Por Treze Razões, em análise

Por Treze Razões é nova série da Netflix, e é possivelmente uma das mais importantes do serviço de streaming online.

De tempos a tempos, surgem séries cujo objetivo principal, mais do que entreter, é de pôr o espectador a pensar e a reflectir. Não só enquanto vê os episódios, mas também depois de terminar a série. A mensagem que pretende transmitir pode ser social, política, económica ou de outro âmbito qualquer. Por vezes a história que conta serve apenas para alertar o espectador sobre um determinado assunto. E por vezes pode tentar ir mais longe, incentivando o espectador a mudar a sua maneira de agir em relação aos problemas que aborda na sua história.

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Por Treze Razões (13 Reasons Why), a nova série da Netflix, faz tudo o que descrevemos acima. Depois do serviço de streaming ter desenvolvido um vasto grupo de séries, cujas temáticas oscilaram entre o mundo dos super-heróis, até à vida num estabelecimento prisional, chega agora um drama onde os protagonistas são adolescentes. A série adapta a obra escrita por Jay Asher e teve como um dos produtores e realizadores Tom McCarthy, o realizador e argumentista do oscarizado O Caso Spotlight. Para quem pensou que Por Treze Razões é só mais uma série melodramática sobre adolescentes, desengane-se. 

por treze razões

Por Treze Razões começa com o suicídio de uma jovem, Hannah Baker (Katherine Langford). Ninguém consegue perceber exatamente os motivos que a levaram a tomar esta decisão. Porém, antes de pôr fim à sua vida, Hannah gravou um conjunto de cassetes, onde explica as 13 razões que a levaram a suicidar-se. Nestas gravações ela menciona também as pessoas que, de alguma forma, contribuíram para que ela tomasse essa decisão. Uma dessas pessoas é o protagonista, Clay Jensen (Dylan Minnette), que estava secretamente apaixonado por ela. Alguns dias depois da morte de Hannah, Clay encontra à porta da sua casa uma caixa com as cassetes dela. Ao começar a ouvir a primeira gravação, Clay e o espectador iniciam uma viagem ao passado de Hannah e descobrem, episódio após episódio, todos os segredos sobre a jovem e sobre alguns dos seus colegas.

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por treze razões

Ao longo de treze capítulos, Por Treze Razões explora três grandes temas: bullying e cyberbullying; assédio e abuso sexual; e suicídio. Estes são três assuntos muito delicados de abordar. No entanto, a série da Netflix explora-os com uma enorme audácia e respeito. Nunca é sensacionalista, nem tenta ter uma violência gratuita, seja ela física ou psicológica. Acima de tudo, ela encara estes temas com muita frontalidade. Algo extremamente necessário, já que ainda nos dias de hoje existe a tendência para se desvalorizar estas questões, ignorá-las, ou pior, fazer de conta que estes problemas não existem. É precisamente por este motivo que Por Treze Razões é uma série tão importante.

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A série compreende o que é ser um adolescente. Compreende a forma como os adolescentes pensam e como eles se sentem perante determinadas situações. Tem noção de como funciona a pirâmide social destes jovens, e as consequências que advêm dela. E acima de tudo, não tem medo de pôr o dedo na ferida e mostrar como é que os jovens interagem e se relacionam atualmente. Especialmente agora que as redes sociais são algo quase omnipresente na vida das pessoas, e em particular na dos adolescentes.

