foto de José Vieira Mendes

Crónica | Os olhos de Vivian Maier

O documentário ‘À Procura de Vivian Maier’, de John Maloof e Charlie Siskel (foi candidato aos Óscares na sua categoria em 2014), é sem dúvida, um excelente complemento à exposição ‘Vivian Maier: Street Photographer’, que está em exibição no Centro Cultural de  Cascais. Ambos a não perder!

Vivian Maier passou grande parte de sua vida a trabalhar como uma anónima ama de crianças da classe média-alta, das duas maiores cidades dos EUA. Em 2007, foram encontrados guardados em caixas numa casa de leilões em Chicago — onde ela vivia e acabou por falecer — uma enorme quantidade de negativos, algumas fotografias, além de rolos ainda por revelar.

Crónica | Os olhos de Vivian Maier
©Midas Filmes

O impressionante trabalho de Vivian Maier, e as suas fabulosas imagens feitas nas ruas das cidades, mostram as pessoas no seu dia-a-dia (sobretudo os mais pobres) e a arquitetura dos locais; e até como as suas selfies, a tornaram de repente, numa das maiores fotógrafas do século XX, com os seus mistérios e personalidade, revistos no documentário ‘À Procura de Vivian Maier’, de John Maloof e Charlie Siskel (candidato aos Óscares na sua categoria em 2014). O filme é sem dúvida, um excelente complemento à exposição ‘Vivian Maier: Street Photographer’, em  Cascais.

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A exposição é evidentemente uma oportunidade (vai estar até 18 de Maio) para conhecer melhor ao que parece o infindável mundo da misteriosa fotografa (franco)-norte-americana, que assenta além de tudo em maravilhosas fotografias e retratos de rua basicamente feitos entre Nova Iorque e Chicago, com uma Rolleiflex (em película 6×6) — onde trabalhou como ama de crianças e a fotografia era a sua fuga criativa — entre 1953 e 1984; mas também uma razoável quantidade de auto-retratos ou melhor selfies — que revelam a sua necessidade de se auto-fotografar — e fotos a cores tiradas com uma Leica 35mm nos últimos 30 anos da sua vida anónima, solitária e sem família.

Exposição Vivian Maier
via Centro Cultural de Cascais

A exposição é uma extraordinária revelação de uma obra exclusiva e marcante. Porém, antes disso em 2014, um pouco ao lado dos espectadores, passou o documentário ‘À Procura de Vivian Maier’, de John Mallof e Charlie Siskel, que esteve aliás nomeado para os Óscares e que vale a pena revistar, como complemento à imperdível mostra de fotografias.   Em 2007, centenas de rolos de filme não-revelados, foram leiloados e comprados pelo jovem John Maloof — saiu-lhe pode-ser dizer, quase a ‘sorte grande’ — que apenas queria encontrar fotografias antigas de Chicago, para escrever a sua investigação  ou tese académica. Esta impressionante, incrível e inesperada descoberta da obra de uma artista desconhecida, levou o jovem à procura de mais detalhes sobre a vida desta mulher; e a questionar-se, porque razão as suas fotografias nunca foram divulgadas quando Maier estava viva?

à procura de Vivian Maier
©Midas Filmes

Esta investigação documental, chega até nós através do excelente e até divertido filme, ‘À Procura de Vivian Maier’, uma obra, que tenta seguir os passos desta estranha ama, que era uma fotógrafa de um imaginável talento, que se calhar nem ela propria tinha noção. Esta tarefa não foi nada fácil e apesar da leveza da narrativa, o filme demonstra, até pela personalidade de Vivian Maier, uma enorme complexidade em dar sentido a uma vida que por si só dava um filme. Vários depoimentos de pessoas que se cruzaram com Maier, entre amigos, conhecidos, crianças agora adultos que tomou conta, até familiares distantes, tentam descrever a personalidade de Vivian, quase sempre através de poucas palavras: excêntrica, única, misteriosa, etc.

Vivian Maier
via Centro Cultural de Cascais

Torna-se quase impossível tentar descrevê-la, pois quase ninguém conhecia muito bem a sua personalidade, quanto mais seu hobby, que era tirar essas belíssimas fotografias de pessoas comuns espalhadas, pelas ruas das cidades; e até tirar verdadeiras selfies numa época, em que o conceito jamais existia e estava longe de ser explorado socialmente, como é hoje nas redes sociais. A verdade é que o ‘descobridor’ Maloof faz também um notável trabalho de campo e de realização cinematográfica (em parceria com Charlie Siskel), para descobrir a história da sua homenageada: revelou uma boa parte dos 150 mil negativos encontrados, leu cartas que lhe foram enviadas, ouviu gravações que ela fazia também às pessoas comuns revelando igualmente um lado de repórter amadora, contactou de uma forma infrutífera, com algumas das mais importantes instituições museólogicas do mundo, como o MoMa ou a Tate Gallery, para o ajudarem a divulgar e a guardar o acervo fotográfico, e, principalmente, conseguiu entrevistas com pessoas com quem ela teve um contato mais ou menos íntimo.

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foto de José Vieira Mendes

Estas entrevistas, estão recheadas de algumas informações sobre o dia a dia desta estranha mulher. É através destes depoimentos que descobrimos que Maier acumulava grandes quantidades de jornais e recortes — quase sempre sobre crimes e abusos sexuais de mulheres — que não era propriamente uma ama muito cuidadosa, — estava mais preocupada em tirar as suas fotografias — e mesmo saber alguma coisa sobre a sua família ou a sua possível origem francesa, demonstrada pelo seu sotaque. Apesar de tudo as percepções dos entrevistados, divertidamente confundem-se nas diversas memórias e que graças também a uma notável edição, os realizadores, conseguem dar bastante linearidade à história de vida: a maioria deles não fazia a mínima ideia de que fazia parte dos registos pessoais de Maier e muitas das histórias  acabam  mesmo por ser confirmadas e tornadas verdadeiras, através das fotografias da ama. Curioso é também o facto de Maloof, que comprou o primeiro acervo em 2007, nunca ter chegado a conhecer pessoalmente Maier — apesar de viverem na mesma cidade — que veio a falecer em 2009, levando consigo grande parte dos mistérios, que o realizador queria demonstrar e partilhar connosco.

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foto de José Vieira Mendes

As fotografias de Meier facilmente conquistam o olhar e os seus mistérios ainda adensam mais o interesse pela sua obra. Grande mérito também para John Maloof, um herói acidental, que para bem de todos nós não desistiu de nos mostrar a extraordinária obra da impensável figura que foi Vivian Maier. Para ver a exposição e o documentário: Vivian Maier: Street Photographer’, no Centro Cultural de Cascais, até 18 de Maio; e ‘À Procura de Vivian Maier’ (na Filmin ou DVD em português, à venda na exposição ou lojas Fnac). Ambos a não perder!

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José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colaborou no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’  (2014) e 'Mar Urbano Lisboa (2019). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’ (2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’ (2012), Mostras de Cinema da América Latina (2010 e 2011), 'Vamos fazer Rir a Europa', (2014), Mostra de Cinema Dominicano, (2014) e Cine Atlântico, Terceira, Açores desde 2016, até actualidade. Foi Director de Programação do Cine’Eco—Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela de 2012 a 2019. É membro da FIPRESCI.

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