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Especial | O Cinema às Voltas Com o Futuro (1)

Com o confinamento, também o cinema parece ter perdido um certo encanto e a magia de outros tempos. Por isso, até que ponto os filmes, as salas, os festivais e os profissionais, (distribuidores, produtores, jornalistas, programadores) estão com um rumo incerto em relação ao futuro, por causa da crise do coronavírus. Como será o cinema nos próximos tempos e o regresso às salas a partir de 1 de Junho?

Os verdadeiros cinéfilos, incluindo os profissionais da actividade, críticos e jornalistas especializados andam um pouco desanimados com o futuro do cinema,  da 7ª Arte — falo por mim obviamente e por alguns dos que me rodeiam —, com o cancelamento e adiamento,  das estreias, dos festivais e das rodagens, com as limitações para a abertura das salas e também com o futuro das nossas profissões. Antes, já ao nível da grande produção de cinema predominavam as adaptações de banda-desenhada, remakes ou sequelas de outros filmes já estreados. Dir-se-ia que as grandes produtoras arriscavam pouco e o paraíso dos cinéfilos e das novidades eram os festivais e as mostras de cinema. O cinema de Hollywood na generalidade, nos últimas décadas infantilizou-se e perdeu o seu encanto e magia, não apenas por causa do coronavírus ou por causa da migração dos espectadores para o pequeno ecrã dos dispositivos digitais, que garantiram o sucesso das muitas séries de televisão e das plataformas de streaming. E agora? Neste momento, o cinema em geral, tanto a grande indústria como os independentes, parecem seguir um rumo de certo modo incerto, marcado por um forte abalo na experiência coletiva de ver um filme em sala, por causa do seu encerramento, após a eclosão do coronavírus. Que vai acontecer às salas com as limitações de acesso que aí vêem? Será que o coronavírus vai marcar o fim de uma era no cinema? A pandemia vai acelerar essa transição para as plataformas de streaming? A MHD, também anda um pouco preocupada com a situação e portanto neste dossier vamos reflectir sobre esse assunto.

Trolls Cinema
© 2019 DreamWorks Animation LLC. All Rights Reserved.

MUDANÇAS INEVITÁVEIS

A pandemia do Covid-19 impôs uma série de mudanças na grande indústria do cinema em todo o mundo: encerramento das salas de exibição, cancelamento ou adiamento de festivais e mercados como o do Festival de Cannes — e tudo leva a crer que também o mesmo acontecerá com os Festivais de Veneza e Toronto — adiamento de filmagens e estreias, e inclusive alterações nas regras dos Óscares de Hollywood. A curto prazo, tudo isto acabará por refletir-se na reorganização dos players do setor (produção, distribuição e exibição) e sobretudo numa redefinição das formas de consumir o audiovisual, com o fortalecimento das plataformas de streaming. À medida que foram sendo anunciadas as medidas de distanciamento social e de confinamento, empresas audiovisuais de todo mundo viram, da noite para o dia, abrir-se sob seus pés um poço-sem-fundo e uma incerteza quanto ao futuro, pelo menos nos próximos tempos. Tal como a propagação da pandemia, a criação de uma vacina ou a possibilidade de novas vagas do surto, ninguém é capaz de prever ou dimensionar a vastidão do impacto que este drama sanitário terá sobre os mais diversos negócios, sobretudo os do cinema. Em finais de abril passado, a Universal, vangloriou-se dos resultados do lançamento de Trolls: Tour Mundial directamente no streaming, dizendo ao Wall Street Journal que o VoD (vídeo on demand) premium será o ‘novo normal’, a partir de agora. Por essa altura também, a prestigiada e profissional revista The Hollywood Reporter noticiava que a 93ª edição dos Óscares, em 2021, irá ter que aceitar entre os candidatos a nomeados, filmes que, durante a crise da Covid- 19, estrearam no streaming. Até agora, as produções da Netflix tinham de estrear pelo menos numa sala de cinema, para poderem ser elegíveis aos Óscares de Hollywood. Só que agora as salas estão fechadas e vão reabrir com muitas limitações de lugares disponíveis, impondo pelo menos as medidas de distanciamento social. A crise do sector tem sido visível ao longo dos últimos meses, e o futuro do circuito exibidor nos EUA, um grande mercado, está praticamente à beira da ruptura. Há poucas semanas, a rede de cinemas CMX, com sede em Miami, pediu falência. Antes disso, já a Cineworld, a segunda maior rede de salas de cinema do mundo, anunciou o receio de ter de fechar as portas; e a AMC, dona do maior circuito de salas nos os EUA (630 ecrãs em todo o país), foi desclassificada pela agência de risco S&P Global, passando a ser considerada como um investimento insustentável a médio prazo. Reagindo ao lançamento de ‘Trolls: Tour Mundial’ no streaming e à postura da ‘major’ Universal nos próximos tempos, a cadeia AMC anunciou também que boicotará a exibição de todos os filmes produzidos por esse estúdio. Efectivamente o setor da exibição, que é dominado pelos grandes cadeias de multiplex — Portugal não foge à regra —, é um negócio de capital circulante e que não possui na generalidade quaisquer ativos, além dos equipamentos de projeção e as cadeiras, uma vez que a maioria dos imóveis, onde estão as salas e cinema, são quase sempre alugados e localizados em centros comerciais. Quer isto dizer que sem receitas de caixa, tornam-se praticamente impossíveis para os operadores das salas, manterem o negócio por muito tempo, pois têm de pagar os alugueres, o condomínio dos centros comerciais e salários do pessoal. Pode-se dizer que o negócio de exibição de cinema, se assemelha muito aos das companhias de aviação. Mas isso são outros voos!

