Timothée Chalamet e Elle Fanning em "Um Dia de Chuva em Nova Iorque "(2019) |© Gravier Productions

Um Dia de Chuva em Nova Iorque, em Análise

“Um Dia de Chuva em Nova Iorque” (2019) chega finalmente às salas de cinema nacionais, a 24 de outubro. O mais recente filme de Woody Allen sofreu alguns percalços nos Estados Unidos, tendo visto a sua distribuição na Amazon cancelada no seio do #metoo. Contudo, chega a vários países da Europa este outono. E assim se filma mais uma carta de amor a Nova Iorque…

A quota de produção cinematográfica anual de Woody Allen viu-se comprometida, quando a sua filha voltou à comunicação com as alegações de abusos sexuais cometidos por Allen. No meio desta polémica, que remota já ao final de 2017, dois dos jovens protagonistas do filme decidiram marcar uma posição, doar os seus salários a instituições e lamentar a colaboração com o realizador. Foram eles Selena Gomez e Timothée Chalamet. Chalamet estava nesse momento em modo de campanha para a edição de 2018 dos Óscares, e embora tivesse anteriormente dito que era um sonho tornado realidade colaborar com Allen, a música foi diferente com a publicidade negativa a abundar contra Woody Allen. Assim, este filme ficou na gaveta, até ao momento em que uma Europa pouco influenciada pelas correntes do #metoo decidiu dar-lhe nova vida. Assim, estreia finalmente em Portugal, envolto em muita curiosidade, não fosse assim com todas as obras que ameaçam não ver a luz do dia.

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UMA NOVA IORQUE NOSTÁLGICA 

Um dia de chuva em nova iorque
Selena Gomez e Timothée Chalamet |© Gravier Productions

“Um dia de Chuva em Nova Iorque” segue a estrutura, lógica e mood de muitos outros filmes de Woody Allen. Pode-se dizer, acima de tudo, que é datado. Passa-se no tempo presente, há portáteis, telemóveis e ecrãs de televisão modernos, mas o sentimento é de velho glamour, de pianistas em bares de jazz, bailes e galas no Uper East Side, estúdios de cinema em Queens e homens a fumar cigarrilha. Não se chamasse o nosso protagonista Gatby Welles, esse nome tão corrente. Há referências aqui e ali a elementos contemporâneos, mas o bolor é notório e faz-se sentir. Talvez Woody tenha uma nostalgia vincada por um tempo que já não volta, e por uma Nova Iorque que já não existe….

Esta criação de Allen está cercada de uma enorme artificialidade. Contudo, ao contrário da maior parte da crítica corrente, este sentimento plástico e datado não é propriamente um problema maior. Não um que enfraqueça a narrativa ao ponto de se tornar banal e desnecessária. Isto porque existe uma intencionalidade por detrás desta estética vintage. Woody Allen filma a Nova Iorque que  o seu protagonista ambiciona, uma Nova Iorque como a que vemos em filmes clássicos. É dito abertamente no decurso do filme, que a vida real é para quem não consegue melhor do que isso. Que a vida voa, e voa essencialmente em classe económica, sem assentos confortáveis.

O nosso protagonista, Gatsby, é quase tão melodramático como o personagem do livro que provavelmente assim o batizou. Vê a vida em tons de cinza, e parece tal como o Gatsby original, retirado de uma obra dos anos 20. As suas atividades favoritas? Tocar piano, beber whisky e jogar Poker e Blackjack. Por isso, parece muito mais um personagem tipo do que alguém real. E, sem dúvida, assume-se como tal. É também um eco de muitos personagens que o próprio Allen interpretou nos seus filmes, o do nova iorquino rico de classe alta, enfadado com a vida, e mais neurótico do que a racionalidade parece permitir.

