Cada vez mais vão surgindo novas vozes no cinema português. E um dos nomes incontornáveis é o de Paula Tomás Marques, que após várias curtas metragens com um percurso rico nos festivais (como “Cabra Cega” ou Dildotectónica”). Apresenta a sua primeira longa metragem em “Duas Vezes João Liberada”, que chega hoje aos cinemas. O filme estreou no festival Indielisboa e passou também por Berlim, em 2025.
Uma nova fase do cinema português
Sendo que a nova obra de Paula Tomás Marques reflete sobre alguns dos temas que a realizadora já trouxe noutros projetos, como a sexualidade, a identidade, a religião e o fantástico. Esta mistura que a realizadora traz para debate com uma abordagem de metacinema muito particular é uma lufada de ar fresco para o cinema português, que precisa (e vai precisando cada vez mais) de filmes provocadores e irreverentes como é esta tentativa da realizadora.
“Duas Vezes João Liberada” conta-nos a história de João, uma atriz trans lisboeta, que é a protagonista de um filme biográfico sobre Liberada, uma figura histórica do século XVIII — uma pessoa não conforme com o género que foi perseguida pela Inquisição Portuguesa.
Porém, enquanto as filmagens decorrem, o projeto transforma-se num autêntico campo de batalha. Pois João entra em conflito com o realizador sobre a forma como a história e o legado de Liberada devem ser retratados.
Duas Vezes João Liberada e o novo cinema queer

O filme é sem dúvida uma obra única, que mistura muito bem uma reflexão válida sobre identidade e adaptação com um toque de comédia irresistível. Toque esse que se apresenta de forma completamente inesperada e original. Mostrando assim um lado do cinema português que ainda não tínhamos visto. Com uma linguagem muito atual que fala com as novas gerações, que infelizmente estão muito afastadas do cinema feito no nosso país.
O filme brilha ao misturar a ficção com a meta ficção. Apresentando uma estrutura onde o cinema é aquilo que leva ao maior conflito do filme entre atriz e realizador. Sendo que é neste conflito onde vive o coração de “Duas Vezes João Liberada”. Assim como o maior debate que o filme traz para cima da mesa. Pois a realizadora traz-nos, através de uma experiência caótica de rodagens, uma reflexão sobre como o mundo olha para as pessoas queer, e a forma como estas querem ser olhadas. Será correto olhar para Liberada como uma grande vítima da Inquisição? Ou, no mundo de hoje, ao traduzir esta história para o cinema, devia-se procurar dar uma identidade a esta personagem? É esta a questão que a protagonista de “Duas Vezes João Liberada”, interpretada por June João, coloca ao realizador do filme que se faz no enredo.
A dificuldade na adaptação

Desta forma, “Duas Vezes João Liberada” acaba por falar maioritariamente sobre como a arte deve retratar as pessoas queer, assumindo que estas são mais do que apenas vítimas. Porém, Paula Tomás Marques consegue trazer esse debate importante para a tela de forma leve, divertida e bem-humorada.
Embora o filme acabe por ter algumas dificuldades em termos estruturais. Já que a montagem do também realizador Jorge Jácome, ao dividir-se em capítulos, desequilibra um pouco a estrutura de uma obra que parece que tem algumas dificuldades em assumir o formato de longa metragem. O que acaba por ser natural, tendo em conta que este é o primeiro trabalho neste formato da realizadora. Sendo que a curta duração do filme (apenas 70 minutos) mostra também que este é um primeiro filme mais contido de Paula Tomás Marques.
Em suma, “Duas Vezes João Liberada” é o filme que o cinema português precisa. Sobretudo graças ao tom contemporâneo e irreverente que a realizadora acrescenta a esta história que mistura tantos elementos interessantes.
Conclusão
“Duas Vezes João Liberada” é a confirmação de Paula Tomás Marques enquanto um dos nomes mais irreverentes e promissores do cinema português. Este filme provoca e toca na ferida ao mesmo tempo que nos faz rir, algo que o nosso cinema precisa mais do que nunca.