Tenet
Tenet, de Christopher Nolan, por todas as razões uma das estreias mais aguardadas.  | © NOS Audiovisuais

O CONSUMO EM STREAMING

Um estudo da Nielsen, datado de março passado, mostrava que o consumo de streaming dos norte-americanos tinha aumentado 85% em relação ao mesmo mês no ano passado. Este estudo diz respeito apenas à visualização em aparelhos de televisão onde é mais fácil, em termos dos métodos actuais, medir as audiências; deixando assim de fora o consumo nos dispositivos digitais (telemóvel, computadores ou tablets). De acordo igualmente com este estudo da Nielsen, neste mesmo período de um ano, a Netflix assumiu-se como a líder de mercado, concentrado cerca de 29% do tempo gasto pelos espectadores, nos variados serviços de streaming: YouTube (20%), Hulu (10%) e Amazon Prime Video (9%). Contudo, sem dados exactos parece que nos países asiáticos, o aumento do consumo dos serviços de streaming foi de mais de 100%. É neste contexto de extremos e de profunda mudança de hábitos de consumo que, os estúdios, produtores independentes e distribuidores — estes últimos as empresas que muitas vezes passam despercebidas ao grande público, mas que são as detentoras de direitos dos filmes em termos dos territórios nacionais, que fazem a ligação entre a produção e os exibidores — tentam salvar-se no presente, sem contudo não deixarem de se sentir bastante ameaçadas quanto ao futuro, a curto e médio prazo. Os exibidores por exemplo precisam dos filmes e neste momento parecem que também não têm muitos filmes para estrear, que justifiquem estar abertos com tantas salas. E os filmes aparentemente vão continuar também a precisar das salas para que todo o negócio continue a girar em pleno. Em condições normais, são necessárias cerca de três semanas em cartaz, para que um blockbuster consiga recuperar o investimento no seu lançamento e promoção. Às vezes nos EUA há alguns que o consegue mesmo logo isso no primeiro fim-de-semana de estreia, mas são raras excepções. Contudo, quase sempre o sucesso de um filme nas salas de cinema, foi determinante para que o volume de receitas nas janelas seguintes, seja rentável e optimizado: DVD, (que já se tornou obsoleto, excepto para colecionadores), mas agora primordialmente no VoD, ou nos canais de TV, etc. Portanto em que medida esta crise pandémica pôs igualmente, tudo isto em causa?

Retrato da Rapariga em Chamas
Retrato da Rapariga em Chamas, um dos últimos a ser exibido vai regressar às salas. © Midas

