"Halloween Mata" | © Cinemundo

Halloween Mata, em análise

Halloween Mata” é o mais recente filme no franchise que começou em 1978 com o clássico de John Carpenter. David Gordon Green regressa à cadeira de realizador, perpetuando a história de Haddonfield e sua vitimização às mãos do incansável Michael Myers.

A série de filmes “Halloween” já dura há 43 anos, incorporando doze projetos e cinco cronologias distintas. Para tentar clarificar a história de Michael Myers, cá vai uma sumarização muito tosca do sucedido nesta saga sem fim. O primeiro “Halloween” de todos conta a história de uma noite infernal, quando um fugitivo enlouquecido regressa à sua terra natal e mata uma série de inocentes na sua travessia de regresso a casa. A sobrevivente e principal alvo do assassino foi Laurie Strode, uma adolescente que estava a tomar conta de miúdos vizinhos nesse fatídico 31 de Outubro. “Halloween II”, estreado em 1981, continua a relatar essa noite, dramatizando o ataque de Myers ao hospital para onde Laurie foi levada.

No fim dessa primeira sequela, tanto Michael Myers como o Dr. Loomis, seu psiquiatra desde a infância, morrem numa bola de fogo testemunhada pela aterrada menina Strode. “Halloween III” não tem nada que ver com essa noite e passa-se numa realidade alternativa onde o “Halloween “ de 1978 é um filme popular. Dito isto, apesar deste terceiro projeto estar completamente separado de todos os outros, marca o início de uma temática druídica que define as três sequelas seguintes, todas elas sobre o regresso de Michael Myers e sua odisseia contra os membros vivos da sua linhagem. Acontece que Laurie era a irmã perdida do homicida e é a sua filha orfanada que se torna na protagonista de “Halloween IV” e “Halloween V”.

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“Halloween VI: A Maldição de Michael Myers” marca o fim da cronologia associada à magia dos druidas. Em 1998, “H20” voltou a por a Laurie Strode de Jamie Lee Curtis no centro da ação, fazendo sequela direta a “Halloween II” e assim apagando as outras sequelas da cronologia. A isso seguiu-se o desastroso “Halloween – A Ressurreição” onde Laurie morre outra vez. Em 2007, Rob Zombie reinventou todo o franchise, refazendo o original ao seu estilo algures entre o realismo brutal e o drama gótico. Esse “Halloween” de 2007 e sua sequela direta marcam outra cronologia insular.

Finalmente, em 2018, David Gordon Green” tomou as rédeas deste franchise descontrolado e decidiu criar uma cronologia nova em que nenhuma das outras sequelas existe, nem mesmo o “Halloween II” original. Desta vez, experimentou-se o realismo psicológico enquanto força motriz da narrativa, uma análise do trauma causado por Michael Myers e o que as suas ações fizeram a Laurie, sua família, e toda a comunidade. Se o “Halloween” primeiro de Green incidiu mais na babysitter tornada em anjo da vingança, “Halloween Mata” tenta retratar a coletividade de Haddonfield e quanto a monstruosidade do assassino deixou cicatrizes profundas na psique geral destas pessoas, aqui convertidas numa multidão sedenta de sangue e justiça popular.

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Começando pelo positivo, temos de louvar como Green e companhia evocam a qualidade atmosférica de uma noite de outono fria. Se uma paleta mais quente dominou o filme de 2018, esta sequela deixa-se consumir pelo azul lunar tão marcante no cinema de Carpenter. Sente-se o afeto e a homenagem sem cairmos no reino da pastiche. Também a sonoridade é deslumbrante, retorcendo o icónico tema da saga e extrapolando novos terrores do seu minimalismo. Os efeitos sonoros praticamente deslizam para a música até tudo se tornar impossível de distinguir, uma cacofonia mutante ocasionalmente espicaçada pelo som da morte, pela visceralidade de lâminas contra carne e osso.

