Especial 007 Spectre | A realidade e a ficção vistas por um ‘espião português’

 

A complexa trama de ‘007 Spectre’, anda quase de mãos dadas com  a realidade e as ‘intrigas internacionais’ da actualidade. A Magazine.HD convidou um operacional dos serviços secretos portugueses, grande admirador de filmes de James Bond, para comentar estas teorias conspirativas.

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ARGUMENTO: No argumento de ‘007 Spectre’, a pretexto dos cortes orçamentais, M (Ralph Fieness) é pressionado por determinadas forças políticas, para fundir o MI5 e MI6, enquanto 007 (Daniel Craig) tem de enfrentar uma organização secreta chamada Spectre.

TEORIAS 1: A fusão de Serviços de Informação com Serviços de Estratégia e Defesa; os agentes secretos operacionais poderão ser substituídos pela tecnologia de agências privadas; supremacia da informação e vigilância, através de drones, câmaras, escutas telefónicas, em detrimento de operacionais no terreno; as chefias do serviços secretos tomadas por burocratas ou políticos corruptos que estão indirectamente ao serviço de interesses de organizações (muitas sobre a capa da legalidade), que se dedicam ao tráfico de armas, droga e pessoas, à lavagem de dinheiro, negócios de resíduos, experiências com medicamentos em África ou a exploração de recursos escassos como a água (‘Quantum of Solace’).

TEORIAS 2: Estas organizações supranacionais, que já dominam o mundo, têm como objectivo criar uma Nova Ordem Mundial; ao fragilizarem os serviços secretos fragilizam os Estados e logo serão essas organizações secretas ou semi-secretas (como a Spectre) a impor as regras e as até as leis; os serviços secretos nacionais já não são eficazes, por isso é melhor criar uma organização supranacional de SI.

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MHD: Face a estas teorias parece-lhe mais ou menos realista aquilo que o filme transmite, e na linha do que se está a passar actualmente nos serviços secretos e no mundo da espionagem?

Julgo que a trama do filme aborda, talvez pela primeira vez, questões que estão na ordem do dia quanto à redefinição das missões dos serviços de Intelligence (SI), tais como: que modelos operacionais a desenvolver num altura em que as distinção entre ameaças internas e externas é esbatida face ao fenómeno do terrorismo; o crescente envolvimento de entidades externas aos SI na definição da sua agenda; a necessidade de um forte cooperação internacional, a qual não é posta em prática porque os países não querem partilhar o seu know how operacional e, por isso, o surgimento de propostas de criação de estruturas centralizadas de coordenação transnacional, mas que estão condenadas ao fracasso. Por outro lado, são crescentes os sinais da intervenção de centros de poder económico-financeiro na definição das agendas da ação diplomática dos estados, com consequentes implicações nas missões dos serviços de Intelligence.

MHD: Podem mesmo os operacionais serem substituídos pela tecnologia (falando da importância fundamental dos agentes infiltrados ou recrutados), para combater por exemplo o terrorismo?

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Esta é uma questão que está em cima da mesa no seio dos SI. Hoje em dia é possível trabalhar operacionalmente com base nas muito famosas ‘fontes abertas’ apoiadas pelo trabalho de agentes no terreno e por meios tecnológicos altamente sofisticados. Os SI das grandes potências têm vindo a apostar fortemente na utilização de meios tecnológicos, em detrimento dos agentes. Contudo, as ameaças com que nos deparamos, em especial o terrorismo, requerem um acompanhamento que só poderá ser eficaz através do aprofundamento do trabalho dos operacionais.

MHD: Na sua actividade conheceu operacionais com um perfil com o de James Bond? Ainda existem no mundo da espionagem? Quais são as principais missões (cover actions, sublevação) destes agentes secretos?

A figura  de James Bond, apesar de em parte ser inspirada na própria vida do seu criador Ian Fleming, que trabalhou nos serviços secretos britânicos, não corresponde ao perfil do espião tradicional. A personagem contém, contudo, traços e facetas que fazem de certa forma a síntese da actividade de um quadro de informações, misturando qualidades de analista agudo com competências operacionais e de profiler – tais competências podem ser encontradas no mundo real da espionagem. Estes agentes trabalham muito em operações clandestinas, mas muito raramente pertencem às estruturas dos serviços.

MHD: Em Portugal temos agentes com este perfil ou vamos encontrá-los mais nos serviços secretos das grandes potências?

