Custe o Que Custar! | Em análise

Carregado de humor negro e uma violência repentina ’Custe o Que Custar!’, de David Mackenzie é um verdadeiro filme independente americano, apesar de ter sido feito por um realizador europeu a viver nos EUA, mas ainda fora dos padrões da indústria de Hollywood.

Custe o Que Custar

Nascido em Cordbridge, no Reino Unido, o realizador David Mackenzie — mudou-se recentemente para Los Angeles — já era conhecido por ter dirigido filmes muito interessantes como O Sentido do Amor (2011) ou Starred Up (2013). Custe o Que Custar!,  — estreado e premiado na secção Un Certain Regard do Festival de Cannes 2016 — pode marcar o início de um novo capítulo na carreira deste britânico, pois esta sua crónica de uma acção de violenta contra a crise em plena bolha imobiliária e com alguns toques de humor negro, passada no West Texas dos EUA, está a criar uma certa expectativa na crítica e prémios da indústria americana de cinema.

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David McKenzie parece ter-se inspirado em grande parte no estilo dos Irmãos Coen e na literatura de Cormac McCarthy. Mas a genialidade de Custe o Que Custar! deve-se em boa parte a um fantástico argumento escrito por Taylor Sheridan, o actor entre outras coisas de CSI: Nova Iorque, que se tornou, para melhor, guionista e assinou o ano passado o aclamado Sicário: Infiltrado, de Denis Villeneuve.

‘David McKenzie parece ter-se inspirado em grande parte no estilo dos Irmãos Coen e na literatura de Cormac McCarthy.’

Chris Pine e Ben Foster são dois irmãos com uma hipoteca para pagar, relativa a uma velha quinta da mãe, entretanto falecida. Para poderem saldar a divida, que os deixaria na miséria, decidem assaltar as dependências do mesmo banco que cobra a hipoteca. O seu plano é assaltar as agências bancárias na abertura, quando ainda não há clientes, para depois se porem facilmente em fuga de carro, pelas pequenas cidades e estradas do interior do Texas.

Custe o Que Custar

Pine interpreta Toby, o irmão mais novo, um bom tipo, inteligente com bom coração e um forte instinto paternal e familiar. Foster que personifica Tanner é uma personalidade volátil, violenta e o mais bronco dos irmãos.

‘A interpretação de Jeff Bridges, — pode dar perfeitamente uma nomeação aos Óscares — é notável, sobretudo nas suas expressões faciais…’

Do outro lado, estão Marcus (Jeff Bridges) e Alberto (Gil Birmingham), dois veteranos policías estaduais, que iniciam uma caça aos assaltantes. Marcus é um polícia à beira da reforma, experiente, perspicaz e um pouco inconveniente, pois está sempre a lançar comentários irónicos ao seu fiel companheiro. Marcus parece um retrato do xerife Bell (Tommy Lee Jones) de Este País Não é Para Velhos, dos Irmãos Cohen. A interpretação de Jeff Bridges, — pode dar perfeitamente uma nomeação aos Óscares — é notável sobretudo nas suas expressões faciais cada vez que lança  ‘carinhosos insultos’ ao seu colega de origem índia. No entanto, a relação de Marcus com Alberto, o seu inseparável companheiro é semelhante em termos  de lealdade e responsabilidade com a relação dos irmãos Tanner e Toby.

Custe o Que Custar

Custe o Que Custar! é um filme escrito à medida da experiência e talento de Jeff Bridges, mas é também o melhor papel da jovem carreira de Chris Pine, que cria um grande e credível personagem, cujo sentido de dever familiar vai orientar em grande parte drama do filme. Ben Foster é igualmente brilhante ao acrescentar subtilmente poderosos marcas de interpretação a um personagem menor, que não passa de um abrutalhado e violento vaqueiro do Texas, recém saído da cadeia.

Custe o Que Custar! tem um atmosfera de luz, acção, violência repentina, humor fino e relutante.’

Com isto, David Mackenzie e Taylor Sheridan — é preciso não esquecer o importante papel do argumentista neste Custe o Que Custar! — conseguem fazer um filme com muito mais acção e entretenimento que Sicário: Infiltrado ou mesmo em Este País Não É Para Velhos, embora não consigam fugir a essa referências. Se estes dois filmes estão carregados de um ambiente denso e lúgubre, pelo contrário, Custe o Que Custar! tem um atmosfera de luz, acção, violência repentina, humor fino e relutante.

Custe o Que Custar

A fotografia de Giles Nuttgens mantêm uma brilhante sensação de estarmos sempre a acompanhar os protagonistas nas tonalidades secas das cidades perdidas do Oeste e nos campos de exploração de petróleo do deserto texano e nos céus cobertos de nuvens cinzentas. A reforçar o drama a dupla musical Nick Cave e Warren Ellis proporcionam umas belíssimas notas de guitarra características desse ambiente do interior dos EUA.

Consulta : Guia das Estreias de Cinema | Dezembro 2016

Custe o Que Custar! tem assim uma das melhores bandas sonoras da temporada, numa mistura eclética e trepidante de sonoridades e guitarradas que dão ritmo intenso ao filme. São dez as canções que constituem esta brilhante compilação, onde se incluem temas  de Waylon Jennings, Ray Wylie Hubbard, Townes Van Zandt, Scott H. Biram ou Chris Stapleton.

Custe o Que Custar! tem uma das melhores bandas sonoras da temporada, numa mistura eclética e trepidante que dá um ritmo intenso ao filme.’

O músico australiano Nick Cave, que acabou de editar um excelente disco intitulado Skeleton Tree lançado recentemente — alías juntamente com um emocionante documentário, One More Time With Feeling, de Andrew Dominik estreado em 3D em Portugal no L&EFF ’16 e agora nas salas — cria com Warren Ellis, mais uma extraordinária banda sonora para Custe o Que Custar!, depois das anteriores colaborações nos dois westerns: Dos Homens Sem Lei, de John Hillcoat (2012) e O Assassínio de Jess James Pelo Cobarde Robert Ford, de Andrew Dominik (2007). 

Custe o Que Custar

Custe o Que Custar! é um dos melhores filmes de 2016, terrivelmente bem escrito, magnificamente bem dirigido, com interpretações perfeitas e onde tudo funciona como uma máquina perfeita sem qualquer tipo de excessos.

O MELHOR: Praticamente tudo do argumento às interpretações sobretudo a de Jeff Bridges;

O PIOR: as inevitáveis referências aos filmes dos Coen e de Villeneuve.

 

 


Título Original: Hell or High Water
Realizador:  David Mackenzie
Elenco: Jeff Bridges, Chris Pine, Ben Foster
NOS | Drama | 2016 | 102 min

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José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colaborou no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’  (2014) e 'Mar Urbano Lisboa (2019). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’ (2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’ (2012), Mostras de Cinema da América Latina (2010 e 2011), 'Vamos fazer Rir a Europa', (2014), Mostra de Cinema Dominicano, (2014) e Cine Atlântico, Terceira, Açores desde 2016, até actualidade. Foi Director de Programação do Cine’Eco—Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela de 2012 a 2019. É membro da FIPRESCI.

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