CINEMA EM CASA VS. SALA DE CINEMA

Desde o aparecimento do entretenimento doméstico, como as velhas cassetes VHS e os videoclubes, os DVD ou as sessões de cinema nos canais de televisão, utilizando bons equipamentos de reprodução e som, que levaram os filmes directamente para dentro das nossas casas, que se discute essa questão da sobrevivência das salas de cinema. Ou seja a sobrevivência dessa tal a experiência única e quase romântica de assistirmos a um filme numa sala escura  — no escurinho do cinema como diz a sua música Rita Lee — com mais espectadores, partilhando emoções com outras pessoas que na sua maioria não fazem parte do nosso circulo de relações. Na verdade, essa tal ‘experiência é única’, porque em grande medida é coletiva? Será que assistir ao futebol — e até a outro desporto ou música em geral — não será só por isso também uma experiência única, porque é colectiva? Justamente é aí que reside o grande desafio das salas — e do futebol também porque já está largamente nas televisões e no VoD — para a voltarem à normalidade e a funcionarem como antes. Afinal se calhar já não são assim tão cruciais as pipocas e os refrigerantes, para ajudarem a encher as salas ou o combinado de tudo isso com os filmes, para atingir boas receitas no negócio do entretenimento. A abertura das salas de cinema, com as eventuais medidas de prevenção sanitária, está prevista na maioria dos países europeus, incluindo Portugal, para o início do mês de junho, com a pandemia controlada, apesar de continuar por aí. É curiosa a experiência da China, e a sua abertura das salas de cinema em meados de março, que acabou por se revelar precipitada. Dez dias após as primeiras sessões de cinema abertas mas com limitações, o governo chinês determinou que as salas fossem novamente fechadas. No pouco tempo que permaneceram abertas, as salas de cinema tiveram uma baixíssima taxa de ocupação. As salas de cinema na China já voltaram a abrir, mas os espectadores tardam em regressar até porque os receios mantêm-se e mesmo lá estão em falta as habituais estreias dos blockbuster do verão, obviamente sujeitos à censura do governo chinês.

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Velocidade Furiosa 9 | © Nos Audiovisuais

A REABERTURA DAS SALAS DE CINEMA

Em França, um mercado de referência na indústria europeia de cinema, Richard Patry, presidente da associação de exibidores franceses, disse à revista Le Film Français, que, para além do medo de contaminação pelo coronavírus, há que ter em conta o impacto que o confinamento, e o tempo passado no sofá, teve sobre os espectadores: ‘Vêm a Netflix, Disney+ ou Amazon Prime Video e vão, assim, se desacostumando de ir às salas de cinema. O cinema é uma máquina que não pode parar. Se pára, é difícil colocá-la novamente em movimento’. Há, por outro lado outros players mais optimistas, que apostam no desejo que a impossibilidade de ir ao cinema poderá despertar. Será que depois  de passarem isto tudo pela quarentena e confinamento, os espectadores darão mais valor a uma ida ao cinema? Tendo em conta o que se passou em Portugal no último fim-de-semana e nos últimos dias, com  o calor e o sol,  a favorecer quase todos os países europeus, o verão parece mais virado para proporcionar as actividades o ar livre e a praia, sujeitas obviamente às regras de distanciamento social. Falou-se inicialmente numa reabertura das salas de cinema vendendo 50% dos lugares disponíveis, mas agora prestes a abrir a 4 de Junho e na altura que vos escrevo, os rumores das autoridades de saúde e dos governos europeus falam numa reabertura apenas com 25%, da ocupação. Algo que levou já os exibidores — inclusive os portugueses  — a rejeitarem para já esta situação e a preferirem atrasar a abertura das salas por mais um mês, isto é até julho, até porque não há grandes filmes para estrear e a situação sanitária tenderá a evoluir positivamente. A FEVIP (Associação Portuguesa de Defesa de Obras Audiovisuais), a entidade nacional que agrega distribuidores e exibidores, disse ontem através de um comunicado e do seu porta-voz, que abrir as cadeias de cinemas sem filmes será a mesma coisa que abrir os hipermercados com as prateleiras vazias. Já que ‘as empresas distribuidoras confrontam-se com falta de filmes para distribuir (e consequentemente os exibidores para exibir), uma vez que a disponibilidade dos mesmos está atrasada e dependente da abertura dos mercados internacionais, como é o caso dos EUA, disponibilidade que só é esperada para o mês de julho se as condições sanitárias o permitirem. Não há neste momento, nem se prevê que venha a haver, qualquer estreia de filmes nas primeiras 3 semanas de junho e os filmes da 4ª semana não estão confirmados’. Além disso com limitações de ocupação como será possível tirar rentabilidade das salas?  O facto é que mesmo assim as salas mais pequenas como o Cinema Nimas (de Paulo Branco, que anunciou uma conferência de imprensa para dia 1 de junho) e o Cinema Ideal (de Pedro Borges), já anunciaram as suas aberturas para os inícios de Junho, com uma programação inventiva e desafiadora para os espectadores, alguma mesmo com ‘filmes de autores’, que tinham ficado ‘pendurados’, devido ao encerramento obrigatório e urgente aquando a eclosão da pandemia, como: Retrato de uma Rapariga em Chamas’, de Céline Sciamma ou ‘Mathias & Maxime’ de Xavier Dolan. Está previsto também no nosso mapa de estreias português para esta primeira etapa de reabertura das salas mais pequenas, as eventuais estreias de ‘Guest of Honour’, de Atom Egoyan ou desejado O Homem Que Matou Don Quixote, de Terry Gilliam, que está há uns anos envolvido em questões judiciais. Seja qual for a situação, as salas de cinema portuguesas e internacionais, já antes do Covid-19, todas sobretudo as maiores cadeias de salas, estavam a ser ameaçadas pela velocidade das mudanças. Torna-se necessário oferecer algo mais aos espectadores. Resta saber quais são as ideias dos proprietários das salas, para arrancar os espectadores de casa e da comodidade dos dispositivos digitais.

