Cyrano de Bergerac critica

Cyrano de Bergerac, em análise

Cyrano de Bergerac” de Jean-Paul Rappeneau é um clássico francês de 1990 que volta agora aos cinemas numa nova versão restaurada que abriu a 19ª Festa do Cinema Francês.

As décadas de 80 e 90 do século passado representaram uma era doirada para a produção de filmes de época e prestígio, normalmente adaptações literárias de obras portentosas. Entre os projetos que se incluem neste fenómeno, encontramos muita mediocridade, alguns inegáveis desastres, assim como umas quantas obras-primas que transcendem a visão preconceituosa que muitos críticos têm do filme de época. “Cyrano de Bergerac” de Jean-Paul Rappeneau é um dos grandes píncaros desta era, sendo o grande destaque da fação francesa da mesma. Afinal, são raros os filmes falados noutra língua que não o inglês que conseguem arrecadar cinco nomeações para os Óscares da Academia, ganhar uma estatueta e ter fama suficiente para, 28 anos depois da sua estreia, voltarem ao cinema numa versão restaurada.

Não obstante a raridade e improbabilidade das suas características, assim é “Cyrano de Bergerac”, uma adaptação da famosa peça oitocentista de Edmond Rostand sobre a vida, altamente ficcionada, de Hector-Savinien de Cyrano de Bergerac, um soldado poeta que viveu e morreu no século XVII. Esta é uma das obras mais célebres dos palcos franceses e já por várias vezes havia sido adaptado ao cinema, inclusive numa célebre interpretação com José Ferrer no papel principal. Contudo, esta versão com um guião assinado por Rappeneau e Jean-Claude Carrière representa a melhor delas todas.

Cyrano de Bergerac critica
O monólogo sobre o nariz de Cyrano é uma passagem justamente lendária do texto original.

Mantendo-se fiéis ao verso estilizado de Rostand e fazendo pouco para mascarar a estrutura em atos teatrais, os cineastas contam o drama e folia da sua personagem titular. Ele é um homem de grande inteligência e portador do dom da palavra, mas é também um destemido guerreiro. Apesar do seu talento e bravura, Cyrano é atormentado pelo amor que nutre por Roxane, sua bela prima. O poeta não supõe que ela alguma vez o possa amar, acabando mesmo por ajudar um soldado atraente que capturou o olho da jovem a seduzi-la. Christian de Neuvillette é o seu nome e, ao contrário de Cyrano, ele pode ser belo, mas tem pouca habilidade enquanto mestre da palavra.

Para dar felicidade à amada e ao jovem que ela tanto deseja, Cyrano empresta a Christian a sua mente brilhante, escrevendo cartas de amor a Roxane assinadas com o nome do soldado mais novo. No extremo, o poeta esconde-se nas trevas e enaltece Roxane à varanda, enquanto Christian só se revela para roubar um beijo antes de um casamento igualmente facilitado pelos esquemas de Cyrano. Este é um clássico, mas não querendo revelar mais, resta dizer que a guerra se abate sobre a vida de todas as personagens, ceifa umas quantas e, pelo final, o que era uma comédia romântica na França de Luís XIV, converte-se numa sôfrega tragédia.

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Tudo isso acontece e Cyrano tem um nariz enorme. Não obstante a natureza do enredo ou os detalhes das personagens, é essa protuberância facial que tem vindo a dar longevidade à peça de Rostand. O nariz e o monólogo sobre ele, em que Cyrano, ofendido pelos ares superiores de um pretendente à mão de Roxane, dá início a um duelo no meio da ópera parisiense, onde há tanto lugar para lâminas aguçadas como para línguas afiadas. Trata-se de uma passagem lendária e o jogo de palavras é tão deleitoso que somente a sua declamação monocórdica teria o seu prazer, mas neste filme existe um claro amor à palavra e Rappeneau e seus atores bem exacerbam a natureza gloriosamente anti-naturalista dos versos rimados em par.

Ninguém fala assim e ninguém alguma vez falou assim, mas Gérard Depardieu quase que nos faz crer na ilusão. No papel que o tornou numa estrela internacional e arrecadou uma nomeação para o Óscar assim como o prémio do Festival de Cannes, Depardieu é um génio de modulação tonal, dando vida às cambalhotas de registo inerentes à peça com insana facilidade e um tipo de dicção e discurso físico que, não traindo as exigências anti-naturalistas do texto, sugerem um realismo palpavelmente humano e não a rarefeita ficção de uma vida vivida em palco e nunca fora dele. Aliás, essa constante fricção entre realismo e artifício teatral que o ator tanto personifica constitui a dinâmica central ao sucesso do filme.

