O IndieLisboa pode já ter terminado as suas sessões nas salas da capital. Contudo, ainda vais ter acesso a diferentes extensões por várias cidades portugueses nas próximas semanas. Paralelamente, dada a dimensão do festival, ainda poderás ter acesso a algumas críticas nossas nos próximos dias. É o caso do documentário “Quem Tem Medo de Zurita de Oliveira?” (2026, Francisca Marvão).
Este filme português fez parte da secção IndieMusic e foi exibido a 1 de maio no Cinema São Jorge e a 10 de maio no Cinema Ideal. Trata-se de um documentário que celebra a vida de Zurita de Oliveira, pioneira do rock português ainda nos anos 1960.
Qual a narrativa de Quem Tem Medo de Zurita de Oliveira?

“Quem Tem Medo de Zurita de Oliveira?” é um documentário que presta homenagem a um grande ícone da música portuguesa que iniciou a sua carreira nos anos 1950.
Em pleno Estado Novo, Zurita era uma mulher fora do seu tempo e que desafiava o regime. Este documentário não é, contudo, um filme fechado no tempo. Além de nos mostrar quem era Zurita de Oliveira, também compreendemos como a sua música perdurou no tempo.
Entre entrevistas, alguns (poucos) arquivos – sobretudo, fotográficos e sonoros – , reinterpretações musicais e alguns momentos ficcionais (onde se destaca uma entrevista encenada com Joana Pais de Brito e Nuno Nolasco), é um documentário que é simultaneamente uma homenagem à cantautora e às mulheres.
O rock antes de o ser em Quem Tem Medo de Zurita de Oliveira?
Se o rock’n’roll invadiu Portugal muito mais a partir dos anos 1980 com bandas como GNR ou Xutos & Pontapés, na verdade, já em 1960 Zurita de Oliveira trazia o rock para o nosso fechado país. Ela foi mesmo considerada a pioneira do género em Portugal com a música “O bonitão do rock”, lançada em 1960. Numa altura em que Portugal vivia sobre ditadura e a liberdade das mulheres era parca, falamos de uma grande lufada de ar fresco.
Confesso, pessoalmente, que Zurita de Oliveira me era uma pessoa desconhecida; algo que lamento pois este documentário traz à luz uma vida e obra muito relevantes. Se a própria realizadora do filme confessa que Zurita é pouco conhecida do público nacional, esperemos que esta obra venha a trazer novos interessados. Para mim, garantidamente que sim.
Anteriormente, em 2019, já a realizadora Francisca Marvão tinha dado algum destaque a Zurita de Oliveira com o filme “Ela é uma Música”. Com várias mulheres a atravessarem o centro desse documentário, o foco em “Quem Tem Medo de Zurita de Oliveira?” é apenas esta cantautora.
A intemporalidade da música

Sinto que “Quem Tem Medo de Zurita de Oliveira?” é um filme-introdução à vida e obra da artista que dá nome ao filme. Conhecemos, efetivamente, um pouco do seu percurso mas a lógica de Francisca Marvão não é fechar o seu filme à realidade histórica da cantautora.
Deste modo, o filme até balanceia muito bem entre os diferentes momentos/tons da narrativa. Nem as entrevistas são demais nem os momentos musicais. Podíamos, contudo, ir um pouco mais além no ‘escavamento’ desta artista musical se Francisca Marvão nos desse um pouco mais da vida e do contexto histórico de Zurita de Oliveira. Ainda assim, as diferentes intérpretes musicais das letras e músicas de Zurita de Oliveira – como A Garota Não, Vitória & The Kalashnicoles ou Trypas Corassão, entre outras – vêm, não só dar uma mais-valia de momentos mais leves como também significativos. Com estas reinterpretações percebemos como Zurita estava bem à frente do seu tempo e as suas letras são intemporais ainda hoje.
A duração do documentário “Quem Tem Medo de Zurita de Oliveira?”, com pouco mais de 1h, será benéfica para a circulação do filme. Contudo, ao deixar-nos com algumas lacunas sobre o lado mais pessoal da artista e com a perpetuidade no tempo com um pouco mais de destaque também criará no espectador alguma curiosidade para ir conhecer um pouco mais desta artista. Apesar de tudo, isso também é um sinal positivo.
Em termos técnicos não há nada de relevante a apontar. Contudo, seria um pouco escusado o diálogo textual perto do fim sobre o vídeo musical que não pôde entrar no filme. Sim, seria relevante ver Zurita de Oliveira a cantar, mas não precisávamos de uma justificação textual a quebrar o ritmo. Quanto muito, poderia aparecer a explicação no genérico final.
Quem Tem Medo de Zurita de Oliveira?
Conclusão
- “Quem Tem Medo de Zurita de Oliveira?” é um documentário sobre um ícone pouco conhecido da música portuguesa em meados do século XX.
- Um retrato intemporal sobre a vida e obra de Zurita de Oliveira e a forma como as suas músicas perduram no tempo.
- Sente-se algum desequilíbrio de duração entre a explicação da vida e obra da cantautora e as reinterpretações atuais das suas músicas. Contudo, a junção dos dois elementos é uma mais-valia muito bem conseguida no documentário.

