Electra/Persona: Cate Blanchett e Nina Hoss Fazem Duas Peças, Quatro Mulheres e Nenhuma Concessão

© Monika Rittershaus / National Theatre
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Benedict Andrews cruza Sófocles com Ingmar Bergman no National Theatre e põe Cate Blanchett e Nina Hoss a trocar de identidade, voz e lugar. O resultado é um espectáculo feroz, cerebral e, acima de tudo, uma extraordinária prova de representação.

Muitas ideias loucas parecem às vezes demasiado inteligentes para sobreviver a um palco de teatro. Esta sobrevive. O encenador australiano residente na Islândia, Benedict Andrews pega em Electra, de Sófocles, cola-lhe o filme Persona, de Ingmar Bergman, entrega quatro personagens a Cate Blanchett e Nina Hoss e transforma a própria distribuição dos papéis num jogo sobre identidade. Numa noite, uma é Electra e Elisabet; a outra, Clitemnestra e Alma. Noutra, trocam. Não é apenas uma brincadeira cénica: é o princípio de tudo e um jogo de moeda ao ar.

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Na sessão em causa, Blanchett começa como Electra. E começa logo de rosto coberto de barro branco, corpo tenso, martelo na mão, raiva acumulada durante anos: não há aqui tragédia grega embalsamada para consumo cultural. Há uma mulher em combustão. A interpretação avança entre o trágico, o grotesco e um humor negro que impede a personagem de se tornar apenas um monumento ao sofrimento.

Do outro lado está Nina Hoss, uma Clitemnestra de gelo rachado. Menos expansiva, mais interior, quase económica no gesto. E é precisamente aí que o duelo ganha força. Blanchett ataca; Hoss absorve. Blanchett transforma o luto em fúria; Hoss devolve-lhe outro luto, o de Ifigénia, sacrificada por Agamémnon. O resultado não é uma luta simples entre culpada e vítima, porque Andrews faz o que Sófocles sempre fez melhor: complica a razão até ela deixar de caber inteira num só lado.

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Ella Lily Hyland, como Crisótemis, serve de contrapeso às duas forças principais, mas não há maneira de disfarçar o essencial: Electra/Persona vive do confronto entre duas actrizes no auge das suas possibilidades. Já tinham trabalhado juntas em Tár e percebe-se porquê. Escutam-se, medem-se, antecipam-se. Não disputam a cena; constroem-na uma contra a outra.

Depois vem Bergman e tudo muda sem mudar verdadeiramente.

A cenografia de Magda Willi, uma enorme estrutura de madeira em degraus, transforma-se de arena trágica em território mental. O sangue é limpo à vista do público, os figurinos mudam, desce um ecrã e aparece uma câmara portátil. O teatro começa a filmar-se a si próprio. Não por capricho tecnológico, mas porque Persona exige rosto, silêncio e grande plano. Blanchett torna-se Elisabet, a actriz que deixou de falar. E depois de uma primeira parte explosiva, passa a fazer quase tudo sem palavras. É uma mudança brutal de registo. O rosto substitui o texto, a câmara amplifica cada hesitação, cada olhar, cada sombra. O silêncio deixa de ser ausência e passa a ser acção.

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Hoss recebe o movimento contrário. Alma fala, fala cada vez mais, expõe-se, confessa, aproxima-se demasiado, perde a distância e começa a desintegrar-se dentro da própria linguagem. O que era conversa transforma-se em vulnerabilidade e depois em violência. Hoss faz esse percurso com uma precisão impressionante, sem nunca sublinhar demasiado a mudança.

É aqui que Electra/Persona encontra o seu melhor argumento. Não é uma peça sobre duas obras célebres. É uma peça sobre o que acontece a uma actriz quando muda de máscara, sobre o que fica de uma personagem quando outra começa e sobre a estranha violência de representar alguém sem deixar completamente de ser quem se era antes.

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A música de Hildur Guðnadóttir, o desenho sonoro de Brendan Aanes e a luz de Jon Clark ajudam a empurrar o espectáculo da tragédia física para um espaço quase abstracto. Mas nada disso funcionaria sem Blanchett e Hoss. Andrews pode ter criado a máquina; são elas que a fazem respirar. No fim, não interessa muito decidir se Electra é mais forte do que Persona ou se o teatro ganha ao cinema. A graça está precisamente em não escolher. Blanchett passa da explosão ao silêncio. Hoss, da contenção ao excesso verbal. Uma avança quando a outra recua, e depois trocam. Duas actrizes, quatro mulheres, dois universos e nenhuma concessão. É muito teatro para uma só noite.

E sobretudo muito difícil de se esquecer.

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JVM 9/10

Electra/Persona

Conclusão

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No fundo, Electra/Persona vale menos pela engenharia intelectual de juntar Sófocles e Bergman do que pela maneira como Cate Blanchett e Nina Hoss transformam essa ideia num duelo permanente de presença, silêncio, voz e identidade. Benedict Andrews constrói uma máquina cénica sofisticada, mas nunca deixa que a máquina engula as actrizes. Pelo contrário: entrega-lhes espaço para arriscar, contrariar, atacar, escutar e mudar completamente de registo diante do público. É isso que fica quando o espectáculo termina. Não o conceito, não a câmara, não a escadaria de madeira, nem sequer a colisão entre teatro e cinema. Ficam duas intérpretes extraordinárias a demonstrarem que representar é também perder por instantes a fronteira entre uma personagem e a seguinte. Electra/Persona não é apenas um grande espectáculo. É daqueles raros casos em que saímos da sala com a impressão de ter visto o teatro a testar os seus próprios limites  e, por uma noite, a ganhar.

Overall
9/10
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Pros

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O melhor: Cate Blanchett e Nina Hoss, evidentemente. Sobretudo a maneira como passam de Electra para Persona e trocam violência física por silêncio, contenção por torrente verbal. Duas actrizes excepcionais sem competição aparente e, talvez por isso, ainda melhores juntas.

Cons

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O pior: O risco de o dispositivo cénico — vídeo, câmara em palco, projecções e duplicações — parecer excessivamente consciente da sua própria inteligência. Nunca chega a engolir o espectáculo, mas há momentos em que Andrews quase nos recorda demasiado que está a encenar uma ideia brilhante.


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