Curtas Vila do Conde 2021 | Competição Internacional 2

Duas histórias de espiãs perigosas e a visita espelhada a dois museus europeus marcam o segundo grupo de curtas internacionais em competição no Festival Curtas Vila do Conde.

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© Curtas Vila do Conde

BESTIA de Hugo Covarrubias

Por muito que se tentem esquecer os pecados do passado, eles persistem na memória, qual fratura estilhaçada numa boneca de porcelana. Podemos colar a loiça, mas a linha da racha jamais desaparece por completo. A figura principal de “Bestia“tenta esquecer, mas não consegue. Ela tenta perder-se na monotonia do dia-a-dia, mas os gritos de horror fazem-se ouvir pela casa, ecos que ressoam de uma fonte profunda, escondida na cave. Ela é uma agente especial chilena em 1975 e sua missão é a de interrogadora feita carrasca. Assuntos da rotina e da insegurança física, da solidão corrosiva, fazem-se sentir pela mise-en-scène, mas sempre o fantasma da violência se faz ouvir. O espírito vive nos padrões de cumplicidade assassina, nos corpos mortos escondidos em porta-bagagens. O estado manda e a mulher obedece, sem ponderar os crimes que comete e assim suas vítimas perseguem-na, assombrações celestiais.

Covarrubias concebeu um registo de animação stop-motion que vale pela textura e pela simplicidade. Neste mundo de bonecas reluzentes e cães de feltro, a desumanidade crua e dura parece ainda mais chocante. Além do mais, a metáfora do remorso pode assim ser visualizada como a racha já referida, essa ferida de bala tornada puzzle colado. Um sonho repetido em que a mulher mata seu único companheiro, o fiel cãozinho, também vale pela evocativa tatilidade. Um relvado infinito parece feito de pelo, quiçá uma alcatifa que expande o espaço doméstico até à eternidade, ou uma pelagem animal feita em monumento. Tantas ideias sublimes são traídas pela investida no grotesco fácil, umas notas de misoginia aqui e ali. Não são passos em falso suficientes pare abalar o discurso político, mas deixam sabor amargo na boca.

De forma geral, esta é uma admirável proposta de terror animado com ambições histórico-políticas.

 

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© Curtas Vila do Conde

RED ANINSRI; OU CAMINHANDO NA PONTA DOS PÉS NO MURO DE BERLIM AINDA A ESTREMECER de Ratchapoom Boonbunchachoke

A história da espia sedutora que se apaixona pelo seu alvo é um modelo narrativo muito antigo e bem-amado. Já vimos dezenas de histórias que seguem a premissa, mas quiçá nenhuma como este bizarro “Red Aninsri”. Logo no início, texto explicativo prepara o espetador para o meta-texto camp que se vai seguir. Boonbunchachoke assegura-nos que esta é uma obra inspirada nos filmes do passado, nomeadamente os filmes tailandeses dos tempos da Guerra Fria. É esse o código audiovisual que o cineasta segue num primeiro paradigma, introduzindo-nos à história de Ang, prostitua loira que trabalha em part-time como agente especial das forças anticomunistas. Depois de uma escassez na clientela habitual, o trabalho de subterfúgio toma precedente e ela vê-se obrigada a assumir identidade masculina para conquistar Jit, um estudante ativista homossexual com segredos a revelar.

É claro que, como já apontámos, o tiro sai-lhe pela culatra quando a paixão arrebata. O principal jogo formalista desta fita cheia de referências cinematográficas é um trabalho de voz dobrada. Nos anos 70, todo o cinema tailandês era dobrado e cada personagem tinha um específico tipo de voz. Assim sendo, “Red Aninsri” começa nesse registo de máximo artifício, com Ang a ser dobrado/a por dois intérpretes diferentes até. Contudo, na mesma medida que a falsidade da espionagem é renegada pelo sentimento genuíno, também os mecanismos cinematográficos roem com o impacto do amor e do conflito. Lentamente, o pastiche vai-se desfazendo e tanto a figura principal como o filme em redor são catapultados para uma profunda crise de identidade. Sobreposta à questão da voz, existe uma ambiguidade, talvez até uma contradição de género em Ang.

