"Depth Wish" | © Curtas Vila do Conde

Curtas Vila do Conde 2021 | Competição Experimental 3

O fogo arde, a maré sobre e o mundo parece desfragmentar-se em abstração. Assim são os filmes da Competição Experimental do Curtas Vila do Conde 2021. Podes ver uma seleção destas obras online até ao fim do mês.

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© Curtas Vila do Conde

BERLIN FEUER de Pedro Maia

A película é um meio extraordinário. Num especto, trata-se de uma sintetização sólida da imagem, algo material e tangível, muito mais concreto que o registo digital. Até a própria natureza do engenho reflete essa materialidade, o grão vindo da luz que queimou e registou sua presença no celuloide. Contudo, tanto a fita se assume como um objeto analógico e forte, como se desintegra em paroxismos de fragilidade. No seu trabalho, o realizador Pedro Maia tem vindo a explorar essa dinâmica da película enquanto material para fazer arte. Em “Berlin Feuer”, o cineasta interessou-se principalmente para o modo como a destruição do celuloide pode servir para cristalizar destruição em forma de cinema.

Como o título indica, esta curta-metragem incide na ideia de fogo, essa força que tanto aniquila como purifica. Em semelhança com outras propostas da competição experimental, “Berlin Feuer” trabalha num paradigma abstrato. A plasticidade desintegradora da película é usada para mostrar imagens de fogo real e para sugerir os efeitos dessa mesma labareda. A certo ponto, já não sabemos o que arde, se um objeto – uma casa – em frente à câmara ou se o próprio filme se incendiou. Neste poema reduzido a brasa, faz-se como que uma pintura de luz que é acompanhada pelo zumbido metálico de uma sonoplastia amorfa. De facto, o som de “Berlin Feuer” é ainda mais hipnotizante que suas fantasias de película queimada.

 

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© Curtas Vila do Conde

DEPTH WISH de Margarida Albino

De um filme obcecado com o que arde, passamos a uma fita apaixonada pela água, pelo oceano e suas ondas salgadas. O que une as duas obras, além dessa fixação elemental, é um gosto pela película, especialmente o Super 8. Margarida Albino usa esse meio tão ligado à intimidade do home movie e vira a câmara para a costa, para esse ponto onde terra encontra o mar e pequenos ecossistemas se formam no meio das rochas. É por essas pocinhas cheias de vida que a atriz Camilla Flora Prey deambula. Ora o corpo feminino aparece despido ou se sobrepõe à paisagem num borrão de cor, o fato-de-banho servindo como pincelada saturada.

Também nesta curta se explora a materialidade instável da imagem cinematográfica. A maré vai e vem, ondas traçando constantes movimentos no plano bem composto. Também a luz ajuda à desfragmentação, refletindo o sol nesse espelho ondulante, entrando pela lente adentro em matizes de ouro solar que brilha azul. A montagem como que segue a repetição oceânica, fragmentada e presa em ciclos viciosos que, gradualmente, hipnotizam o espetador. O som também ajuda, imergindo o espetador num mundo da memória e da experiência direta. “Depth Wish” é uma experiência incrivelmente tátil, mas é também onírica. Parece uma lembrança sonhada, uma tarde bem passada na praia, quiçá uma fantasia destes tempos de confinamento.

 

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INSIDE THE OUTSET, EVOKING A SPACE OF PASSAGE de Rosa Barba

Originalmente exibido no contexto de museu, “Inside the Outset, Evoking a Space of Passage” é o mais recente projeto de Rosa Barba que, em anos anteriores, já por duas vezes ganhou a competição experimental do Curtas Vila do Conde. Há uma continuidade temática para com essas obras passadas, um prolongar do cinema enquanto ação cartográfica, enquanto exploração do modo como o ser humano afeta o ambiente em que vive. O filme está cheio de imagens assombrosas e assombradas, desde um recife artificial feito de vasos afundados à escavação de uma pedreira. Até a vida animal tem lugar no filme. Flamingos voam pelo ar, mas seu reino mudou. Já não é a paisagem natural, mas sim um mundo feito pela mão humana com torres de betão e vidro. Contudo, jamais vemos os criadores deste novo mundo. Trata-se de um documento da ação humana onde o ser humano está notoriamente ausente.

