"La vida en común" | © DocLIsboa

DocLisboa ’19 | La vida en común, em análise

O realizador argentino Ezequiel Yanco filmou “La vida en común” como um estudo antropológico e lírico sobre comunidades oprimidas e meninos que se tornam homens através do derramamento de sangue. O filme integra a programação do DocLisboa deste ano.

No deserto nortenho da Argentina, um puma anda à solta. Sua passagem é marcada por uma vasta carnificina, com cadáveres sangrentos a serem deixados, meio comidos, pela paisagem árida. Em Pueblo Ranquel, uma comunidade indígena, exilada há gerações pela sociedade argentina, o terror do puma inflama os humores de adolescentes que veem na caça do predador uma oportunidade para provarem a sua virilidade.

Os ritos de passagem da meninice para a vida adulta tomam novas formas neste mundo com um pé no século XXI e outro em tempos ancestrais. Há o tribalismo da tradição, mas os heróis de tais missões agora passam parte da sua odisseia em frente ao espelho, contemplando os novos cortes de cabelo. Nas escolas, aprende-se o espanhol e morrem os idiomas dos nativos. No deserto, construções futuristas sugerem o amanhã, enquanto as pessoas querem viver no ontem.

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Estes contrastes e contradições pintam uma paisagem de desolação e resiliência humana. A História tem vindo a destruir esta comunidade e seu genocídio é um espectro que assombra todo o filme sem nunca ser confrontado diretamente. Ele vive na ausência de pessoas, na ausência de adultos neste cosmos dominado pela juventude em revelia e sem rumo. O vazio estende-se até onde a vista alcança e amedronta tanto quanto deslumbra.

De certa forma, a beleza pictórica que Ezequiel Yanco traz a “La vida en común” tanto valoriza os seus esforços documentais, como os trai. Os temas centrais do projeto tendem a perder-se, esbatidos pela estética sonhadora com que o seu realizador capturou os ritmos do quotidiano indígena. Por outro lado, é essa mesma qualidade que eleva a obra acima de tantas outras, dando ordem à sua observação, organizando o caos do acaso e fazendo do facto um conto.

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O cineasta é um historiador, mas aqui assume a posição de um poeta e de um dramaturgo. “La vida en común” é, putativamente, uma documentação de factos, só que a sua construção revela artifício em nome do lirismo. A realidade da caça, torna-se numa metáfora conveniente e as interações dos miúdos sugerem a mise-en-scène estudada de um grande autor. Nada aqui é casual ou suscetível ao acidente. Para puristas do género documental, tais dramatismos certamente irão confundir e enfurecer.

Contudo, grande cinema poucas vezes nasce de essencialismos e convenção seguida religiosamente. Não que “La vida en común” seja uma obra-prima cinematográfica de primeira categoria. Os seus esforços são valiosos e fazem-se sentir no produto final, transfigurando o dinamismo de adolescentes a crescer num épico primordial de dimensões cósmicas e íntimas. O uso de narração em voz-off até dá ao aparato os ares de um devaneio filosófico à la Terrence Malick.

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Isto funciona em benefício e detrimento do projeto. Diluindo a sua essência e, no mesmo gesto, apurando alguns dos seus maiores prazeres e subtilezas. A agressão dos miúdos de armas em punho entra em interessantes conflitos com a empatia consumida da narração. Uns querem matar um puma, enquanto a outra presença pensa como seria ser um puma. Uns destroem e outros seguem o caminho da empatia. Não há juízos sobre quem está certo ou errado.

Esta falta de julgamento é também falta de decisão sobre a perspetiva vigente do filme. A ambiguidade de tudo isto é uma boa tradução da ambivalência dos protagonistas. Perdidos entre a juventude e a velhice, entre a tradição e a modernidade, estes jovens são como elos perdidos numa cadeia de complicados cismas culturais. “La vida en común” jamais explora tais realidades com o rigor sociopolítico que gostaríamos de ver, mas, pelo caminho, talvez se aproxime mais da essência destes jovens do que uma abordagem mais analítica poderia ter conseguido. Trata-se de um estudo antropológico valioso e de um verso fílmico fascinante, mesmo que pareça sempre meio incompleto.

La vida en común, em análise
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Movie title: La vida en común

Date published: 2019-10-24

Director(s): Ezequiel Yanco

Genre: Documentário, 2019, 70 min

  • Cláudio Alves - 70
70

CONCLUSÃO:

Cheio de visões de carnificina e violência, de animais mortos e predadores invisíveis, “La vida en común” é um fascinante poema visual sobre comunidades isoladas por injustas crispações históricas.

O MELHOR: O primor visual deste exercício.

O PIOR: A qualidade repetitiva do filme.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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