Aquele que poderá ter um perfil próximo de um James Bond só existe nos serviços das grandes potências como os EUA, RU, China, Rússia, França, Alemanha.

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MHD: O perfil (sedutor e machista) do James Bond também está ligado por um lado à cultura britânica (ao Serviço de Sua Majestade ou à fleuma britânica), mas também a uma história menos feliz dos serviços secretos britânicos (Kim Philby e o grupo de Cambridge, que se passou para o outro lado). Quer falar um pouco dessa história? 

Como já referi a personagem de JB tem muito de auto-biográfico (Ian Flemming trabalhou nos serviços de intelligence da Royal Navy e teve inúmeros casos amorosos). O ‘ao serviço de Sua Majestade’ traduz uma cultura britânica que combina a aventura dos corsários com a altivez de uma aristocracia patriota. Diga-se a propósito que o início da saga James Bond apanha em cheio com o maior escândalo de espionagem na história dos serviços secretos britânicos relacionado com o famoso ‘Cambridge Five’, que surge nos anos sessenta do século XX, em plena Guerra-Fria. Trata-se de uma operação de recrutamento de estudantes da Universidade de Cambridge, ainda nos anos quarenta, levada a cabo pelos serviços secretos da URSS. Aqueles estudantes liderados pelo famoso Kim Philby vieram a atingir posições muito elevadas nas estruturas do MI6. Ian Fleming, que tinha no seu script como inimigos grupos e personagens ligados ao meio nazi, passa depois do caso ‘Cambridge Five’ a tratar a ameaça soviética, tendo em James Bond a antítese de Philby.

MHD: Existem ainda no mundo da espionagem ‘bond girls’, que usam a sua beleza, sedução e inteligência para sacar informações ou que trabalham como operacionais?

As BG existem, não são necessariamente tão belas e sedutoras, e fazem parte do manancial de meios que os SI dispõem para recrutar as suas fontes. No caso da saga JB, atente-se no facto de na sua maioria passarem para o lado dos ‘bons’, tornando implícito que os argumentos do Ocidente e do Bem vencem sempre o Mal.

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MHD: Um país pequeno como o nosso tem necessidade de ter uns serviços secretos. Quais são as principais missões dos serviços secretos portugueses?

Todos os países possuem SI, independentemente do seu peso militar e diplomático no Mundo. As ameaças  à segurança são cada vez mais perigosas e complexas, logo a existência de SI é fundamental. Julgo que os SI portugueses têm como missão contribuir para a segurança interna e externa do país (terrorismo, espionagem, crime organizado, etc).

MHD: Li algures que os espiões no terreno estão a ser substituídos pelos ‘analistas operacionais’. O que é este conceito?

Pelo que também li, trata-se de uma ideia académica para tentar juntar o melhor de dois mundos: o pessoal que trabalha na análise com os que estão no terreno. Essa ideia de certa forma está presente no perfil de JB.

Daniel Craig - New James Bond movie Casino Royale

MHD: Disseram-me igualmente que muitos dos candidatos a espiões são influenciados pelos filmes do James Bond, e depois sentem alguma frustração porque não há esse risco, essa adrenalina e glamour. É mais um trabalho de gabinete e de diplomacia?

A saga do JB por todos os elementos que a compõem (lúdicos, políticos, militares e até geo-estratégicos, a que se juntam os de carácter psicológico, a ideia da aventura, do segredo, do perigo e do jogo amoroso-sexual) tornam extraordinariamente aliciante, nos termos em que a função é tratada, a actividade de espião, num misto de ficção-realidade, passando muitas vezes a realidade a ser substituída pela ficção. É por isso normal, mas não desejável que os candidatos a ‘espiões’ se sintam atraídos por um mundo que só tem correspondência no facto de JB ser quadro de um serviço de Intelligence.

MHD: E você do ponto de vista pessoal é um admirador dos filmes de James Bond?

James Bond For Ever!

JVM

José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colaborou no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’  (2014) e 'Mar Urbano Lisboa (2019). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’ (2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’ (2012), Mostras de Cinema da América Latina (2010 e 2011), 'Vamos fazer Rir a Europa', (2014), Mostra de Cinema Dominicano, (2014) e Cine Atlântico, Terceira, Açores desde 2016, até actualidade. Foi Director de Programação do Cine’Eco—Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela de 2012 a 2019. É membro da FIPRESCI.

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