Opinião | ‘The One’: São os algoritmos, meu amor !

Uma obra cinematográfica para se destacar, seja série de televisão ou filme, tem que obviamente de vir logo ao de cima a sua originalidade, que não é o caso ‘The One’, um thriller temático que assenta nessa ideia da inteligência (ou da emoção) artificial, que já foi utilizada em várias outras criações.

De facto as séries de televisão não são mesmo a minha praia, talvez por estar habituado durante muitos anos à televisão linear, a ver um episódio por semana: o facto de ver vários episódios de seguida, fico com a sensação que aquilo tudo poderia ter sido contado em menos de duas horas e estão para ali a ‘encher chouriços’.  Vi ‘The One’ não porque Netflix, tenha dados suficientes a meu respeito para ma sugerir, pois na verdade a conta lá de casa não está em meu nome. Algo ao que consta que a plataforma que acabar em breve para ter ainda mais assinantes ou clientes. Quero dizer com isto, qualquer influências dos algoritmos nas minhas opções de ver filmes ou séries de televisão nas plataformas é pura coincidência. Fui tomado obviamente pela participação dos actores portugueses, em ‘The One’, sobretudo de Albano Jerónimo — mas também de Miguel Amorim. A curiosidade e necessidade profissional forçaram-me a uma meia-maratona de ecrã, no passado fim-de-semana.

The One
©Netflix

A premissa de ‘The One’ é interessante e tem algo de assustadoramente agradável — ou desagradável conforme o ponto de vista — sobre o poder cada vez maior dos algoritmos para determinar nossas vidas e até as nossas opções amorosas. Porém, como na maioria das séries de televisão, as premissas pode ser interessantes, mas depois os paralelismo narrativos e a necessidade de ‘esticarem’, o argumento, os criadores levam-nos por vezes a fugir do essencial da história. Adaptada por Howard Overman, o criador do ‘Misfits’, esta nova feita a partir do romance homónimo de John Marrs de 2017, a história de ‘The One’, uma produção multinacional de orçamento-médio, — rodada ao que sei um pouquinho de nada em Lisboa — passa-se num futuro muito próximo na Londres moderna dos edifícios de betão e vidro da City, no qual os computadores podem executar o nosso ADN, através de um banco de dados e conseguirem encontrar o nosso par romântico perfeito. Um emparelhamento, feito a partir de uma espécie de Tinder genético, que não permite alternativas. A premissa, segundo dizem os entendidos das séries de televisão — fui pesquisar, claro! — também já não é nova: é muito semelhante a ‘Soulmates’, a uma série de 6 episódios estreada recente na Amazon Prime; ou mesmo de ‘Osmosis’, uma série francesa, disponível na Netflix francesa, segundo creio. Antes disso, em ‘Hang the DJ’, um episódio da quarta temporada da série de antologia Black Mirror, tinha exatamente a mesma premissa, sem falar em inúmeros romances e contos fantásticos, sobre esta temática da genética da alma gémea, algo que aparentemente evitaria muitos equívocos sentimentais e relacionais. Uma obra cinematográfica para se destacar, seja série de televisão ou filme, tem que obviamente de vir logo ao de cima a sua originalidade, que não é o caso ‘The One’, um thriller que assenta nessa ideia da inteligência (ou da emoção) artificial, que  como já disse, foi utilizada em várias outras criações.

VÊ TRAILER DE ‘THE ONE’

Apesar de uma montagem alternada e até vibrante com vários flashbacks, o argumento de ‘The One’, deixa logo à solta, no início, demasiada informação que retira uma boa parte do suspense, mesmo que existam pequenas reviravoltas e subplots ou histórias paralelas desnecessárias ou que poderiam ser elas próprias histórias ou outros argumentos. Quanto história principal, a bela e sofisticada Rebecca Webb (Hannah Ware) atrapalha-se numa personagem que hesita em ser uma magnífica femme fatale, uma cabra cruel ou uma capitalista gananciosa. Ware interpreta uma cientista brilhante e depois a CEO implacável da empresa que está por trás dessa nova tecnologia de correspondência ou administradora da rede social que tem como base as afinidades de ADN. Rebecca foi co-fundadora da empresa, com o seu colega James (Dimitri Leonidas), também um cientista brilhante, que se afastou do negócio. James recebeu um pagamento de vários milhões de dólares para deixar a empresa, embora permaneça como um dos accionistas. As razões desse afastamento dos sócios têm provavelmente algo a ver com as origens duvidosas do empreendimento, que envolvem a invasão de um banco de dados de uma empresa farmacêutica onde um amigo trabalha — é duvidoso que uma empresa guarde dos tão importantes como os ADN, no laptop de um funcionário — com quem Rebecca partilha apartamento. Esse amigo está misteriosamente desaparecido há um ano e aparece morto num cais do Tamisa.

