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Dune – Duna, em análise

Dune”, ou “Duna”, ou, melhor dizendo, a primeira parte dessa história representa um dos filmes mais ambiciosos do ano. Denis Villeneuve concebeu uma ópera espacial solene, cheia de visões do outro mundo e uma carga concetual difícil de levar da página ao grande ecrã. Timothée Chalamet protagoniza a fita no papel impossível de Paul Atreides, também conhecido como Muad’Dib, Uslu, O Pregador, aquele que muitos julgavam ser o Kwisatz Haderach.

O primeiro livro na saga “Dune” ou “Duna” de Frank Herbert é um daqueles trabalhos que define todo um género literário, tão grande é a sua influência sobre os artistas que surgiram no futuro, todos eles sob a sua majestosa sombra. A escala do texto é tão incomensurável como sua complexidade, tecendo pensamento e descrição obsessiva numa massa plasmodial de reticulada reflexão histórica. Em certa medida, o romance é tão mais sobre política e religião do que uma mera ópera espacial, narrando um futuro que sucumbiu ao feudalismo interplanetário no rescaldo de uma guerra santa contra a inteligência computadorizada. Trata-se de um testamento a um fado imaginado da espécie humana, um destino mais trágico que risonho.

A um nível mais estrutural, onde o tema e a forma dão as mãos, “Duna” quase se pode encarar como uma desconstrução subversiva das histórias de figuras messiânicas. De facto, existe aqui um ‘escolhido’, mas sua condição única não devém de uma magia maior que o homem, mas da manufatura feita pelo esquema político e pela eugenia. Se Paul Atreides, filho varão do Duque Leto e de Lady Jessica, está destinado a liderar a Humanidade, essa finalidade existe como condenação do seu ser, como uma redução do humano a uma roldana integrada em imparável máquina da morte. O primeiro livro pode dar a entender que estamos a testemunhar uma origem do herói, mas premonições do futuro desabusam o próprio Paul dessas ilusões.

dune duna critica
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Havendo uma moralidade de “Duna”, ela consiste num aviso contra a confiança total em líderes carismáticos, num apontar do dedo à religião enquanto arma para a subjugação de povos, para a justiça divina enquanto justificação para violências hediondas. No fim de tudo, Paul não segue um caminho doirado face a um futuro brilhante para a humanidade. Ele é a causa de biliões de mortes feitas em seu nome. O herói de “Duna” é a peça final da sua conceção do Mal enquanto ação coletiva que se prende à veneração do ditador, um movimento histórico que renega a sacralidade da vida humana e reduz todo o mundo a meios sacrificais para um grande propósito. Os livros fazem isso tudo e ainda concebem um dos universos fantasiosos mais completos da literatura.

Verdade seja dita, ao lermos a magnum opus de Frank Herbert, a tonalidade que domina a experiência do leitor não é a ficção-científica. Mais facilmente sentimos estar a ler um romance histórico baseado em realidades que ainda não ocorreram. A própria expressão verbosa, a explicação do mundo e formalidade da linguagem, remete para a ficção academista feita a partir de factos dramatizados. Nesse sentido, Denis Villeneuve recria bem a atmosfera do livro, apagando, porém, suas vertentes mais psicadélicas. O filme que o cineasta canadiano criou, vibra com a monumentalidade dos cenários e o solene recontar de História antiga. Por vezes, diríamos que ele exagera na solenidade e arrisca o sepulcral, mas há muito a amar na sua conceção de “Duna”. Vemos mesmo que foi um fã do livro quem esteve sentado na cadeira de realizador.

Tentar sintetizar o épico de Herbert e sua adaptação cinematográfica nuns meros parágrafos é daqueles lavores impossíveis, um trabalho herculeano a tombar na futilidade sisífia. Mesmo assim, cá segue o sumário. Daqui a milénios, a humanidade espalhou-se pelo Universo conhecido e regressou a um regime imperial pela qual diferentes planetas são governados enquanto feudos por casas nobiliárquicas. Leto Atreides é o senhor da sua dinastia ancestral, vivendo num planeta aquoso pelo nome de Caladan. Num gesto de destabilização política, o Emperador Padishah Shaddam IV concede-lhe o domínio do recurso mais cobiçado do universo, dando-lhe a responsabilidade de governar Arrakis, um planeta deserto onde se produz melange, uma especiaria psicotrópica que permite a longevidade, vitalidade e abre os horizontes à mente humana, permitindo o funcionamento do transporte intergaláctico.

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Por outras palavras, sem melange, este mundo cai por terra e quem controla a especiaria controla o mundo. Pensar-se-ia que este presente seria causa para celebração, mas os esquemas imperiais são feitos com o pretexto de virar as outras casas aristocráticas contra os Atreides. Em segredo, o estado apoia a revolta vingativa da Casa Harkonnen, antigos senhores feudais de Arrakis e inimigos de sangue dos Atreides. Estão lançados os dados e o palco está montado para um golpe de estado, pela qual toda uma força nobiliárquica será exterminada. Dito isto, nem Leto, nem o Imperador, nem mesmo o hediondo líder dos Harkonnen, o Barão Vladimir, são os protagonistas de “Duna”.

Esse privilégio recai sobre Paul, o herdeiro do Duque Leto, cujo nascimento marcou o fim inesperado de um plano eugénico levado a cabo há gerações pela ordem religiosa das Bene Gesserit. Sonhos proféticos marcam a ascendência de Paul à plenitude dos seus poderes, mas o teste do Gom Jabbar, levado a cabo pela Reverenda Gaius Helen Mohiam, desencadeia sua consciência através da dor extrema. Em Arrakis, Paul descobre um planeta moldado pela influência das Bene Gesserit de modo a verem a sua chegada como um evento profetizado, a chegada de um messias. A traição dos Harkonnen resulta num banho de sangue e na odisseia pelo deserto de Paul e sua mãe, Lady Jessica das Bene Gesserit e a segunda personagem mais importante na narrativa.