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Ao longo da série, acompanhamos a jornada penosa de Hannah. Tudo começa quando se espalha um rumor falso sobre ela, que para muitos é insignificante. No entanto, para a jovem é o princípio do fim. Este primeiro rumor torna-se no catalisador para a bola de neve que entretanto se vai formar, onde se irão acumular mais humilhações, mais mentiras, mais insultos, mais abusos, até culminar no evento mais traumático da sua vida e que a destrói por completo. Lentamente, a rapariga alegre e radiante que conhecemos no primeiro episódio começa a desaparecer. O brilho dos seus olhos extingue-se. O sorriso desvanece-se. E no lugar de uma jovem feliz fica um ser humano cuja corpo e alma foram continuamente e gradualmente destroçados. 

por treze razões

Este é um percurso muito angustiante de testemunhar. Especialmente porque a série apresenta a personagem de uma maneira que nos faz olhar para ela como se fosse nossa amiga. Este nível de empatia e compaixão que o espectador cria deve-se principalmente à excelente performance de Katherine Langford. E é inevitável não sentir uma dor profunda quando chegamos ao último episódio, mesmo já sabendo desde o início o que iria acontecer. Mas é uma dor necessária. Só assim a mensagem consegue ser recebida pelo espectador por completo.

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A série obriga o espectador a encarar todas aquelas situações e deixa bem claro que aquilo que ele está a ver não é ficção, embora se trate de uma série televisiva. Não é inventado. É verdadeiro. E é, infelizmente, a realidade de milhares de pessoas. A história de Hannah pretende ser um exemplo e servir de alerta. Mostra como as palavras podem magoar os outros mais do que se possa imaginar. Mas o que é mais marcante e importante nesta história é a forma como nos diz que devemos ser responsáveis pelos nossos actos e arcar com as consequências. Por Treze Razões quer acima de tudo sensibilizar quem vê a série. E consegue-o. Pelo menos espera-se que ninguém lhe fique indiferente. 

por treze razões

O modo como a série decidiu explorar as figuras que compõem a história é das suas características mais interessantes, e uma atitude louvável. Ao contrário do que se esperaria, nenhum dos personagens é plano, nem refém do seu aparente estereótipo. Ninguém é perfeito. Mas também ninguém é mau ou injusto, só porque tem de o ser ou só porque a série precisa de vilões. Na verdade, quase todas as personagens mencionadas nas cassetes são vítimas, tal como Hannah, embora de formas distintas.

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Por Treze Razões procura mostrar como cada um daqueles adolescentes tem os seus próprios problemas e medos. Mas nunca tenta usar isto como uma justificação para as atitudes injustas e cruéis que eles tiveram com Hannah. Até mesmo esta personagem é retratada com muita veracidade e realismo. Hannah é sem dúvida a principal vítima deste drama. Contudo, a série preocupa-se em mostrar que a jovem, tal como todos os personagens, também tem os seus defeitos e também comete erros. 

Embora o foco da série esteja no grupo de adolescentes, os adultos também desempenham um papel importante na história. Contudo, é um desempenho maioritariamente negativo. Especialmente os adultos que interagem com os jovens no ambiente escolar. O suicídio de Hannah apanha toda a comunidade escolar de surpresa. Será que ninguém tinha percebido que algo estava errado? Será que não houve sinais ou pistas que indicassem algum tipo de mudança na vida desta aluna? Ao ouvirmos as cassetes e viajando entre o passado e presente, descobrimos uma realidade alarmante. 

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Das vezes que Hannah procura algum tipo de ajuda ou tenta mostrar que há algo de errado, nunca lhe dão a devida atenção. Nunca se mostram interessados ou preocupados em ajudá-la. Mas o pior chega quando uma das pessoas a quem Hannah recorre desvaloriza o seu sofrimento e mostra uma total falta de compreensão em relação a tudo o que ela lhe contou. Esta última situação, que foi na verdade o último grito de ajuda da jovem, põe um ponto final na decisão que ela tinha tomado de pôr fim à sua vida.  

A série critica severamente o sistema escolar por não estar tão atento como devia à vida dos alunos. E estará sempre de parabéns por ter demonstrado esta realidade, que possivelmente muitos espectadores desconheciam ou não acreditam que existe. Contudo, tanto esta questão, como o próprio caso de Hannah, não podem ser generalizados. Nem todos os professores são como os que conhecemos nesta história. Nem todos os jovens que são vítimas de bullying/cyberbulling acabam por se suicidar. E nem todos os jovens que se suicidam sofreram bullying ou foram assediados/abusados sexualmente.