no time to die james bond
James Bond em “No Time To Die” | © NOS Audiovisuais

O CALENDÁRIO (POSSÍVEL) DE ESTREIAS

Nestes últimos tempos de excepção, com o prolongamento da quarentena e na inevitabilidade da continuação das medidas sanitárias, num possível mas indeterminado regresso à normalidade, os estúdios de Hollywood, remarcaram o seu calendário de lançamento dos seus filmes mais fortes, para o segundo semestre ou para 2021. Contudo passaram a olhar para o VoD com outros olhos, e como uma forte possibilidade de expandirem o seu negócio: já que não podem ir contra a tendência do mercado o melhor mesmo é irem a favor do vento. Nas primeiras semanas de expansão da pandemia, vimos logo muitas estreias serem adiadas, como No Time to Die, o novo filme da saga James Bond, que pela vez na história do personagem vê a sua estreia adiada em cima da hora e tem prevista uma chegada aos ecrãs só lá para novembro. Dez dias depois do encerramento das salas nos EUA, já haviam igualmente novas datas de estreia para filmes em agenda de lançamentos. A ver vamos se o mês de julho, poderá ser o momento de uma certa retoma no calendário de estreias internacionais: à cabeça está ‘Tenet’, de Christopher Nolan, (Warner representada em Portugal pela NOS) com John David Washington, Robert Pattinson ou Michael Caine, conta a história de um agente que enfrenta a possibilidade de uma III Guerra Mundial. Bem a propósito ou não ? O filme tem estreia mundial prevista para meio de julho (dia 16 é a data prevista para Portugal, vamos ver entretanto como vão ser as medidas do governo e a posição dos grandes exibidores como a NOS, precisamente). Para a semana seguinte está prevista também a estreia de ‘Mulan’, na sua nova versão em imagem real, depois da animação da Disney de 1998 e que, inicialmente, estava marcada para março. Nos EUA, a rede de salas AMC, em guerra com a Universal, pretende preparar as estreias destes dois filmes propondo, nas semanas anteriores, para estudar a adesão e limitar os riscos, uma programação de filmes antigos. ‘Artemis Fowl’ (Disney), ‘Scooby!’ ou ‘Trolls: Tour Mundial tiveram ordem para estrear em VoD (entre maio e junho), há no entanto agora outros filmes que têm novas datas de estreia: ‘Viúva Negra’ (Marvel), com Scarlett Johansson, passou de junho também para novembro. ‘The French Dispatch’, o novo de Wes Anderson, que estava previsto para o Festival de Cannes, — que não se vai realizar — talvez estreie em outubro. Para próximo do Natal passou ‘Top Gun: Maverick’, com a veterana ‘pilotagem’ de Tom Cruise. Houve, também estreias, diretamente adiadas 2021: ‘Mínimos 2: A Ascensão de Gru’, ‘The Many Saints of Newark’ (ao que consta com uma inspiração na série ‘Os Sopranos’), ‘Caça-Fantasmas: O Legado’, ‘The Eternals’ (Marvel), ‘Mulher-Maravilha 1984’ (Warner) ou ‘Velocidade Furiosa 9’. Pode ser se tudo correr bem que hajam algumas estreias com forte apelo cinéfilo (e musical) a estrear na rentrée (setembro/outubro): o documentário ‘The Beatles: Get Back’ de Peter Jackson — em tempos de comemorações ‘beatleanianas’ — ou ‘The Trial of The Chicago 7’, de Aaron Sorkin, ‘Bios’, de Miguel Sapochnik, ‘Soul – Uma Aventura com Alma’, da Pixar e as novas adaptações de ‘West Side Story’, de Steven Spielberg ou ‘Dune’, de Denis Villeneuve.

