de que aquilo caiu do céu. E isso nunca é bom sinal.

Nesta segunda temporada, “Por Treze Razões” volta a abordar os temas do bullying, abuso sexual e suicídio. Mais especificamente, explorando com mais detalhe as consequências dessas três temáticas. Este é o único motivo pelo qual a temporada não é totalmente inútil. Aliás, este é dos poucos pontos positivos que temos a realçar em relação a esta temporada. E mesmo assim, não podemos elogiá-los a 100%. Mais uma vez, a série “13 Reasons Why” tem a coragem de expor e mostrar problemas que assolam diariamente a vida de jovens por todo o mundo. E fá-lo de uma forma tão real e chocante que é impossível ficar indiferente.

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Contudo, temos que admitir que nesta segunda temporada, talvez tenha existido algum exagero em certos momentos de cariz mais violento, quer a nível físico como psicológico, apenas com o intuito de dramatizar mais as situações do que era realmente necessário. Também é de lamentar a forma como tantas vezes estes assuntos fraturantes foram ofuscados por coisas menos importantes, como o grande mistério em torno das polaroids. Não foi o suspense que fez esta série ter tanto impacto na primeira temporada. E também não é nesta temporada que isso vai acontecer.

Uma das personagens que recebeu mais atenção, no que toca a demonstrar as consequências após certas experiências traumáticas, foi a jovem Jessica Davis. Tal como Hannah, também ela foi vítima de abuso sexual. Felizmente, a série dá alguma atenção a esta história, acompanhando a personagem em todo o processo de recuperação. Desde a fase da negação, do silêncio, do medo, ao sentimento de culpa, às dificuldades que a jovem encontra em relacionar-se com outras pessoas, especialmente rapazes.

Eventualmente, a personagem consegue arranjar coragem para fazer queixa e o culpado acaba por ser ligeiramente punido. Dizemos “ligeiramente” pois tal como acontece em inúmeros casos pelo mundo inteiro, os castigos que estes agressores recebem são sempre insuficientes, especialmente comparado com o sofrimento que a vítima terá de suportar para o resto da sua vida. Mais uma vez, “Por Treze Razões” trata esta questão com bastante frontalidade, e não procura tornar o final mais feliz ou satisfatório só por se tratar de uma história fictícia.

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Sobre a narrativa, infelizmente não temos mais elogios a fazer. Esta temporada não deveria ter acontecido. Os poucos aspetos positivos que ela trouxe não justificam a sua existência. Pelo menos não justificam o número de episódios que teve. E muito menos o tempo que cada episódio teve. Se reduzíssemos para metade dos episódios, talvez as coisas tivessem corrido melhor. Mas a verdade é que esta temporada foi uma confusão. Acima de tudo, não se percebeu qual era o foco e o seu objetivo. A série quis fazer e desenvolver muita coisa ao mesmo tempo, e o resultado foi desastroso. A atenção saltitava de personagem em personagem, de caso em caso, sem nunca chegar a lado nenhum. Tudo o que se conseguia fazer era uma pequena alusão aos problemas dos personagens, sem nunca chegar a nenhuma conclusão, salvo pequenas exceções.

O que também não teve uma conclusão em condições foi a série em si. Se a temporada 2 foi um erro, a possibilidade de existir uma terceira temporada é algo que não faz sentido nenhum. É uma ideia completamente absurda. Mas os criadores de “Por Treze Razões” claramente não pensam o mesmo. Podiam ter feito um bom último episódio, onde os personagens teriam oportunidade de encerrar um ciclo das vidas deles, despedirem-se de Hannah Baker, e seguirem com as suas vidas. Esse seria um final aceitável para a série. Mas como é óbvio, isso não acontece. Não sabemos se vai de facto existir uma terceira temporada. Caso tenha luz verde, será mais um tiro no pé.

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Por último, mas não menos importante, há que realçar o excelente trabalho feito por todo o elenco, como o protagonista Dylan Minnette (Clay), Alisha Boe (Jessica), Brandon Flynn (Justin), Justin Prentice (Bryce) ou Kate Walsh (Mrs. Baker). Cada um, dentro do seu personagem, fez um ótimo trabalho. Em comparação com a primeira temporada, notámos até melhorias significativas em alguns destes jovens atores.

É provável que esta nova temporada de “Por Treze Razões” seja tão viral como a primeira. Mas lamentavelmente, está muito longe de conseguir chegar aos calcanhares da temporada de estreia e de alcançar os mesmos feitos. A primeira temporada continuará a ser memorável e a ter uma enorme importância social. A segunda temporada será simplesmente esquecida com o tempo. Neste momento, o que nos deixa ligeiramente preocupados é que a temporada 2 acabe por prejudicar a temporada 1. Esperemos que não. Em todo o caso, continuaremos sempre a defender a primeira temporada de “Por Treze Razões”, independentemente das temporadas que ela possa vir a ter no futuro. Por agora, o que podemos fazer é fingir que esta segunda temporada nunca aconteceu.

Concordas com a nossa opinião? Achas que vai existir uma terceira temporada?

Por Treze Razões, segunda temporada em análise
por treze razões

Name: Por Treze Razões

Description: A segunda temporada centra-se no rescaldo da morte de Hannah e no início das fases complicadas nas vidas de cada personagem em direção à recuperação e convalescença. A escola Liberty High vai a julgamento, mas há quem tenha interesse em esconder os detalhes sobre a morte de Hannah. Uma série de polaroids sinistras levam Clay e os colegas a descobrir um segredo doentio e uma conspiração que o encobre.

  • Filipa Machado - 50
  • Maria João Sá - 60
55

CONCLUSÃO

O MELHOR: O trabalho de interpretação por parte de todo o elenco. Em questão de narrativa, também é positivo que a série não se tenha esquecido totalmente do que é importante abordar na sua história. Mas não podemos considerar isso "o melhor" da temporada, porque nem isso é bem feito.

O PIOR: Por muito que nos custe admitir, praticamente tudo nesta temporada é mau. Não se foca nas questões pertinentes que levanta. É uma temporada que está completamente perdida. E o pior é que a série pode não ter ficado por aqui.

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Filipa Machado

Licenciada em Estudos Artísticos e uma grande apaixonada (e viciada) por Literatura, Televisão, Cinema e, em especial, por Animação Japonesa.

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