Também os efeitos de maquilhagem hão de deleitar os maiores fãs do gore. Michael Myers nunca foi o assassino cinematográfico mais original, mas o modo como sua chacina é aqui visualizada causa arrepios e aquele espanto extasiado com que olharíamos, por exemplo, para uma calamitosa catástrofe natural. Por outras palavras, ele move-se como uma força primordial, malignidade em forma de gente, e seus efeitos nos corpos alheios são autênticos espetáculos de sangue derramado. Carpenter encontrou o medo no silêncio e na simplicidade, no simples olhar de uma figura estática. Green segue um caminho mais barroco, uma filigrana de vísceras que nos dá visões tão hediondas como uma faca tão enterrada no olho que parte o osso ocular.

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Aqui encontramos um dos pequenos grandes problemas da fita – um perfeito desentendimento do que tornava Michael Myers tão individual e icónico. Apesar de um design queimado e mais grotesco que nunca, o vilão de “Halloween Mata” não emana o mesmo terror que seus antecedentes. A montagem e encenação das mortes também não ajuda, preferindo o choque barato a qualquer possibilidade de suspense. Por vezes, a abordagem funciona. Noutras ocasiões, esvai a emoção da cena, como acontece no instante final, quando a aniquilação de uma das personagens principais se perde num turbilhão de montagem errática e violência gráfica sobreposta ao sofrimento humano.

O mesmo problema reflete-se de outras maneiras ao nível do texto. Explodindo a narrativa e separando o protagonismo por várias pessoas, este “Halloween” perde Laurie pelo caminho, aprisionando-a no hospital, e roubando o holofote a Jamie Lee Curtis. Ao mesmo tempo, tenta tornar a Karen de Judy Greer, filha adulta de Laurie, numa âncora emocional que nunca funciona pois foi tão mal desenvolvida no filme anterior. O pior de tudo é que, apesar de se vangloriar pela exploração do trauma intrínseco ao género slasher, “Halloween Mata” reduz cada pessoa à soma das suas mágoas e pouco mais. O filme pensa estar a diagnosticar uma sociedade doente onde violência só resulta em mais violência quando, na verdade, só promove ideias redutivas sobre sobreviver ao trauma e cai em lugares comuns a torto e a direito. A fita entretém, mas David Gordon Green está longe de chegar aos calcanhares de John Carpenter ou mesmo a loucura onírica de Rob Zombie.

Halloween Mata, em análise
Halloween Mata poster

Movie title: Halloween Kills

Date published: 23 de October de 2021

Director(s): David Gordon Green

Actor(s): Jamie Lee Curtis, Judy Greer, Andi Matichak, James Jude Courtney, Nick Castle, Airon Armstrong, Will Patton, Jim Cummings, Dylan Arnold, Anthony Michael Hall, Kyle Richards, Nancy Stephens

Genre: Terror, Thriller, 2021, 105 min

  • Cláudio Alves - 40
40

CONCLUSÃO:

Intoleravelmente cruel, “Halloween Mata” não dá nova vida a um franchise que devia ter terminada ora em 1978, 1998 ou 2009. Já chega de Michael Myers, sempre reinventado e nunca melhorado, profanado com textos que desentendem seu apelo original e reduzem as suas vítimas a nacos de carne a ser dilacerada, pessoas que são aglomerados de trauma ao invés de indivíduos. O gore e o formalismo deleitam, mas a ênfase numa mensagem social só revela a vacuidade do projeto final.

O MELHOR: A fotografia e o som, o formalismo puro e duro que, com exceção da montagem, continua a ser a maior mais-valia no cinema mainstream de David Gordon Green. Preferíamos os seus filmes mais pequenos e independentes que, além da forma, também brilhavam ao nível da performance e da narrativa.

O PIOR: Quanto Jamie Lee Curtis é desperdiçada. Com tamanha scream queen em cena, é um pecado quão pouco os cineastas lhe dão destaque. Esta devia ser, acima de tudo, a sua história. Afinal, Laurie é a única personagem credível neste projeto que tanto tenta fingir profundidade através de uma estética adjacente ao realismo.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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