DocLisboa Graves Without a Name critica

DocLisboa ’18 | Graves Without a Name, em análise

Graves Without a Name” é o mais recente filme de Rithy Panh, maior cineasta cambojano da atualidade e um dos grandes mestres do documentário. Trata-se de um dos melhores e mais poderosos filmes em exibição no DocLisboa deste ano.

Há três décadas que Rithy Panh dedica a sua vida e carreira à criação de um testemunho cinematográfico dos horrores do Khmer Vermelho no Camboja. Seus filmes são elegias e exumações, exorcismos e assombrações que delineiam as cicatrizes deixadas por essa era de terror e gritam contra uma doença nacional de apatia traumatizada. Nas mais famosas das suas obras, nomeadamente o filme nomeado para o Óscar “A Imagem Que Falta”, Panh centra a sua pesquisa artística na história horrenda da sua família. Ainda em criança e no início da adolescência, o cineasta foi exilado da sua cidade natal e enviado para campos de trabalhos forçados com a sua família. Foi aí que ele viu toda a sua família morrer.

Ao longo do tempo, a fome e exaustão levaram o pai, a mãe e as irmãs. Seus corpos estão perdidos algures nas paisagens do Camboja, uma nação feita vala comum pelas forças ditatoriais que, em nome da igualdade, lavraram os campos com mão escrava, semearam ossos, dentes, roupa rasgada e carne dilacerada, regaram a terra com sangue e contaminaram a população com a sua crueldade. Ainda hoje se encontram, nas regiões agrícolas do país, camponeses que testemunharam e fizeram parte do massacre. Panh dá-nos o seu testemunho, ouve-os falar de como o regime promoveu o ódio de classes, mas também filma os seus fantasmas. Todos eles viram horrores inimagináveis e agora olham para a terra trabalhada como quem olha para um demónio.

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Panh exuma o sofrimento do seu passado para encontrar salvação.

Contudo, não é com esses entrevistados de cara enrugada, pele escurecida pela resina e olhos assombrados pelo passado que o filme se inicia. Em contraste os outros filmes de Panh, “Graves Without a Name” coloca o realizador em frente à câmara. Vemos o seu cabelo ser rapado e as mãos limpas em preparação de rituais budistas. Se os seus outros filmes eram exumações da história nacional e pessoal, esta obra afirma-se logo nestes primeiros instantes como algo diferente. Aqui temos uma tentativa de seguir em frente e de encontrar redenção, de encontrar paz e um caminho espiritual que possibilite a salvação de todo o trauma que sufoca Panh e o Camboja. É um caminho difícil feito por linhas tortas que se cruzam, mesclam e dobram sobre si mesmas, sempre dificultando ainda mais a travessia.

Como o título indica, parte da procura por redenção relaciona-se diretamente com o ritual do luto cujas campas sem nome impedem de se realizar na plenitude. Ao destruírem os corpos das suas vítimas, as autoridades tirânicas perpetuaram a dor da perda, apagando a memória do indivíduo num ato de violação da integridade humana que transcende gerações e o tecido da própria História. O que Panh procura, verdade seja dita, não são os restos mortais da sua família, pois isso será impossível, mas alguma réstia de materialidade que possa simbolicamente representar aquilo que em tempos viveu e que a monstruosidade humana roubou e tentou aniquilar.

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Tais preocupações materiais e de presença física não se resumem somente aos cadáveres perdidos. De facto, se há algo que diferencia “Graves Without a Name” de muitos outros filmes que abordam temas semelhantes é a sua veemente recusa em deixar que a memória se torne em algo abstrato ou etéreo. A memória e o trauma são algo gravado tanto no corpo como no espírito, tanto na terra como na coletividade de um povo em luto. Os rituais xamânicos em busca de túmulos desconhecidos envolvem inúmeros objetos e o próprio ato funéreo implica a criação de um representante físico do que se perdeu, mesmo que sejam só bonecos de cera.

As dores da fome, por exemplo, não são um fantasma espectral, mas sim uma angústia orgânica que ainda afeta os corpos daqueles que a sofreram e serve de permanente lembrança dos horrores do passado. Comida ou a falta dela é algo que permeia os testemunhos de várias entidades, camponeses e pessoas da cidade castigadas pelo seu pressuposto privilégio intelectual e social. Fala-se muito nas ervas que podiam ser cozidas com arroz para melhor alimentar um estômago mirrado em suplica por sustento. A certa altura, um dos camponeses de olhos atormentados fala mesmo de uma mulher que, no extremo do desespero, cortou um pedaço de carne à coxa de um corpo recentemente enterrado.

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Trauma e desespero sintetizados em filme.

No cúmulo da hipocrisia, ela foi castigada pelo seu crime contra a santidade do corpo humano pelo mesmo regime que, quando as mortes eram demasiadas para possibilitar o enterro, deixava os cadáveres dos trabalhadores forçados enrolados em mantas, à mercê da fome dos cães selvagens. Ouvir tais histórias durante cerca de duas horas é uma experiência extenuante, mas “Graves Without a Name” não é um exercício em miserabilismo tortuoso. Desde a sua intenção esperançosa como na sua mise-en-scène este é um filme que corre para longe do desespero, mesmo que o caminho para tal passe pelo entendimento do mesmo.

Caras aparecem sobrepostas a árvores com os troncos cortados e a sangrar resina. Aldeias em miniatura tomam o lugar de cidades e vilas que o Khmer Vermelho fez sumir sem deixar rasto. As fotos da família de Panh aparecem no chão, na terra, entre ramos e em dioramas, como espectros a observar os tormentos do presente. Não temos aqui nenhum gesto estilístico tão exuberante como o uso das figuras de barro em “A imagem Que Falta”, mas sim uma extensão do discurso material de todo o filme. Na banda-sonora, uma voz narra em francês e verbaliza aquilo que as imagens artesanais do cineasta não conseguem.

No fim, nem as imagens nem a palavra, nem a memória nem o testemunho conseguem iluminar os passos para a salvação, mas Panh parece ter-se movido nesse sentido, mesmo assim. No início a voz dizia, em francês, que estava morta. Agora, admite a vida, mesmo com o trauma da morte a pesar-lhe nas costas. Rithy Panh está vivo. Nós estamos vivos e cabe-nos a nós identificar as campas do cemitério da História e impedir que as suas vítimas sejam esquecidas, para sempre perdidas em sepulturas sem nome.

Graves Without a Name, em análise
DocLisboa Graves Without a Name critica

Movie title: Les tombeaux sans noms

Date published: 25 de October de 2018

Director(s): Rithy Panh

Genre: Documentário, 2018, 116 min

  • Cláudio Alves - 90
90

CONCLUSÃO

A memória não é etérea e a dor do passado não é só um pesadelo que nos atormenta com pesadelos efémeros. Tudo isso se sente no corpo e na terra, tudo deixa marcas e a tentativa de apagar tais marcas é a maior monstruosidade de todas. No seu mais recente filme, Rithy Panh tenta encontrar a paz, mas para lá chegar há que se encarar de frente o horror do passado que ainda exerce seu poder demónico sobre a vida no presente. Esta é mais uma obra-prima do cineasta cambojano sobre os crimes do Khmer Vermelho e o flagelo que lhe custou a vida da família.

O MELHOR: Uma imagem, perto do fim do filme, que ilustra perfeitamente um mundo do avesso em que os mortos caminham na terra sob a forma de traumas e os vivos estão mortos e enterrados pelos crimes do passado.

O PIOR: Esta é uma experiência cinematográfica muito dolorosa, não obstante a sua qualidade.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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