Há muitos mais detalhes a explorar, mas isto é uma crítica e não um livro, pelo que escolhamos o caminho da síntese. Será fácil concluir que esta é uma história orientada mais à volta de gestos galácticos do que de personagens, mas isso não quer dizer que as figuras humanas são dispensáveis. Grande parte do livro vive dentro da cabeça dos seus heróis e vilões, usando subjetividade e psicologia reflexiva para ancorar o épico na pequenez humana. Villeneuve tenta contornar essa realidade, fazendo ocasional uso da narração voz-off e da transformação de monólogos internos em diálogos exteriorizados. Numa das melhores cenas de “Duna”, Jessica profere o mantra que vai na cabeça do Paul literário, indicando uma partilha mental, uma continuidade de pensamento difícil de estabelecer na materialidade objetiva do filme.

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Por outras palavras, por muito boa que a adaptação seja, há qualidades intrínsecas ao livro que o engenho cinematográfico de Villeneuve tem imensas dificuldades em traduzir. A Voz é outro mecanismo tornado num efeito especial e abrupta montagem que perde a subtileza do efeito na prosa. Dito isso, o maior problema adaptativo ao nível do pormenor refere-se a Paul, um papel impossível que Timothée Chalamet não consegue resolver por muito bom ator que seja. de facto, a única pessoa em todo o elenco que consegue perfurar a alienação do texto e conceber um humano tridimensional é Rebecca Ferguson no papel de Lady Jessica. Para um texto que, na página e no grande ecrã, põe tanta ênfase na diferença entre a humanidade da alma e da razão em contraste com a simplicidade animal, esta falta de interioridade é fatal.

Indo para zonas mais estruturais, o filme sofre muito pelo facto de ser somente metade de uma história, sentindo-se incompleto e cronicamente inconclusivo. Isso não teria de ser catastrófico, mas os pontos de início e fim deste gigantesco épico confundem. A primeira cena do livro é um milagre de desconcentração e pânico, um mistério que puxa o leitor para uma ação difícil de compreender e assim estimula uma experiência ativa. O filme não tem coragem para arriscar tanto, preferindo só mostrar essa cena mais de 20 minutos após um prólogo onírico por onde Villeneuve tenta dar o máximo de informação possível à audiência de modo a que o mundo projetado tenha chance de ser entendido. Quiçá essa seja a única opção para este material. Ou isso ou um filme de seis horas, talvez a série mais dispendiosa na História da televisão.

Enfim, não estando perante esse épico dos épicos ou dessa série, temos de encarar esta primeira parte de “Duna” como um objeto cinematográfico que transborda promessas de grandiosidade, cheio de potencial para um futuro extraordinário. Talvez a opinião mude com um segundo filme, mas este capítulo inicial sente-se vazio e erraticamente ritmado, sem estrutura sã capaz de sustentar a carga ideológica do argumento. Felizmente, trata-se de um banquete sumarento para os sentidos, cheio de design estonteante, desde a mistura de religiosidades heterógenas no figurino de Charlotte Rampling até à brutalidade da arquitetura orientalista de Arrakis. A música de Hans Zimmer, os efeitos sonoros e feitiçarias digitais também encantam, especialmente quando a paisagem areosa derrete e os vermes gigantes do deserto se mostram, quais monumentos monstruosos cuja magnitude nos tira as palavras. Em resumo, é cinema narrativa imperfeito, mas uma experiência que vale a pena ver, sentir. Deixem-se inebriar pela melange desta “Duna” cinematográfica e quiçá sintamos o êxtase pleno quando o segundo filme estrear e este fragmento finalmente seja completo.

Duna, em análise
Dune

Movie title: Dune

Date published: 23 de October de 2021

Director(s): Denis Villeneuve

Actor(s): Timothée Chalamet, Rebecca Ferguson, Oscar Isaac, Jason Momoa, Zendaya, Josh Brolin, Javier Bardem, Stellan Skarsgard, Stephen McKinley Henderson, Sharon Duncan-Brewster, Chen Chang, Dave Bautista, David Dastmalchian, Charlotte Rampling

Genre: Ação, Aventura, Drama, Ficção-Científica, 2021, 155 min

  • Cláudio Alves - 65
  • Maggie Silva - 85
  • Rui Ribeiro - 90
  • José Vieira Mendes - 60
  • Virgílio Jesus - 100
  • Manuel São Bento - 80
  • Inês Serra - 87
81

CONCLUSÃO:

Denis Villeneuve tenta fazer justiça ao romance épico de Frank Herbert e quase consegue. O que o trai é uma severidade de tom demasiado invariável e um argumento demasiado focado em ação e explicações de um mundo desconhecido. Mesmo assim, a conceção material dessa realidade literária é sublime, especialmente no que se refere aos contrastes de escala e o sentido de historicismo futurista.

O MELHOR: Os figurinos, a fotografia, os sons e visões de arquiteturas que apontam para o futuro, mas têm a textura de antiguidades passadas. A cena do Gom Jabbar e a prestação de Rebecca Ferguson também exigem aplausos.

O PIOR: A anemia das personagens no que se refere às psicologias interiores entendíveis pelo olhar da câmara. Sem a dimensão humana apurada, “Duna” é espetáculo vazio.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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