Verdade, em análise

No seu “debut” como realizador, James Vanderbilt atira-nos com esta fita controversa, que explora os lóbis da política americana e a desmantelação do jornalismo de investigação na sua essência. “Verdade“, não tem papas na língua: é mordaz, corrosivo e assustadoramente real. Blanchett é uma leoa feroz de braço dado com o Sr. Redford, que ainda está aí para as curvas e contracurvas.

Vivemos tempos conturbados, em que o medo mora ao virar da esquina e a suspeição de tudo e de todos nunca fora tão petrificante desde a Guerra Fria. E se naquela altura, o secretismo da informação era o bem mais valioso na corrida ao armamento bélico, agora as armas são mais prosaicas, e a verdadeira “bomba nuclear” reside no poder dos media à escala global. Eles são, por uma clara necessidade de elucidação ou simples ética: a nova polícia das consciências, os libertadores da ignorância, os optometristas da cegueira, os carrascos das mentiras fabricadas. Mas cuidado, avancemos com máxima cautela, neste pântano minado de uma veracidade que só cola no tribunal da argumentação, se as fontes forem credíveis e os factos irrefutáveis.

“Blanchett foi uma escolha iluminada para interpretar o papel desta mulher vigorosa, desta ursa do jornalismo, que não se amedrontou na hora de agitar as águas, aonde habitam os grandes tubarões intocáveis.”

É neste ponto nevrálgico que a audácia de Vanderbilt produz o seu mérito, desafiando o buraco negro do jornalismo de investigação, aquele que tenta sugar da notícia boa a sua credibilidade originária. Mas a demanda pela verdade é uma urgência que nem sempre pactua com o tempo de espera da sua revelação. E foi naquele escaldante Verão eleitoral de 2004, que Mary Mapes (Cate Blanchett) e Dan Rather (Robert Redford) assassinaram o nome e a reputação, levando para a “cova” o prestigiado magazine “60 Minutos” da cadeia televisiva norte-americana CBS. Em causa estavam alegados memorandos, que potencialmente beliscavam a folha de serviço militar de George W. Bush, aquando da sua recandidatura à Casa Branca.

verdade-analise-imag1

Lê Mais: Verdade | Nos cinemas a 31 de março

As perigossíssimas alegações de Mapes na eloquente voz de Rather, rapidamente treparam aos ouvidos dos espetadores em tom não menos escandaloso, precipitando uma vitória jornalística que já estava no papo, num dos maiores fiascos da história do jornalismo moderno. E para a equipa maravilha de “60 Minutos” – que ainda colhia os louros do furo sensacionalista de “Abu Ghraib“, sobre tortura e sodomia de soldados americanos a prisioneiros iraquianos durante a administração Bush, a proposição de manchar a sua campanha presidencial e espetar mais um prego no seu caixão, perfilava-se como a derradeira epifania para a produtora Mary Mapes. Claramente, que “Mapes & Co.” desenvolveram uma certa antipatia pelas políticas bushianas, e se a peça de Ghraib serviu para elucidar uma liberalista feminista, que defende afincadamente a igualdade de género e tratamento, então, por essa via, já se torna percetível o alcance da sua propaganda ideológica em denunciar o abuso de poder e o tráfico de influências imiscuído entre os oficiais do exército americano.

“Vanderbilt é eficaz a empilhar os factos para que não percamos o fio à meada, mas a riqueza da trama não se esgota na sua propaganda mediática, aliás, é quando se afasta dela e se vai desvelando nas profundezas emocionais do triplo “Chardonnay” complacente de Mary e Dan.”

Não fosse James Vanderbilt um leitor assíduo da “Vanity Fair” – que publicou um excerto do passado profissional de Mapes, para o mesmo argumentista de “Zodiac” ter pegado no material das suas memoiresTruth and Duty: The Press, the President, and the Privilege of Power“, e achar que o bichinho redator impunha uma nova incursão ao fundo da questão de “Memogate“. Blanchett foi uma escolha iluminada para interpretar o papel desta mulher vigorosa, desta ursa do jornalismo, que não se amedrontou na hora de agitar as águas, aonde habitam os grandes tubarões intocáveis. E quando lhe cai no colo, literalmente, uma cópia das anotações privadas do Coronel Jerry B. Killian – pressionado a admitir o ingresso do jovem Bush na Força Aérea do Texas com o intuito de se furtar à guerra no Vietnam, Mary Mapes e a sua voluntariosa equipa de investigadores aceleram a exibição da peça para seu próprio mal. A encanzinação surge quando o provedor da carta – um outro Coronel de nome Burkett (Stacy Keach) jurou a pés juntos a autenticidade da prova e, Mary Mapes, fazendo fé na palavra de uma alta patente militar, ainda que aposentada, deixa-se ludibriar pela oportunidade aliciante de poder desferir o golpe fatal no Presidente Bush, descurando uma análise mais minuciosa dos documentos incriminadores.