Num ponto comum destas obras da Competição Experimental, a transformação musical é uma das componentes mais interessantes exercício fílmico. Quando a imagem se foca no fundo do mar, a sonoridade faz-se através de ribombantes ecos, rugidos longínquos de um oceano titânico. À medida que a câmara viaja para fora de água, que explora a terra cultivada, construída e destruída dos humanos, a banda-sonora é também ela transfigurada. A amorfia vai ficando cada vez mais concreta. Primeiro transcende-se o eco marinho para encontrar ruídos mecânicos. Estes passam a música eletrónica que dá lugar a bateria numa veia mais de jazz- No cúmulo da evolução, introduz-se a voz humana, cantando e falando também. É como se toda a história do Homem e sua ação no nosso planeta fosse aqui resumida num gesto musical.

 

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© Curtas Vila do Conde

DISSOLUTION PROLOGUE (EXTENDED VERSION) de Siegfried A. Fruhauf

Por vezes, um cinéfilo mais habituado ao mainstream pode ter a crença infundada que o cinema experimental vive num patamar rarefeito de intelectualidade intransponível, algo tão complicado que se torna impossível de entender. Sem querer ofender ninguém, proporíamos que o inverso é verdade. Desapegado da narrativa, até das regras usuais de expressão audiovisual, o filme experimental consegue ser o mais básico exercício em estímulo direto de cor, luz, movimento, tempo. Longe de ser complicado, trata-se de um cinema em estado puro. Note-se que, limando as arestas floreadas destes textos, aqui vimos a analisar filmes enquanto coleções de imagens e sons interessantes. Muitas vezes, esses elementos até se manifestam despidos de significado oculto.

Continuando o mesmo tipo de pesquisa que há anos elabora, Siegfried A. Fruhauf, apresenta aqui “Dissolution Prologue (Extended Version)”, aquele que será talvez o mais simples filme em competição no Curtas Vila do Conde 2021. Trata-se do abrir de uma cortina na forma de blocos coloridos que passam ora na horizontal ou na vertical. Seu ritmo é dado por um impulso nervoso, sons alternados que, rapidamente, formam um ritmo frenético. Da paz passamos à loucura, com efeitos strobe e todo um aparato de piscadelas que poderá dar dores de cabeça ao espetador mais sensível. Em suma, é uma experiência na essência do cinema – o simples mover de motivos visuais no ecrã. Ao invés de tentar decifrar um puzzle que não existe, recomendamos que se deixem levar pela euforia quase-psicadélica da experiência.

 

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EARTHEARTHEARTH de Daïchi Saïto

Como é possível que algo tão imponente, tão grandioso, como uma montanha se possa sublimar em imaterialidade? No cinema de Daïchi Saïto, tais impossibilidades tornam-se em realidade. Tudo devém do modo como o cineasta trata a película de 16mm, como manipula suas visões granulares com processos químicos e digitais. Tanto isso ele faz que a mais concreta das paisagens digitais se converte numa abstração alienígena. Neste caso, “Earthearthearth” foi gravado nas montanhas dos Andes, lente apontada para a linha em que a superfície rochosa acaba e começa a abóbada celeste do céu. A luz do amanhecer terá sido um ponto de partida para a experiência, sugerindo uma paleta cromática em torno da cor quente de uma alvorada sanguínea.

O grão deste registo analógico, quando levado aos píncaros do contraste, toma posse da imagem e desfragmenta o corpo da montanha ainda mais. É como se, perante o nosso olhar atento, os Andes se evaporassem em nuvens de pó. Ao mesmo tempo, Saïto gosta de lembrar o espetador que também a Terra é um corpo, um organismo. Ao subverter o modo como estamos habituados a assimilar a paisagem, o cineasta faz-nos também pensar sobre o que vemos. O vermelho carnudo dá à rocha o ar de músculo exposto. Ou então faz com que o familiar pareça novo, fantasioso, algo que só pode existir em sonhos de mundos extraterrestres. Quiçá estejamos perante uma visão profética do apocalipse. Este é um cinema da transfiguração e um dos exercícios mais esteticamente sublimes deste festival.

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Vem ler a nossa cobertura completa do Curtas Vila do Conde 2021. Até dia 1 de agosto, podes ver estas curtas na plataforma online que o festival abriu para estes tempos de pandemia.

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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