Cyrano de Bergerac critica
Uma dança entre realismo cinematográfico e artifício teatral.

Com a sua história de amor e tragédia convoluta, protagonista caricato e texto em verso, “Cyrano de Bergerac” é uma obra de inexorável irrealidade. Contudo, os esforços de cenografia, maquilhagem e figurinos contribuem para uma recriação quase arqueológica da Paris seiscentista. Tal ambiente físico é então filmado por Pierre Lhomme com um olhar tão atento a detalhes como aberto a instâncias de lirismo visual. Até os movimentos de câmara, que atravessam espaços iluminados com a ilusão de constante luz, representam a dicotomia estilística. São gestos que falam da formalidade de cortejo à apresentação de imagens, ao mesmo tempo que exacerbam a materialidade robusta do mundo da história.

Tantos filmes semelhantes a este usaram métodos parecidos e falharam, pois, ao invés de abrirem as portas à imersão completa do espectador, convidavam-no a apreciar o fausto da sua produção. Por muito requinte que esteja à vista em “Cyrano de Bergerac” nada é gratuito, havendo até uma considerável economia cinemática no seu discurso de forma e estrutura. Isso não só contrasta com o discurso falado, como o enaltece, celebrando o artificio ao mesmo tempo que o ancora numa realidade humana que lhe dá peso emocional.

Não seria erróneo caracterizar esta versão cinematográfica de “Cyrano de Bergerac” como um objeto de precisão quase mecânica, com Rappeneau como seu magistral engenheiro. Contudo, não obstante toda a exatidão em evidência nos aspetos formais e sua dança ritmada com o texto e conteúdo interpretativo, é o humanismo latente do realizador que, no fim, realmente torna esta adaptação num filme quase perfeito. Numa narrativa pejada de ciúmes, manipulações carnavalescas, campos encharcados de sangue e homicídios cometidos à luz do dia, “Cyrano de Bergerac” é uma celebração poética das suas coloridas personagens.

Até o pomposo Comte De Guiche, interpretado por Jacques Weber, acaba por fugir ao fado de ser infligido com uma representação antagónica. No universo deste maravilhoso filme, todos temos direito a ser apreciados individualmente, a ver nossos méritos admirados e a sermos amados, se não por aqueles que desejamos ardentemente, então pela audiência do espetáculo. E que espetáculo é este! “Cyrano de Bergerac” é uma das grandes joias do cinema francês dos anos 90 e merece ser redescoberto por audiências que ainda não tenham tido oportunidade de se maravilhar com sua magnificência no grande ecrã.

Cyrano de Bergerac, em análise
Cyrano de Bergerac critica

Movie title: Cyrano de Bergerac

Date published: 2018-10-05

Director(s): Jean-Paul Rappeneau

Actor(s): Gérard Depardieu, Anne Brochet, Vincent Perez, Jacques Weber, Roland Bertin, Philippe Morier-Genoud, Gabriel Monnet, Philippe Volter, Pierre Maguelon

Genre: Drama, Comédia, Romance, 1990, 137 min

  • Cláudio Alves - 92
  • José Vieira Mendes - 80
86

CONCLUSÃO

“Cyrano de Bergerac” é um filme quase perfeito e um dos melhores esforços a sair da febre por adaptações literárias que começou nos anso 80 e explodiu na década seguinte. Geràrd Depardieu dá a prestação de uma vida, na companhia de um elenco uniformemente formidável, e o trabalho de cenografia, figurinos e fotografia é tão bom que dá vontade de nos levantarmos de pé no cinema e aplaudir.

O MELHOR: É difícil escolher entre Depardieu e o trabalho de reconstrução histórica.

O PIOR: Quem estiver em busca de uma exploração moderna ou análise crítica do texto original está em maus lençóis. Este “Cyrano de Bergerac” é tão obcecado com a imersão do espetador no passado que parece ser o documento de um viajante no tempo que foi filmar a intriga na Paris do verdadeiro Cyrano.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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