Dead Horse Nebula critica

Rotterdam 2019 | Dead Horse Nebula, em análise

Dead Horse Nebula” é o filme de estreia do realizador turco Tarik Aktas. O ano passado, ganhou o prémio para Melhor Realizador Emergente na Secção Cineastas do Presente do Festival de Locarno e, agora, está disponível online no site do Festival Scope como parte da sua colaboração com o International Film Festival Rotterdam.

A relação entre o Homem e a Natureza é algo que tem fascinado artistas desde tempos imemoriais. No cinema, a situação não é diferente. Exemplo disso é “Dead Horse Nebula”, uma exploração assombrosa da comunhão desequilibrada entre o ser humano e o mundo natural de que ele abusa. Poderíamos ver aqui uma narrativa com traços de ativismo ecológico, mas o cineasta estreante Tarik Aktas parece ter em mente uma visão mais primordial, quase ritualista, como se a terra fosse uma divindade a que a pequenez humana se esqueceu de prestar a devida devoção. As consequências de tal desrespeito, obviamente, envolvem a punição do herege.

Tudo começa com uma imagem ominosa. Uma gota em verduras secas, uma lente distorcida, um raio de sol concentrado e a sugestão de fogo iminente. Assim se inicia “Dead Horse Nebula”, num nível de pormenor que está perto da abstração. Trata-se de um aviso de labaredas vindouras, tanto aquelas que vão consumir um cadáver como aquelas que vão consumir a existência do protagonista. Ele, que passamos bastante tempo sem ver, é somente uma criança neste prólogo campestre, onde as paisagens turcas tudo dominam.

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A Natureza desrespeitada terá a sua vingança.

É nessa paisagem que um rapaz encontra o cadáver de um cavalo. A juventude, dominada pela curiosidade da meninice, não respeita a sacralidade de uma vida perdida. Ele mira o corpo, toca-o e com um pau perfura a sua pele. A ferida não sangra, mas dela floresce uma explosão de vísceras e larvas que a câmara captura com atenção, desafiando o espectador a afastar o olhar do horror, do asco, do crime de um inocente. Os adultos não demoram a aparecer e a tratar de se desfazer da carcaça animal. O cadáver é rijo e inchado, sua cabeça é pesada como chumbo, mas lá se consegue mover o cavalo e, chegada a noite, pega-se fogo a sua carne sem vida.

O menino tudo isto observa, seus olhos são a câmara da memória que segue as linhas traçadas pelas chamas e o fumo que se eleva como uma torre no céu noturno. Sobre essa imagem meio abstrata de fumo negro sobre um céu escuro, aparecem os créditos da obra e seu título, anunciando o fim deste prólogo. É também o fim desta memória. A partir daqui o menino é um adulto e essa violação do corpo do cavalo é somente uma memória que o assombra e que é avivada pelo derramar do sangue.

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O sangue não é o da ovelha que vemos o protagonista carregar pelas ruas de sua aldeia. É certo que ele a dispõe no chão, pega na faca para sacrificar o animal e prepara o pescoço da criatura para ser perfurado. Contudo, algo corre mal. A montagem muito esconde, muito sugere e pinta mistério com pormenores banais tornados símbolos ominosos de um fado trágico. Vemos como o sacrifício pastoral que se transforma numa libação com o próprio sangue do pastor.

Primeiro, parece que foi o pescoço do animal cortado, até que vemos o sangue brotar da perna, uma mancha escarlate a cobrir um par de calças de ganga velhas, esticadas pela carne que contêm e assim tornadas tela avermelhada. Trata-se de um dos grandes exemplos da economia visual do filme e sua capacidade para tornar momentos fugazes em parte de rituais naturais e odisseias fatídicas. No início, por exemplo, pormenores dispersos e filmados fora de contexto, um movimento de carro e uma mão na corda, um som, um grito, sugerem toda uma cena de esforço e lavoro rural.

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Economia audiovisual torna o filme num gesto de elegância cinematográfica.

Noutras ocasiões, “Dead Horse Nebula” explora seus temas de retribuição da Natureza contra o ser humano através de construções cénicas simétricas. Como em cenas no carro que antecedem o protagonista a abusar dos recursos naturais ou o uso de escuridão primeiro nos “ritos fúnebres” do cavalo e depois numa viagem ilícita por uma ribeira em busca de peixes que nenhum dos pescadores tem autorização legal para apanhar. Por tudo isso, o filme mostra ser uma magnífica estreia, delineando as capacidades do seu realizador cujo nome deve estar na mente de todos os cinéfilos com gosto por este tipo de propostas internacionais.

Certamente o fim é todo um espetáculo de um potencial mestre do cinema a mostrar o que vale. O cenário é o esqueleto de um prédio, traços de metal e betão a violar a integridade de uma paisagem desértica como rasgões numa pintura. Aí, o feitiço da natureza finalmente tem efeito e a vingança manifesta-se. Nesse templo da imposição humana sobre o mundo natural vemos o protagonista em aflição, seus gestos um ballet de desgraça imparável. Tudo o que vimos até agora pode ser acidental, mas a maneira como é mostrado, ganha o sabor de uma maldição. É impressionante e assustador.

Dead Horse Nebula, em análise
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Movie title: Dead Horse Nebula

Date published: 22 de February de 2019

Director(s): Tarik Aktas

Actor(s): Serkan Aydin, Baris Bilgi, Ömer Bora, Ali Yavuz Ilman, Mümin Süren, Dilara Topuklular, Hasan Türker, Serkan Özsalginci

Genre: Drama, 2018, 73 min

  • Cláudio Alves - 75
75

CONCLUSÃO:

“Dead Horse Nebula” é uma espécie de conto ecológico que toma a forma de um ritual ancestral mais do que um argumento político. O efeito é por isso mais assustador e primitivo que intelectual, especialmente no que diz respeito ao uso de imagens carregadas de simbologia óbvia. No meio de tudo isto, é a elegante construção formal que eleva o projeto acima de tantos outros semelhantes, especialmente seu engenhoso trabalho com os ritmos do lavoro rural.

O MELHOR: A montagem que torna uma série de momentos sem nexo na história de um pecado original contra Natureza que acaba na desgraça de um menino tornado homem, de um inocente tornado abusador do mundo que lhe deu vida e sustento.

O PIOR: A música, especialmente no final, é sempre tremendamente má.

CA

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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