Lê Também:
Três Mil Anos de Desejo | Ganha convites com a MHD

verdade-analise-imag2

Lê Também: Cavaleiro de Copas, em análise

Daqui em diante, só podia cair o Carmo e a Trindade com bloguistas e partidaristas republicanos a insurgirem-se contra o conteúdo das cartas redigidas por Killian, afirmando que as mesmas não passavam de cópias forjadas em Microsoft Word. Picuinhices como o espaçamento das palavras e o sobrescrito numérico “th” ganham aqui um valor exacerbado nas mãos de Vanderbilt – que tem este gostinho de fazer transpirar o detalhe miúdo, enquanto a profícua investigação de Mapes encabeçada por Rogers (Quaid), Mike (Topher), Lucy (Moss) esgravata por verdades que mantenham os jogadores dentro de um jogo viciado. Vanderbilt é eficaz a empilhar os factos para que não percamos o fio à meada, mas a riqueza da trama não se esgota na sua propaganda mediática, aliás, é quando se afasta dela e se vai desvelando nas profundezas emocionais do triplo “Chardonnay” complacente de Mary e Dan, que temos contacto com o grosso da verdadeira história. E podem arremessar a Blanchett as falas mais ásperas e arranhadas, que a mulher não se desvincula da sua elegância, ainda para mais quando escoltada por um eloquente Redford – que ainda nos agarra pelas palavras como ninguém. Os dois, em uníssono, entregam-se de copo e alma como estes mártires do jornalismo de excelência, num claro manifesto pela sua idoneidade intelectual e profissional.

“Numa visão mais telescópica é seguro afirmar, que Vanderbilt tenha-se refugiado na verdade pública como pretexto para fazer emergir a verdade privada, não querendo oferecer as respostas sem antes fazer as perguntas.”

Em “Verdade”, o realizador americano, não pretendeu somente aflorar os meandros deste folclore presidencial, mais do que isso, trata-se do testemunho cru e desmaquilhado de uma equipa de jornalistas cujas vidas foram destroçadas pela defesa da sua honra e convicções pessoais. E talvez possamos ir mais longe nessa linha de pensamento; talvez a fixação de Mary Mapes no caixote de lixo de Bush tenha-se configurado no seu cavalo de Tróia, devido à escuridão do seu passado familiar, à “potestas” da figura masculina despótica, recriminadora e transgressiva. Numa visão mais telescópica é seguro afirmar, que Vanderbilt tenha-se refugiado na verdade pública como pretexto para fazer emergir a verdade privada, não querendo oferecer logo as respostas sem antes fazer as perguntas. E é nessa cadência de dúvida e concretização sistémica, que a narrativa evoca a atenção do espetador deliberadamente autonomizado na formulação da sua leitura dos acontecimentos, engolfado na dupla face dessa “Verdade” de uns e de outros.

Lê Também:
Três Mil Anos de Desejo | Ganha convites com a MHD

verdade-analise-imag5

“Verdade” é um filme que exige a nossa total atenção, não pela possível deserção à guerra por parte do ex-presidente texano, mas pelo esforço destrutivo que tal fait diver pode desencadear na vida política, social e a título individual. Destroem-se pessoas e famílias só por se destapar um “buraco” que se quer bem tapado, só por por ousar questionar e informar o cidadão comum. “Verdade” é um debate documental sobre os limites materiais do jornalismo e os limites morais do ser humano, que põe em causa direitos fundamentais e remexe nas areias movediças da mais nobre e antiga profissão de sempre, uma que ainda se dá ao luxo de poder gritar: “F.E.A”!

O MELHOR – A química instantânea e fulgurante de Blanchet e Redford impressiona.

O PIOR – Alguns enquadramentos menos conseguidos, sobretudo no arranque do filme, não lisonjeiam Mary Mapes e o espírito dos factos em questão.


Título Original: Truth
Realizador:  James Vanderbilt
Elenco: Cate Blanchett, Robert Redford, Topher Grace, Dennis Quaid, Bruce Greenwood,
NOS | Drama | 2015 | 125 min

verdade-análise-post[starreviewmulti id=18 tpl=20 style=’oxygen_gif’ average_stars=’oxygen_gif’] 


MS

 

Miguel Simão

Jurista e Poeta em algumas horas vagas. Cinéfilo incurável com forte pancada pelo sci-fi, que se perde algures pelo vício noturno de umas quantas séries televisivas de renome; amaldiçoado pelo perfecionismo estético de uma resma de palavras mais ou menos caras. Podem encontrar-me a divagar entre a Terra e o Espaço no meu blogue premiado Última Transmissão Humana.

Miguel Simão has 141 posts and counting. See all posts by Miguel Simão

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.