"Family Romance, LLC" | © Skellig Rock

DocLisboa ’19 | Family Romance LLC, em análise

Family Romance, LLC” é um dos dois filmes do mestre alemão Werner Herzog a marcar presença na programação do DocLisboa deste ano.

Werner Herzog tem vindo a construir uma das mais idiossincráticas e fascinantes filmografias na História do Cinema. Este tresloucado génio alemão já hipnotizou atores, levou operadores de câmara junto a vulcões em erupção e até puxou um navio por cima de uma colina. Nos últimos anos, o audacioso Herzog tem-se focado principalmente na elaboração de projetos documentais. São filmes tão variados como uma odisseia tridimensional através de cavernas pintadas e meditações sobre a efemeridade do conhecimento digital.

Mesmo com tudo isso em consideração, “Family Romance, LLC” representa uma nota peculiarmente dissonante na oeuvre do cineasta. Para um filme parecer estranho no contexto desta carreira, há mesmo que gabar a bizarria do feito. Aqui se conta a experiência de um profissional da deceção e do engodo. Longe de ser um vigarista criminoso, Ishii Yuichi é um ator que efetivamente faz de todo o mundo o seu palco, prestando serviços a quem paga pela sua presença nos mais variados papéis.

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“Family Romance, LLC” é o nome do filme, mas também é o nome da empresa para a qual este indivíduo trabalha no Japão. Tóquio é a sua principal área e suas famílias mais abastadas são os principais clientes. Ocasionalmente também aparece alguém mais humilde como um trabalhador dos comboios que o contrata para fazer de seu colega de trabalho e culpado de um erro cometido pelo cliente. Assim, o maquinista não tem de ouvir os ralhetes do supervisor e é o ator que cumpre o ritual da humilhação.

Esse episódio é uma breve distração da principal narrativa que dá forma ao documentário. Ishii é contratado para se fazer passar pelo pai de uma jovem colegial de 12 anos. O progenitor de Mahiro Tanimoto morreu quando ela era pequena, mas a mãe nunca lhe contou a verdade, preferindo a estabilidade emocional da mentira ao luto da verdade. É a mãe que paga ao ator que finge ser o pai ausente de regresso à vida da menina, pronto a lhe dar o carinho e o afeto pelos quais ela anseia.

Outra função dele parece ser agir como um espião da mãe, que assim sabe quando a filha mente, quando ela tem angústias escolares ou problemas com rapazes. Tudo tem uma pátina de problemáticas éticas difíceis de ignorar, mas o mais grotesco do aparato é como ninguém age como se a situação fosse estranha. As aparências é que importam e num mundo em que tudo se torna comodidade, até o amor da família é algo que se adquire com trocas monetárias.

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Não que Herzog insista em tais moralismos. Um dos gestos mais interessantes da aventura é o modo como ele se apaga a si mesmo, excisando do filme a narrativa sardónica que é quase parte integrante do seu cunho pessoal. Aqui, só se marca a presença dos sujeitos em frente da câmara, um espetáculo que já por si denota camadas infindáveis de artifício sem ser precisa a adição de um comentador. Esse comentário, de certa forma, já se adquire com a mistura de atores a interpretar os clientes de um ator social que se interpreta a si mesmo.

Além disso, a observação aguçada do cineasta não parece interessada em fazer comentários etnográficos sobre a sociedade japonesa ou mesmo um estudo de personagem com grande profundidade psicológica. O interesse do filme parece incidir única e exclusivamente nas sobreposições de fachadas em jogo neste espetáculo de mentira e auto ludibrio. Felizmente, ao invés de explorar essa temática com mão pesada ou portentoso dramatismo, Herzog demonstra uma faceta não muito comum na sua obra. Falamos de um inesperado sopro de gentileza humanista.

O absurdo e o grotesco das situações filmadas são bem evidentes, mas a atenção do espectador está sempre a ser direcionada para pequenos gestos de graça na tapeçaria de estranheza. Trata-se do sorriso mesclado com melancolia na cara de uma mulher que nunca irá conseguir reviver na plenitude a alegria de uma surpresa passada. Trata-se da doçura de uma menina que brinca com ouriços ou a facada de tragédia que é um homem tão consumido pelo artifício que não consegue encarar os seus entes queridos sem o amargo sabor da suspeita.

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O Japão aos olhos de Herzog é um pesadelo capitalista. Ou talvez nem seja especificamente o Japão, mas todo o mundo no seu presente estado. Decerto que os únicos rasgos de algum interesse visual em “Family Romance, LLC” provêm dos cenários de Tóquio, quer seja a geometria urbana das passadeiras ou a delicadeza cor-de-rosa das cerejeiras em flor. Pena que Werner Herzog tenha capturado tudo isto em baixa-resolução digital e com esquemas de montagem quase amadores. Tal displicência formal tira muito poder ao exercício que, com mais algum aprumo, poderia ter sido mais uma joia na coroa cinematográfica do seu autor.

Family Romance LLC, em análise
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Movie title: Family Romance, LLC

Date published: 2019-10-27

Director(s): Werner Herzog

Actor(s): Ishii Yuichi, Mahira Tanimoto

Genre: Drama, Documentário, 2019, 89 min

  • Cláudio Alves - 65
65

CONCLUSÃO:

“Family Romance, LLC” é um estranho triunfo de artifício extremado e capitalismo selvagem, capaz de tornar até o amor de um pai numa comodidade a ser comprada e vendida.

O MELHOR: As mãos de uma criança num vidro, tentando tocar num pai que não consegue lidar com o amor da sua família depois de ter passado o dia a fingir esse mesmo afeto para com outras pessoas.

O PIOR: Formalmente, o filme é um pequeno desastre.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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