Destroyer: Ajuste de Contas, em análise

Destroyer: Ajuste de Contas” é uma pungente declaração de genialidade cinematográfica por parte de Karyn Kusama, que nos insere numa viagem tão pavorosa e sombria, apenas equiparável à libertação diabólica de uma Nicole Kidman assombrosamente irreconhecível.

Destroyer: Ajuste de Contas
Erin Bell (Nicole Kidman) no encalço dos seus suspeitos.
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Destroyer: Ajuste de Contas tem andado nas bocas do mundo, desde que esta Nicole Kidman com “aspeto rafeiro e esfomeado” saiu da tumba das filmagens para se mostrar no material promocional da fita criminal neo-noir de Kusama. E não é para menos, já que o confronto com o rosto carcomido e o olhar ressacado da detetive nova iorquina Erin Bell, requer um certo estofo visual até conseguirmos adaptar-nos àquela carcaça humana débil e moribunda. Até Kidman ter-se-á surpreendido com a naturalidade com que vestiu aquele casaco másculo de cabedal mortuário, e um par de jeans enfolados que quase tropeçam na sola dos seus sapatos rasos, enquanto um daqueles seus berros catárticos antes de cada “take”, fá-la apropriar-se de todas as cicatrizes e feridas de uma Erin em autodestruição. Mas não será de estranhar uma abordagem tão incisiva e sulfúrica se tivermos em conta o último trabalho cinematográfico de Kusama (O Convite), que volta a infundir no nervo dos seus retratos imagéticos aquele filtro hitchcockiano das emoções inquietantes não verbalizadas, com um colírio depressivo de cores e sombras polarizantes.

(…) “Destroyer” (…) não teme vestir as calças de todos esses machões anti-heróis para elevar a figura feminina ao patamar sórdido e agressivo, aonde os homens durões gostam de medir os centímetros das suas armas.

Erin devora-nos a alma com o seu olhar congelado de remorso e condenação, que Phil Hay e Matt Manfredi amplificam cirurgicamente, em cada linha discursiva como um travo de nicotina sucinto e metódico espartilhado num guião não linear, em que por via do acesso às vivências do seu passado traumatizante, atrevemo-nos a espreitar para aquele abismo tenebroso onde Kidman teve de entrar e encontrar uma forma de se escapar. Mas as duas até têm mais em comum do que se possa conjeturar, já que tanto uma como outra tiveram de se infiltrar em peles desconhecidas para voltarem a respirar na sua própria pele. E Kusama bem quer que nos sintamos quase como uns “voyeuristas” da jornada vingativa da agente Erin Bell, vendo por ela e sentido com ela o mesmo prazer mórbido na sua redenção pessoal. E tal como a matilha de coiotes esguios e letais, que Kidman viu descer das vastas colinas californianas de Silver Lake a esgravatar nos caixotes do lixo, identificamos em Erin o mesmo comportamento mimético de sobrevivência primitiva, que Kidman usurpa com uma postura desconcertante e uma violência sadista escabrosamente gratificante.

Destroyer: Ajuste de Contas
Erin Bell (Nicole Kidman) e o seu parceiro Chris (Sebastian Stan).
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Mas só levamos com essa injeção de epinefrina imagética na segunda estrada percorrida pela desgastada e cadavérica Erin Bell, aquela que já viu demasiados crimes em dezassete anos para não conseguir esquecer um em particular. Kusama pega com tanto ardil nesse estigma e cospe-o na nossa cara como um veneno manipulador, numa dicotomia cronológica que nos transporta persistentemente para a jovialidade do trauma, até regressar tortuosamente à sua metamorfose biológica no presente. Porque é nessa realidade tão longínqua e tão fresca, que Erin encontra o seu amor e a sua penitência em Chris (Sebastian Stan). Um duo dinâmico, que petrifica todos os olhares e incendeia todos os corações com uma química vigorosa inserida num contexto periclitante. Mas esse é o trunfo destes enredos sustentados em personagens tão voláteis, que esbatem eficazmente a ténue linha entre o bem e o mal, entre a lealdade e a traição. E é tão “Heat – Cidade Sob Pressão”; tão “Dia de Treino”, mas isso é parte da beleza tétrica de “Destroyer”, que não teme vestir as calças de todos esses machões anti-heróis para elevar a figura feminina ao patamar sórdido e agressivo, aonde os homens durões gostam de medir os centímetros das suas armas. Kidman bem que esteve um mês a disparar o gatilho numa carreira de tiro com todo o tipo de arsenal balístico, para naquela memorável cena em que persegue o cabecilha de um gangue de assaltantes, entrar a matar com uma automática em riste e um sorriso criminoso completamente doentio e perverso.