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Por Treze Razões tem recebido algum feedback negativo por só ter apresentado esta história apontando o dedo a tudo o que se faz de errado em situações semelhantes à de Hannah. E de certo modo isso é verdade. Mas não significa que a série seja má por isso. A questão é que a série se foca única e exclusivamente neste caso, e só assim consegue transmitir a sua mensagem. Tal não teria acontecido com o mesmo impacto se a série se tivesse focado noutro caso e noutra realidade, onde o final acabou por ser mais feliz.

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Mas a série da Netflix também tem as suas falhas. A nível estrutural, existe uma certa repetibilidade. Embora a opção de ouvirmos uma cassete por episódio possa criar a sensação de mistério e suspense, depois dos episódios iniciais este efeito perde a sua força. Isto é bastante evidente nos vários momentos em que Clay se recusa a ouvir o resto das cassetes, por ser demasiado doloroso, e exige que lhe digam o que está nas gravações.

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Como é óbvio, a resposta é sempre a mesma. “Tens de ouvir as cassetes, Clay”. Se ele não ouvir, nós também não ouvimos. E ficaremos sem saber o que aconteceu a Hannah, já que ninguém está disposto a revelar essa informação. Portanto, qualquer ambiente mais enigmático que podia ser criado em torno das cassetes nem chega a existir. Seria aceitável que usassem esta táctica um ou duas vezes, no máximo, para mostrar o efeito que as cassetes estão a ter em Clay. Mas quando este método é utilizado frequentemente e exageradamente, só prejudica a estrutura e o ritmo de toda a série.

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Existe alguma especulação sobre uma eventual segunda temporada de Por Treze Razões. Vamos ser sinceros: esperemos que tal nunca se venha a confirmar. Seria um erro tremendo. 13 Reasons Why foi sobre Hannah. E a história dela foi contada. A lição de moral foi aprendida pelos personagens e pelos espectadores. Não precisamos de ver mais nada. É verdade que há muita coisa que fica em aberto no último episódio, mas isso faz parte da vida e não significa que tenhamos de atar essas pontas soltas. Se existir uma segunda temporada, todos os feitos conseguidos pela série, e o seu impacto, terão sido em vão.

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Por Treze Razões é uma série importante, que através da sua história faz um alerta sobre os três temas que aborda e contém uma poderosa mensagem social que não deve ser ignorada. Para além de querer alertar, a série da Netflix procura sensibilizar e consciencializar o espectador para estes problemas. E por último, Por Treze Razões faz ainda um enorme apelo para que se mudem as atitudes face a estas questões. É, sem dúvida, uma série obrigatória para qualquer jovem adolescente e qualquer adulto.

Por Treze Razões, Em Análise
por treze razões

Name: 13 Reasons Why

Description: Após o desconcertante suicídio de uma adolescente, um colega recebe uma série de cassetes que revelam o mistério da sua trágica escolha.

  • Filipa Machado - 80
  • Jorge Lestre - 90
  • Ana Rodrigues - 90
  • Luís Telles do Amaral - 50
78

CONCLUSÃO

Por Treze Razões é uma série importante, que através da sua história faz um alerta sobre os três temas que aborda e contém uma poderosa mensagem social que não deve ser ignorada. Para além de querer alertar, a série da Netflix procura sensibilizar e consciencializar o espectador para estes problemas. E por último, Por Treze Razões faz ainda um enorme apelo para que se mudem as atitudes face a estas questões. É, sem dúvida, uma série obrigatória para qualquer jovem adolescente e qualquer adulto.

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Filipa Machado

Licenciada em Estudos Artísticos e uma grande apaixonada (e viciada) por Literatura, Televisão, Cinema e, em especial, por Animação Japonesa.