The One
©Netflix

Um dos detetives designados para investigar um possível homicídio é Kate (Zoë Tapper), uma jovem bissexual,— que insistem em dizer-nos repetidamente, mas se não o fosse seria exactamente igual no contexto da história — e que recentemente faz amizade com Sophia, um rapariga espanhola. Elas apaixonaram -se pelo Skype, mas Sofia (Jana Pérez) fica em coma após um atropelamento — a questão dos sentidos ao contrário no RU, atrapalha os peões — na chegada a Londres para se encontrar com Kate. Para além do coma Sofia, que tem um passado amargurado e também já é casada. A outra sub-trama, é formada por um casal aparentemente feliz, Hannah (Lois Chimimba) e Mark (Eric Kofi Abrefa), mas não compatível com a tecnologia The One, o que acaba por colocar em causa o seu relacionamento. Mark é um jornalista freelancer pouco escrupuloso na informação que lança, que se torna atraído pela startup de Webb, que se tornou numa grande empresa multinacional; Hannah está sendo levada à loucura silenciosa pela ideia de que existe alguém mais adequado para seu amado marido. Enfim as várias explorações de que o conhecimento do ADN é possível para atingir a perfeição nos relacionamentos acabam por ser abandonadas aos poucos pelo enredo principal, pouco emocionante e inverosímil.

Albano Jerónimo
©Neflix

Aliás tal como o romance de Rebecca com Matheus (Albano Jerónimo) — que tal como o instável irmão Fabio (Miguel Amorim), afinal têm passaporte brasileiro — e que começa com uma enorme falta de química entre os dois. Albano Jerónimo que é um dos melhores actores portugueses da actualidade, tem um papel importante mas secundário, apesar de se esforçar imenso, por dar uma dimensão mais forte à sua personagem. Porém falta-lhe argumentos, que estão na base do guião, apesar da liberdade que teve para lançar as pequenas deixas em português: fez-me lembrar o seu personagem de ‘A Herdade’. Talvez seja melhor para os actores portugueses repensarem um pouco, as suas participações em algumas séries estrangeiras, como já tinha acontecido com Nuno Lopes em ‘White Lines’. O actor português é muito melhor que a série! Convém fazerem boas escolhas e não aceitarem tudo, embora seja muito importante a sua internacionalização e a questão financeira.

Albano Jerónimo e Miguel Amorim
©Nerflix

De resto ‘The One’ é uma daquelas séries ‘estilosas’ que se vê bem à noite num fim-de-semana de confinamento — como eu fiz aliás — até porque são apenas oito episódios de aproximadamente 40 minutos e não muito exigentes do ponto de vista intelectual. Melhor dizendo, vê-se! Pelas portas que inevitavelmente deixa abertas na narrativa, para a personagem de Rebecca Webb é natural que os produtores estejam já pensar numa segunda temporada. Tenho dúvidas é que ‘The One’ como série de televisão sejam um emparelhamento perfeito para muitos espectadores. E na verdade, os actores portugueses já merecem trabalhar em muito melhor!

JVM

José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colaborou no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’  (2014) e 'Mar Urbano Lisboa (2019). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’ (2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’ (2012), Mostras de Cinema da América Latina (2010 e 2011), 'Vamos fazer Rir a Europa', (2014), Mostra de Cinema Dominicano, (2014) e Cine Atlântico, Terceira, Açores desde 2016, até actualidade. Foi Director de Programação do Cine’Eco—Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela de 2012 a 2019. É membro da FIPRESCI.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *