"El Año del Descubrimiento" | © IndieLisboa

IndieLisboa ’20 | El Año del Descubrimiento, em análise

Depois de competir pelo Tigre de Ouro no Festival de Roterdão, “El Año del Descubrimiento” faz agora parte da Competição Internacional do 17º IndieLisboa. Trata-se de um épico espanhol feito à base de conversas casuais e reflexão histórica.

O café é o fórum onde se discutem os assuntos do dia. Autênticos templos da conversação, um café local pode-se tornar centro de partilha de ideias, dando voz e audiência àqueles a quem a sociedade raramente dá direito da palavra. Uma bica, um par de cervejas, quiçá um copo de vinho barato, servem de lubrificante para a língua, levando a tagarelice que dura horas. Inicialmente, tudo pode ser muito mundano e pessoal, mas quando os braços do relógio começam a dar muitas voltas, novos temas infiltram a conversa. Sem nos darmos por isso, passamos horas a dissecar o estado do mundo, acólitos em missas de refilice onde, ao invés de incenso de igreja, se queima o tabaco que sempre acompanha o cafezinho.

É neste ambiente que o realizador Luis López Carrasco centra a sua primeira longa-metragem a solo. O cenário é um café em Cartagena, o Bar Tana onde vários indivíduos de classe trabalhadora passam os dias a discutir política e a por a conversa em dia. Por muito específica que a localização geográfica e cultural possa ser, Carrasco deixa a temporalidade do seu exercício meio indefinida. Pela mensagem textual que abre o filme e seus muitos interlúdios arquivais, podemos pensar que a clientela do café representa o povo cartaginense de 1992. Esse ano em que Espanha teve a Expo e os Jogos Olímpicos, quando os media celebravam uma nação renascida da ditadura e com os olhos postos no futuro, mas nas ruas se faziam manifestações causadas pela crise económica, industrial e social.

el ano del descubrimiento critica indielisboa
© IndieLisboa

Muitos detalhes da fita apontam para esse mesmo teor histórico. A imagem apela ao arcaísmo do vídeo com má qualidade dos anos 90. No Bar Tana fuma-se abertamente e sem restrições, algo que é ilegal na Espanha dos nossos dias. Além disso, o figurino e a caracterização sugerem o passado próximo, essa altura em que as permanentes armadas e os chumaços da década de 80 ainda vingavam na comunidade ibérica. Também não há a intrusão do smartphone, esse constante companheiro do indivíduo moderno. Qual é o café dos nossos dias onde ninguém alguma vez olha para o minicomputador que tem no bolso?

Contudo, à medida que a conversa avança e chegamos à segunda hora deste épico de quase três horas e meia, apercebemo-nos de que há comentários sobre o Euro e outros fenómenos da atualidade. As conversas da crise fazem tanto sentido para 1992 como para 2020 e a nostalgia pela ditadura franquista é, infelizmente, tão relevante agora como antes. Tanto muda e tanto se mantém igual. A continuidade dos problemas da sociedade espanhola assim emerge da conversa de café, do povo que vive na pele as marés da História e a decisão dos políticos. Subtilmente, Carrasco desorienta o espectador e faz dessa desorientação um dos alicerces da sua análise.

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Com a crescente claridade também vem a crescente politização do discurso. As conversas do Bar Tana vão ficando intensamente sérias conforme o tempo passa. Como um diálogo entre amigos, começa-se com casualidade, mas os temas vão ficando mais profundos e os ânimos mais levantados à medida que os copos de cerveja e as chávenas de café se acumulam na mesa. Fala-se da crise dos refugiados e dos sindicatos incompetentes. Fala-se das barreiras linguísticas e culturais que existem na Espanha. Fala-se do capitalismo violento, do unionismo fracassado e dos ideais que caem por terra. Fala-se de tudo um pouco e a heterogeneidade de ideias é fantástica.

A tapeçaria de gente assim dá cara e dá carne a uma dimensão política que, na conjetura atual, por vezes tomba para um abstrato concetual que vai alienando o comum dos mortais. Em “El Año del Descubrimiento”, o político é pessoal, sempre assim foi e sempre assim será. O fórum de ideias do café da esquina vive lado a lado com os noticiários. Neste caso, essa convivência é literal e plástica, sendo que Carrasco usa o mecanismo do split-screen para apresentar duas imagens em comunhão. Inicialmente, tudo o que vemos são duplas visões dos clientes do Bar Tana com ocasional introdução de texto histórico.

el ano del descubrimiento critica indielisboa
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Na mesma medida em que a conversa dos clientes se vai mutando, também a forma como ela é apresentada se altera. Anúncios e campanhas políticas da televisão de 1992 começam a intrometer-se cada vez mais no engenho cinematográfico. Sorrisos quase propagandistas convidam a ir à Expo ’92 enquanto uma senhora fala do desemprego, de fome e de miséria, ou filmagens de arquivo mostram manifestações à porta do Parlamento madrileno. O ecrã dividido pode ser difícil de aturar com a duração extrema do projeto, mas o seu uso é bem fundamentado pela temática do filme.

Como nota final, gostaríamos de salientar como projetos ao estilo de “El Año del Descubrimiento” têm vindo a por em causa as separações arbitrárias com que catalogamos cinema em específico e a arte em particular. Isto é documentário ou é teatro? É um filme ou uma instalação? Trata-se de uma obra imersiva que transcende essas definições limitadas, o tipo de trabalho que faz com que o espetador tenha vontade de discutir a sua experiência, que gera debate sobre seu conteúdo e sua forma. Esta pode não ser uma obra-prima cinematográfica sem mácula, mas trata-se de uma das experiências mais fascinantes desta edição do IndieLisboa.

El Año del Descubrimiento, em análise
el ano del descubrimiento critica indielisboa

Movie title: El Año del Descubrimiento

Date published: 28 de August de 2020

Director(s): Luis López Carrasco

Genre: Documentário, 2020, 200 min

  • Cláudio Alves - 80
80

CONCLUSÃO:

Num café de Cartagena, a clientela trabalhista discute o estado de Espanha. O filme usa a conversa contemporânea para refletir sobre a História, imergindo o espetador num discurso politizado que é tão necessário como é raro. Trata-se de uma experiência cinematográfica de grande ambição que merece o nosso respeito e a nossa admiração também.

O MELHOR: A imersividade do projeto. A certa altura, quase que nos sentimos como patronos do Bar Tana.

O PIOR: A duração extrema é meio despropositada e o gradual desuso dos dois ecrãs, apesar da separação se manter visível é muito distrativo. Ocasionalmente, um espetador pode ser levado a perguntar se “El Año del Descubrimiento” foi feito para ser apreciado na sala de cinema ou na exposição museológica.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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