"Farrucas" | © Curtas Vila do Conde

Curtas Vila do Conde 2021 | Competição Internacional 3

Amigas adolescentes, amores antigos, ansiedades sexuais e melancolias nacionais – assim se destacam alguns dos filmes na Competição Internacional do festival Curtas Vila do Conde deste ano.

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WE HAVE ONE HEART de Katarzyna Warzecha

Num híbrido da memória e do sonho, do documentário e da animação, a cineasta polaca Katarzyna Warzecha conta uma história de amores desfeitos pelas fronteiras de um mundo dividido. As caras são indefinidas, máscaras em branco, rodeadas de palavras explodidas e aguarelas vivas. Apelando ao recurso da carta declamada e do álbum fotográfico, encontramos a paixão de uma mulher polaca e de um homem iraquiano, sua união e seu filho. Mas os acasos da vida, as crueldades da História, separam-nos, fragmentando uma família que ainda hoje sente as crispações desse desencontro. Entenda-se que tudo isto parte de acontecimentos reais.

“We Have One Heart” parte da perspetiva de um menino recordando o legado e a narrativa dos seus avós, homenageando os romances do passado e a identidade multiétnica do pai. Trata-se de uma tentativa de ficcionar e animar a lembrança, fazer a autobiografia de outrem em forma de filme. Quiçá a passagem mais tocante desta curta de onze minutos seja o reencontro de patriarca e seu progénito, um filho que conhece o pai só quando já tem quarenta anos. As últimas fotografias são assim um apelo à humanidade na legislação, à compaixão na política e na divisão do mundo. Há espaço neste banco para todos se sentarem direitos.

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FARRUCAS de Ian de la Rosa

Nos subúrbios de Almería, no bairro de El Puche, a câmara de Ian de La Rosa acompanha um grupo de raparigas que viaja pela paisagem. São adolescentes espanholas que falam abertamente das suas origens marroquinas e do orgulho andaluz que lhes corre nas veias. Ao estilo da “Rosetta” dos Dardenne, observamos as moças numa perseguição cinematográfica, quase como se fôssemos mais um elemento do grupo, perscrutando as amigas à medida que elas se dirigem à casa de outra rapariga que vai celebrar o 18º aniversário. Chegado ao destino, o registo muda ligeiramente, mas o naturalismo continua a reinar.

Só que Rosa deixa trespassar as agonias que se escondem em sorrisos, retratando as suas protagonistas adolescentes com grande honestidade. Enquanto espetador, testemunhamos como a insegurança pode resvalar em agressão, como o desgosto fermenta em raiva, mas, no fim, a irmandade perdura resiliente. No precipício da vida adulta, estas raparigas ponderam um futuro que não se afigura muito risonho, mas o guião consegue evitar o miserabilismo. A abordagem estética de “Farrucas” pode não ser especialmente inovadora, mas há grande valor nas suas observações sociais e no tenor de autenticidade que reverbera em toda a obra. Trata-se de uma ficção generosa e humanista, uma canção em honra destas meninas crescidas que tentam agarrar o fumo de otimismo que teima em lhes escapar das mãos.

 

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RÁDIO DO POVO – BALADAS DE UM PAÍS DE FLORESTAS de Virpi Suutari

A rádio pública finlandesa foi fundada em 1926 e, desde 1976, é a responsável por um programa muito especial chamado Kansanradio. Traduzido para português, significa Rádio do Povo, um título apropriado considerando que o projeto serve para dar voz ao populus da Finlândia. Qualquer cidadão pode enviar mensagens para a rádio e suas palavras serão emitidas para toda a nação. Usando os arquivos, tanto antigos como bem recentes, da Rádio do Povo, a realizadora Virpi Suutari assim construiu uma espécie de autorretrato de um país. A voz do cidadão faz-se ouvir como banda-sonora para uma série de imagens da paisagem finlandesa.

Tirando os fantasmas de filmagens antigas, a imagem do ser humano está ausente da paisagem, sendo substituída por animais autóctones da Finlândia. Contudo, vemos o seu impacto no mundo, desde a desflorestação às carcaças enegrecidas de casas e carros queimados. Os contrastes audiovisuais suscitam a melancolia, algo que as mensagens do cidadão reforçam com ansiedades modernas, penosas confissões de solidão, poemas amadores e medos de uma Natureza moribunda. “Rádio do Povo – Baladas de um País de Florestas” pode ser demasiado comprido para o seu bem, mas evoca uma atmosfera pensativa que seduz o espetador, sensibiliza, tanto amedronta como apaixona.

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NÃO SOMOS ANIMAIS de Noé Debré

Desde que acabou a relação com Marie, Igor tem vindo a definhar numa espiral de depressão e desapontamento. No reverso da medalha, sua ex-namorada ganhou notoriedade nas redes sociais, fazendo ativismo feminista em prol do orgasmo feminino. Quando descobre que ela o aponta como um exemplo do homem que não sabe nem tenta dar prazer à mulher, Igor resolve confrontar a ex, levando atrás o seu amigo Arnaud. O âmago tragicómico de “Não Somos Animais” acontece nesse apartamento invadido pelos espetros indesejados de amores abandonados, desdobrando-se em conversas afetadas sobre esta guerra dos sexos do século XXI.

Este filme de Noé Debré é quase que demasiado estereotipicamente francês para funcionar, perdendo o fulgor no diálogo forçado e trespassando uma ambivalência moral que tomba na misoginia. “Não Somos Animais” não sabe se quer ridicularizar as mulheres ou os homens, mas tudo tenta redimir com o florescer de outro caso amoroso nas entrelinhas do conflito. O elenco bem tenta dar vida às caricaturas, mas nem o brilhante Vincent Macaigne consegue resolver os problemas do projeto. Admira-se o ritmo apressado da fita, sua montagem propulsionadora, mesmo quando a restante forma pseudo naturalista deixa muito a desejar.

Podes ver todos estes filmes no Festival Curtas Vila do Conde 2021. Caso tenhas perdido a chance de assistir em sala, o evento é parcialmente online este ano. Visita o site e descobre mais.

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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