3 thoughts on “Por Treze Razões, em análise

  • m valente soco no estômago!! Criei empatia com a Hannah e o Clay!! Os dois últimos episódios são de cortar a respiração e de ficar esmagado pelos acontecimentos!! Conseguimos, realmente, sentir a dor das personagens, mesmo daquelas que vieram a fazer com que se desse o tal desfecho!! Falar abertamente sobre o suicídio, bullying, depressão, solidão, indiferença, a falta de empatia, não é fácil, ainda para mais numa série! O último episódio deixa muitas pontas soltas, que somente deixa-nos a pensar no que acontecerá depois e não é preciso fazer uma nova temporada para sabermos o que há por vir!! São vidas em suspenso, com falta ao que se agarrar, em que a esperança de um amanhã melhor se vai desvanecendo dia após dia e que se não sentirem um apoio efectivo ao seu lado, quem diga “amanhã vai ser um melhor dia, certamente melhor dia que hoje”, têm um fim trágico! Série recomendável, pelo que significa, pelo debate que trás para cima da mesa, pela qualidade da fotografia, da banda sonora, das actuações!! Não deixei de me comover, porque como disse, senti a dor das personagens como fossem minhas e eu não sofri de qualquer das situações descritas, aliás, estava mais para um Clay, do que propriamente para todas as outras personagens!! “A amizade é complicada”!

  • Adorei a série, tenho 40 anos e não acho que seja uma série apenas para jovens, bem pelo contrário, é um aviso dos perigos de não se dar atenção aos nossos jovens, de tentar resolver/menorizar os seus problemas, as suas questões. Achei muito triste e ainda hoje (acabei de ver ontem a série toda) sinto uma dor no peito que não consigo explicar! Acho muito boa a série e concordo com tudo o que foi dito acima e também não quero uma segunda temporada, acho que vai desvirtuar tudo o que foi feito nesta, independente de ficarmos sem resposta a muitas questões, ao que se vai passar com os outros intervenientes, mas esta foi a história da Hannah e foi uma história muito bem contada!!! 10 Estrelas para a série, das melhores que vi!!!

  • Pingback:

  • 13RW

    Sobre o livro:
    Ora bem, este livro trata de um tema sensível e é importante ser lido.
    O livro é maravilhoso e faz-nos pensar na vida e nas decisões que tomamos diariamente, mostra-nos como nos vemos e como vemos os outros.
    O livro fala de suicídio, bullying e morte.
    Temas tabus nas escolas, mas este livro deveria de ser discutido em aulas.
    Adorei o livro, mas penso que o Clay não fez nada à Hanna para estar na cassetes.
    O Clay só está nas cassetes para romancear o livro, não mais do que isso.
    Mas sim, ele poderia ter feito mais mas ele não sabia como estava a Hanna.
    É fácil disfarçar, algo que a Hanna fez.
    A Hanna é a personagem base do livro e é bem construída, mas devíamos conhecer mais os pais dela.
    A Hanna é uma personagem que nos faz pensar em nós, eu que o diga pois vi imensas coisas que ela tinha em mim.
    A Hanna fez-me lembrar de mim em certas coisas e eu senti-me ligado a ela, o que nem sempre é bom.
    Eu compreendo a ira que a Hanna tinha nas cassetes, a fúria dela é palpável.
    Não me vou alongar mais, apenas espero que leiam o livro.
    PS, as lágrimas vieram-me aos olhos em algumas páginas.
    Sobre a série:
    Ponto 01: A série é fiel ao livro, mas ambos tomam diferentes rumos.
    Ponto 02: Os livros costumam ser mais profundos do que as adaptações, mas neste caso a série consegue ser ainda mais profunda do que o livro.
    Ponto 03: No livro não disseram que a Courtney era lésbica, mas na série disseram só que eu tinha notado isso no livro também.
    Ponto 04: O bullying é nojento, perigoso e pode matar e o Clay não deveria ter tido aquela atitude com o Tony.
    Ponto 05: Avé Kate Walsh, que papelão.

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