"Black Beauty" | © Curtas Vila do Conde

Curtas Vila do Conde 2021 | Competição Experimental 2

Pesadelos de imagética espelhada, domesticidade manchada de encarnado, alvoradas e confinamentos estão em destaque na Competição Experimental do Curtas Vila do Conde de 2021. Os filmes estão disponíveis online até ao fim do mês.

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THE DETECTION OF FAINT COMPANIONS de Sandro Aguilar

Desde o crepúsculo do século XX que Sandro Aguilar tem vindo a afirmar-se como um dos nomes mais importantes do cinema português. Quer seja como produtor ou realizador, os seus filmes estão no limite da vanguarda, propulsionando o reconhecimento internacional do nosso cinema nacional. No contexto do Festival Curtas Vila do Conde, Aguilar é um nome regular e já ganhou vários prémios. Este ano, apesar de não conquistar nenhum troféu, o seu trabalho merece aplausos. No paradigma do experimentalismo, “The Detection of Faint Companions” é uma proposta sedutoramente sensorial.

A textura do filme recorda a rudeza granular da película, o soluço metálico de um projetor ferrugento. Contudo, esta obra olha para o futuro a partir do prisma do passado, reconfigurando imagens comuns em caleidoscópios infernais. A lua, a natureza, partes do corpo e nebulosos efeitos sugerem um organismo cinematográfico que quase sugere o terror cósmico, o corpo enquanto máquina do assombramento. Espelhos abrem portas para novas dimensões, mas, tão cedo esta alucinação emerge como se dissipa. Com somente oito minutos, “The Detection of Faint Companions” jamais cansa com a repetição, correndo por um repertório imagético à mesma velocidade que a mente expectante o consegue assimilar.

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FLOWERS BLOOMING IN OUR THROATS de Eva Giolo

Se o filme de Aguilar tem a perfeita duração com oito minutos, “Flowers Blooming in Our Throats” parece demasiado curto. Eva Giolo monta seu filme a ritmo veloz, procurando o ritmo cinético que faz a imagem mover ao compasso do toque, do estalo, do bater de carne e carne, de elástico e pele. É um compasso energético, mas não dá oportunidade para a ponderação sobre o que está a ser visto. Quiçá seja melhor assim, mas não deixamos de pensar que esta curta seria melhor se estivesse mais esticada, fazendo da evolução estridente do ambiente doméstico algo gradual ao invés de súbito. Especialmente porque a obra parece querer explorar essa mesma metamorfose.

Presa no confinamento como todos nós durante este inferno da pandemia, Giolo filmou vários tableaux dentro de sua casa. Vemos coreografias de mãos que se tocam, que batem, amam e violentam. A inserção de um filtro vermelho muda o teor da ação, tintando o jogo inócuo com a sugestão do sangue carmim. O prazer do espaço partilhado faz-se sufocante, à medida que as imagens pouco mudam apesar dos seus tons emocionais se alterarem por completo. Gira e gira esse pião, passam os dias, todos iguais, e o prisioneiro doméstico começa a necessitar da dor para acordar, para sentir algo quando emaranhado nas cordas da cela que é o lar. Entre o sadomasoquismo e a toxicidade do convívio prolongado, “Flowers Blooming in Our Throats” termina antes de as suas ideias apurarem plenamente.

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SUNRISE de Lúcia Prancha

“Sunrise” significa nascer-do-sol. No filme de Lúcia Prancha, esse fenómeno aprece tanto ao nível literal quanto simbólico. Explora-se a alvorada da luz que se abate sobre a paisagem noturna, trazendo consigo um novo dia. Fala-se também do amanhecer enquanto um movimento histórico, o suposto nascer da civilização. Só que, ao invés de celebrar unilateralmente esse segundo significado, a cineasta predispõe-se a dissecar o mito civilizacional, pondo a nu o custo do dito progresso. Ou melhor, ela ilumina as estruturas humanas que suportam o movimento para um futuro tecnológico, para um mundo avançado, dito “desenvolvido”. Especialmente vemos quanto a história doirada dos EUA, pode ter um teor muito menos risonho quando vista através do prisma da História Afro-Americana.

Para esse efeito, Prancha toma a imagem do comboio como ponto unificante entre o nascer-do-sol enquanto fenómeno natural e essa outra portentosa alegoria. De facto, tudo começa com um longo plano em que a câmara observa, pacientemente, o sol emergir por detrás de uma colina no deserto. Quando os raios trespassam a paisagem, a câmara move-se, por fim, fazendo um movimento lateral para os carris que traçam caminhos pelo terreno. Apelando à poesia de Amir Baraka e Maya Angelou, à fotografia do Mojave e a excertos tirados da oeuvre de Charles Burnett, esta cineasta contemporânea lá compõe um ensaio audiovisual. “Sunrise” é uma humilde tese sobre as dores e abusos humanos que estão por detrás da modernização.

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CITADEL de John Smith

Sinfonias da cidade em tempo de pandemia têm sido algo habituais no contexto do festival de cinema atual. Entre 2020 e 2021, muitos têm sido os realizadores que querem cristalizar os ritmos de uma vida confinada em tempo de COVID-19. Suas objetivas miram ruas desertas, complexos habitacionais tornados em celas domésticas. A multidão ou é apagada da vista ou relegada à esfera do pesadelo. “Citadel” de John Smith combina o voyeurismo desesperante com o discurso político, justapondo imagens que o cineasta captou da sua janela com os comunicados públicos de Boris Johnson. Assim testemunhamos um fantasma de Londres, enquanto as delusões de um Primeiro-Ministro desesperado se fazem ouvir.

O resultado desse combinar é um elogio fúnebre ao Reino Unido, a interseção entre “Janela Indiscreta” e a sátira jornalística. Infelizmente, Smith nunca nos transmite mais que o óbvio e, apesar das boas intenções, “Citadel” por vezes resvala para um campo desconfortável da ética documental. É que a câmara não fita só a cidade desnuda, mas também se infiltra na vida alheia. Numa das passagens mais tenebrosas destes 16 minutos observacionais, espiamos uma das vizinhas de John Smith enquanto esta se exercita de janela descoberta. Enfim, há melhores filmes feitos com o mesmo modelo pandémico. Fora desse contexto, Chantal Akerman, Mati Diop, e outros mestres do cinema já exploraram esta visão do quarto do artista e sua envolvência com muito maior astúcia.

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Além destes filmes, este grupo da Competição Experimental também incluiu BLACK BEAUTY de Grace Ndiritu. Fica aqui a sinopse oficial: A primeira passagem de Grace Ndiritu, artista visual britânica, pelo Curtas Vila do Conde é marcada com a estreia nacional da sua curta-metragem “Black Beauty”, filme integrado num projeto de investigação da própria cineasta sobre migrações profundas, alterações climáticas e genéticas na Tierra del Fuego, a parte mais meridional do território da América do Sul. Partindo deste propósito, Grace Ndiritu constrói uma ficção especulativa, onde a modelo Alexandra Cartier conversa com o escritor argentino Jorge Luis Borges sobre os problemas ecológicos e pandémicos do mundo atual.

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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