Enquanto pessoa katoey, a nossa personagem principal tanto pode ser considerada uma mulher transgénera ou um homem gay efeminado. Da ambivalência linguística emerge a crispação meta textual de um filme sobre autoidentificação e autonomia em crise. Esse dilema para o espetador e para a personagem traduzem simbolicamente o conflito de um país que, há décadas, parece estar sempre à beira da guerra civil. Talvez por isso o final de “Red Aninsri” seja tão desconcertante. Tanto num momento de misericórdia como de manipulação, o filme de época anacrónico desmancha-se num workshop de atores onde os nossos intérpretes principais reaparecem. Nesse novo cenário, os dois parecem encontrar um semblante de catarse, uma união que gera intimidade através do exercício do faz-de-conta. É o culminar de uma curta que vê o falso teatral como caminho para a verdade pura do indivíduo, da nação.

 

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© Curtas Vila do Conde

ONE HUNDRED STEPS de Bárbara Wagner e Benjamin de Burca

Inspirados pelo trabalho do cineasta e escritor Bob Quinn, o duo de Bárbara Wagner e Benjamin de Burca têm vindo a procurar um cinema que renegue o Eurocentrismo classista e racista da cultura ocidental. Parte da sua pesquisa, feita muito na base da tradição musical, centra-se nas marcas de legados africanos na cultura irlandesa, mais tarde na convenção cantante de França também. Tais ideias podem sugerir um filme denso, uma tese complicada em estilo académico. Contudo, o trabalho de Wagner e de Burca consegue fugir à formalidade asfixiante da dissertação, sendo, acima de tudo, um festim de prazeres audiovisuais. Tudo parte de duas visitas espelhadas a palacetes aristocráticos que há muito deixaram de ser casas privadas. Hoje em dia são museus públicos, relíquias de um passado faustoso agora aberto aos visitantes plebeus e suas câmaras observantes.

As duas metades de “One Hundred Steps” começam da mesma maneira, primeiro na Irlanda e depois em França. Em ambos os casos, entramos nesses museus luxuosos pelo pé de turistas que chegaram atrasados a uma visita guiada. A voz explicativa do guia serve de introdução bafienta, mas rapidamente o olho divaga e viaja pelos interiores. Quando damos por isso, estamos a flutuar por corredores encapetados com tapetes persas e pinturas barrocas, sob o olhar de retratos e bustos inertes. Mas então algo mágico ocorre. A quietude monocromática do filme digital a preto-e-branco é violada pela intromissão espontânea de novos registos, de documentos em película granular e o aparecimento de músicos de rua. Nesse ato de entrada forçada num palco outrora exclusivo, vemos uma colisão de dois aspetos da cultura, a alta e nobre sendo infiltrada pela baixa e dita pobre.

A tradição artística perdura tanto no cadáver preservado da aristocracia como nos corpos que vivem sua dança, sua música, na sala de espetáculos pública do passeio. Trata-se de um gesto democratizante que entretém até o espetador que não esteja muito virado para a análise intelectual. Como simples festim da vista e dos olhos, “One Hundred Steps” é belíssimo. Como tentativa de descolonizar a História, de descambar impérios e deitar hegemonias abaixo, o filme é uma doce epifania. Quando, no fim, a câmara voa pela janela de cristal e diz adeus ao palacete, há algo de comovente, que enaltece o sentimento e aquece o coração. Na sua essência, tudo é um exercício muito simples, mas da simplicidade, às vezes, nasce a transcendência.

 

Acompanha a nossa cobertura do Curtas Vila do Conde 2021. Aproveita e vai ao site do festival, onde podes comprar um passe para ver alguns dos filmes selecionados na plataforma online. Acredita que vale a pena.

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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