(…) Kusama (…) volta a infundir no nervo dos seus retratos imagéticos aquele filtro hitchcockiano das emoções inquietantes não verbalizadas, com um colírio depressivo de cores e sombras polarizantes.

Mas esta trama quase slow-burner de Hay e Manfredi não se esgota na demanda furiosa de uma mulher contra os seus maus da fita, ainda vai mais longe ao criar um incêndio adicional nesta vida já queimada de Erin. Shelby (Jade Pettyjohn) é essa labareda descontrolada, que destila o seu ódio delinquente numa mãe destroçada, que tenta refazer as pazes com os seus demónios interiores. Quando se encontram face to face, as duas são fogo que arde e se vê, são ferida que dói e se sente, com a jovem estrela de dezoito anos a revelar uma maturidade representativa naquela expressão rebelde e maligna de embasbacar. Kusama acorrenta-nos e pendura-nos a essas escaramuças com os seus close-ups tóxicos, num jogo de contrastes lixiviosos, que gritam por ajuda nos arranhões metálicos dos violinos de Shapiro.

Destroyer: Ajuste de Contas
Erin Bell (Nicole Kidman) a tentar salvar Petra (Tatiana Maslany).
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Destroyer: Ajuste de Contas é um filme destrutivo, que nos destrói por dentro com a selvajaria das suas emoções taciturnas. À primeira vista até poderia estar a vender um peixe vulgar num pacote demasiado espalhafatoso, mas a verdade é que a longa metragem de Kusama soube marinar todos os condimentos fulcrais dos grandes clássicos criminais dos anos 70. É arrojado e provocador com a sua estrutura atípica, e embora a narrativa seja um pouco mastigada lá mais para o final, Kidman é puro dinamite amarrado aos nossos corações.

Destroyer: Ajuste de Contas
Destroyer: Ajuste de contas Trailer

Movie title: Destroyer

Movie description: A odisseia moral e existencialista da detective da polícia de Los Angeles Erin Bell (Nicole Kidman) que, enquanto jovem polícia, foi infiltrada num gangue no deserto da Califórnia, um caso que resultou em trágicas consequências. Quando o líder desse gangue reaparece muitos anos depois, Erin vai ter de lidar com a história que tem com os remanescentes membros do gangue, para poder finalmente acertar contas com os demónios que lhe destruíram o passado.

Date published: 2019-02-07

Director(s): Karyn Kusama

Actor(s): Nicole Kidman, Toby Kebbell, Tatiana Maslany, Sebastian Stan

Genre: Ação, Crime, Drama, Mistério, Thriller

  • Miguel Simão - 90
  • Ângela Costa - 90
  • Rui Ribeiro - 85
  • João Fernandes - 85
  • Daniel Rodrigues - 70
  • Cláudio Alves - 70
82

CONCLUSÃO

Destroyer: Ajuste de Contas é um filme potente e visceral com uma história comum, que Kusama soube elevar a um patamar de excelência graças a uma direção cinematográfica criativa e estilizada. Mas quem precisa de todos os louvores e mais alguns é Nicole Kidman, que encanta como nunca encantou com um ímpeto malicioso assustador. Era digno de uma nomeação para os Óscares, mas já sabemos como essas coisas funcionam.

O Melhor: A interpretação estratosférica de Nicole Kidman, caraterização chocante; edição original e personalizada; belíssima cinematografia com referências a Hitchcock e Polansky; cenas de acção e suspense de cortar a respiração; sonoplastia de roer as unhas.

O Pior: Argumento por vezes demasiado trabalhado; desfecho um pouco apressado.

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Miguel Simão

Jurista e Poeta em algumas horas vagas. Cinéfilo incurável com forte pancada pelo sci-fi, que se perde algures pelo vício noturno de umas quantas séries televisivas de renome; amaldiçoado pelo perfecionismo estético de uma resma de palavras mais ou menos caras. Podem encontrar-me a divagar entre a Terra e o Espaço no meu blogue premiado Última Transmissão Humana.

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