"Timkat" | © Curtas Vila do Conde

Curtas Vila do Conde 2021 | Competição Nacional 5

Batismos africanos, viagens mediterrâneas e paisagens lusitanas estão em destaque no último grupo de filmes na Competição Nacional do Curtas Vila do Conde 2021. Até ao fim do mês, estas obras estão disponíveis online.

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© Curtas Vila do Conde

TIMKAT de Ico Costa

O Timkat, ou Epifania, é o nome dado a uma celebração etíope que comemora o batismo de Jesus Cristo no rio Jordão. Nesse momento, ter-se-á purificado o filho de Deus para lavar o pecado original do Homem. Apesar de as festas remontarem ao século XVI, quando Gondar era a capital de um império etíope, elas ainda se realizam nos dias de hoje. Quiçá o perdurar desta tradição da cristandade africana se possa associar ao facto de que, apesar de muito esforço Europeu, a Etiópia foi uma das poucas nações de África que se conseguiu, mais ou menos, esquivar ao beijo venenoso do colonialismo. Através do mais recente filme de Ico Costa passa uma corrente de ideologia anticolonial.

Em certa medida, “Timkat” é uma reflexão histórica que tanto sugere o júbilo como a meditação pesada sobre o flagelo europeu no continente africano. Mais do que isso, trata-se de um jogo de observação pelo qual Costa documenta como a cultura ancestral pode influenciar a vida contemporânea. Isso ele faz num registo belíssimo de Super 8, conferindo uma textura singular às imagens. A fotografia de Costa e Ana Mariz é certamente o ponto mais alto de “Timkat” e o elemento que mais o eleva acima do registo etnográfico. Por muito que o filme puxe para o documentário puro e duro, há poesia na plasticidade imagética, uma beleza sóbria que transcende o impulso jornalístico.

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SORTES de Mónica Martins Nunes

Tal como “Timkat”, “Sortes” foca-se em representar uma comunidade em cinema. Neste caso, dedicando o filme ao seu avô, Mónica Martins Nunes testemunha o dia-a-dia da serra de Serpa no Baixo Alentejo. Nessa comunidade rural, o ritmo da vida humana ainda é feito segundo o compasso da Natureza. A resiliência é a regra que tudo orienta num ambiente muitas vezes assolado por secas e outros tantos flagelos. Em “Sortes”, os campos lusitanos produzem imagens dignas de pintura, enquanto os elementos humanos sugerem retratos enrugados das pessoas que continuam a seguir essa existência rural. A câmara observa, mas tenta não comentar, delineando a beleza do local, das pessoas, mas também a dor que comunga com elas.

Momentos de brutalidade colidem com passagens da mais pura delicadeza. Num instante mata-se um porco e vemos suas entranhas cortadas, brilhando húmidas ao sol. Algumas cenas depois, cuida-se de um cachorrinho frágil, passando a mão pela pelagem curta em busca de alguma pulga que aflija o bichinho. Não é que qualquer um desses acontecimentos seja muito interessante, mas a justaposição cinematográfica dos gestos antagónicos produz tonalidades fascinantes nestas “Sortes”. Esse tipo de equilíbrio, o jogo de forças opostas, também se manifesta no modo como versos declamados em voz-off se sobrepõem ao documento mais severo.

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Os tempos lânguidos e quotidianos trabalhosos da vida rural servem de matéria prima para esta canção sussurrada em forma de filme, este hino àqueles que trabalham o campo e ainda existem nesses paradigmas perdidos no tempo. Se Mónica Martins Nunes pouca novidade mostra na fita, é porque o seu interesse está na homenagem mais do que na crispação da invenção estética. Há algo doce no mirar gentil da câmara, na imersão que a montagem produz, trazendo-nos para dentro da ruralidade alentejana ao longo de 38 minutos. Mas o filme não se resume a murais naturais do Alentejo ou contrastes bucólicos. A câmara da cineasta também perscruta os afazeres do dia-a-dia, a papelada do comércio agrícola, o esforço suado do trabalho de campo.

O melhor de tudo é o sabor melancólico com que Nunes captura um mundo envelhecido, uma paisagem cada vez mais desertificada de vida humana. Há casas abandonadas por todo o lado e poucos são aqueles que ainda habitam este mundo rural. No gesto mais esteticamente arriscado de “Sortes”, a paisagem bela é tornada num palimpsesto de espaço exterior e interior colapsados um para dentro do outro. É uma visão fantasmagórica que nos embala na reta final do filme.

 

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Além desta parelha, o quinto dia da Competição Nacional no Curtas Vila do Conde também incluiu SE O QUE OIÇO É SILÊNCIO de Rosa Vale Cardoso. Fica aqui a sinopse oficial: Numa ilha grega, Nina viaja de carro com a mãe e o seu amigo Spiro até à casa dos avós, para uma reunião familiar. Ao longo da viagem, o silêncio entre filha e mãe denuncia um mal-estar e um distanciamento emocional que Spiro tenta atenuar com algumas brincadeiras e momentos de descompressão. Aos poucos, à medida que visitam lugares onde já tinham sido felizes antes, mãe e filha vão-se aproximando gradualmente. Como no poema “Escuto” de Sophia de Mello Breyner Andresen, “Se o que oiço é silêncio” é um olhar intimista sobre a importância de se escutar o silêncio na mediação das relações afetivas, de sentir e interpretar o que não é expresso de forma verbal, mas através dos gestos e dos olhares. Esta é a estreia da jovem realizadora portuguesa Rosa Vale Cardoso no Curtas.

Vem ler a nossa cobertura do Curtas Vila do Conde 2021 e descobre ainda que filmes do festival podes ver online. Segue este link!

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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