UM ELENCO VENCEDOR E A TRAGÉDIA DE UM FINAL 

A Rainy Day in New York
Jude Law, Liev Schreiber e Elle Fanning |© Gravier Productions

Uma coisa é certa acerca deste filme, talvez seja a nostálgica Nova Iorque que se filma, a cidade-musa que já não filmava há quase uma década, talvez seja o talento jovem sem vícios, talvez seja uma combinação de ambas, mas a verdade é que “Um Dia de Chuva em Nova Iorque” é a proposta mais competente de Woody Allen desde “Blue Jasmine”, de 2013, o seu último filme verdadeiramente assinalável. Muito superior a autênticas desgraças como “Café Society” de 2016, igualmente nostálgico, mas com metade do charme, talvez porque ao invés de Timothée Chalamet e Elle Fanning temos Jesse Eisenberg e Kristen Stewart a comandar o barco. Embora Emma Stone seja sempre tão encantadora quanto hilariante, “Magia ao Luar” (2014) era encantador mas algo vazio e “Homem Irracional” (2015) era puramente mau, especialmente brindado com um final capaz de eclipsar tudo o resto.

O que é também evidente é que Woody Allen tem cada vez menos jeito para terminar filmes. “Um Dia de Chuva em Nova Iorque” é uma proposta bem mais razoável do que outras do seu passado recente, como reforcei, mas o final do filme, que não revelarei aqui, tem uma conversa franca entre Gatsby e a sua mãe, que leva o filme completamente para o reino do absurdo e risível. É algo que, se pensarmos bem, tem tendência a acontecer nas obras recentes do realizador. Aconteceu no seu último filme, protagonizado por Kate Winslet e Juno Temple, e aqui regressa. Contudo, esta produção compensa com alguns minutos finais dentro do cânone clássico. Sendo pouco criativo, não deixa de ser algo reconfortante. Com Woody Allen, sabemos com o que podemos contar.

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Mas qual é afinal o enredo do filme? Um conto de encontros e desencontros, o filme narra exatamente o que o título promete, um dia inteiro, chuvoso, em, Nova Iorque. Gatsby (Timothée Chalamet) e Ashleigh (Elle Fanning) são um casal de universitários de 21 anos. Ela vem do Arizona, ele de Nova Iorque. Ambos são ricos e proeminentes, mas enquanto a família dele organiza galas em Manhattan, a dela gere bancos numa região interior.

Quando Ashleigh marca uma entrevista com o famoso e conceituado realizador Rolland Pollard (Liev Schreiber), os dois pombinhos planeiam passar um fim de semana romântico em Nova Iorque. Contudo, uma entrevista de uma hora transforma-se numa autêntica bola de neve, e o casal acaba separado durante a grande parte da acção, para desespero do pobre Gatsby. Estes encontros e desencontros provam-se bastante divertidos, provocando uma sólida reacção em sala.

Esta comédia romântica conta ainda com Jude Law, Diego Luna e Selena Gomez nos restantes papéis principais, e há que dizer que ninguém aqui fica particularmente aquém das expectativas. E como bónus para as meninas (e porque não meninos), Timothée Chalamet até toca piano e canta neste filme. Curiosos?

E por aí? Planeiam ver este filme, e qual o vosso Woody Allen de eleição? 

Um Dia de Chuva em Nova Iorque

Movie title: Um Dia de Chuva em Nova Iorque

Date published: 2019-10-24

Director(s): Woody Allen

Actor(s): Timothée Chalamet, Elle Fanning, Selena Gomez , Jude Law

  • Maggie Silva - 75
  • Rui Ribeiro - 80
78

CONCLUSÃO

Ao fim de alguns filmes, "Um Dia de Chuva em Nova Iorque" marca o regresso de Woody Allen a Nova Iorque. A sua musa está bela como sempre, desta vez cinzenta e chuvosa, no seu melhor. Um neurótico e uma cabeça no ar são os protagonistas de mais um conto clássico do realizador.

O MELHOR: O jovem elenco e também os atores com uma carreira mais longa estão todos impecáveis. Confirma-se também que Nova Iorque é mesmo a musa que Woody Allen melhor filma.

O PIOR: Não traz nada de novo à mesa, perpetua imensos estereótipos e, como é comum nos seus filmes, não representa as mulheres de forma nada simpática.

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Maggie Silva

Licenciatura e Mestrado em Ciências da Comunicação na vertente de Cinema e Televisão pela FCSH-UNL, porque à segunda é de vez. Dependente de cultura pop e cinema indie. Campeã suprema do binge watch, sempre disposta a partilhar dois dedos de conversa sobre o último fenómeno a atacar o pequeno ou grande ecrã.

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