Wes Anderson The French Dispatch
“The French Dispatch” de Wes Anderson |©Searchlight Pictures

MUDANÇAS NA VoD E STREAMING

A temporada de verão, que vai de maio a agosto nos EUA, concentra, de acordo com a revista Variety, cerca de 40% da faturação anual do setor. No entanto, não demorou muito para que a quase sempre exacta previsão do futuro do lançamento dos filmes — marca importante da indústria do cinema de Hollywod, que prevê estreias até com cinco anos de antecedência — tivessem também em parte falhado, por causa desta situação de excepção. A Universal anunciou que colocaria ‘Trolls: Tour Mundial’, da DreamWorks, no streaming no dia 10 de abril passado, data em que estava prevista a estreia nas salas de cinema. Contudo o aluguer do filme no mercado norte-americano foi estipulado a um valor bastante elevado para os padrões normais e internacionais, de US$ 19,99 (cerca de 17€). ‘Trolls: Tour Mundial’ continua para já na lista de estreias nas salas em Portugal. A Disney marcou também a estreia de Artemis Fowl, o Mundo Secreto’ para 12 de junho, ‘apenas no streaming’, conforme anuncia o trailer de lançamento. E este deve ser o primeiro de muitos filmes a estrearem no Disney +, lançado há seis meses nos EUA, que chegou à Europa durante a pandemia, e mesmo assim atingiu rapidamente 50 milhões de assinantes. Em principio será lançado em Setembro em Portugal. O VoD premium, defendido pela Universal, faz parte do modelo de VoD (TVoD) transnacional, baseado numa assinatura mensal e em aluguer e venda (caso da Apple TV, Amazon Prime Video, Mubi e até da Filmin) numa lógica que se aproxima curiosamente muito das velhas VHS e dos videoclubes. O modelo de negócio é diferente do esquema de assinatura mensal, como a Netflix, que se podem ver os filmes ou as séries que se quiser, que estão na plataforma. De facto a TVoD, grosso modo, representa os velhos videoclubes, e ‘Trolls: Tour Mundial’, apesar do relativo sucesso de exploração, mostrou que há um potencial de espectadores disposto a pagar o valor de um bilhete de cinema, ou mais, para ver uma estreia em casa. O lançamento direto no streaming revela-se, assim, mais uma forma de prever as possibilidades de negócio para o futuro e de gerar mais receitas de forma a compensar as perdas geradas pelo encerramento das salas, e dos dos parques temáticos, outro dos negócios fortes, espalhados pelo mundo, tanto da Disney como da Universal.

PRODUÇÃO INTERROMPIDA

Recorde-se ainda que a produção de filmes tem estado também interrompida. Os trabalhos de sets e as rodagens, são um trabalho de equipa e como em quase tudo, ainda não oferecem ainda as condições necessárias das autoridades de saúde para poderem funcionar em pleno. Os filmes que estavam em pós-produção continuaram em principio a avançar, embora com os seus cronogramas substancialmente alterados. Os trabalhos remotos de finalização, de efeitos especiais ou som, tem outro ritmo e é possível realizarem-se em espaços confinados. Os projetos que estavam em pré-produção ou com filmagens previstas, por sua vez, tornaram-se uma grande incógnita, como aliás a realização de grandes festivais e mercados de filmes. Mesmo assim os novos protocolos sanitárias vão certamente obrigar a redução das equipas de filmagens e tornar inviáveis filmagens com muita gente fechada num estúdio ou a assistirem a um filme num grande auditório. Quanto às filmagens, as agendas das equipas e elencos terão de ser refeitas e alteradas; as promessas de financiamento podem se tornar inviáveis ou bastante reduzidas, sobretudo as públicas, com os governos mais concentradas agora nas questões de saúde pública, mas ao mesmo tempo com elevados índices de desemprego no campo artístico em geral, sobretudo constituído por trabalhadores intermitentes. No que diz respeito à criação artística, também é difícil dizer se algumas ideias de filmes ou argumentos sobreviverão à Covid-19 e se quanto as frenéticas sequências explosivas dos blockbusters, caberão nesta nova realidade, que é ainda um pouco angustiante e para muitos um pouco apocalíptica, algo que o cinema explorou tantas vezes. Vamos ter filmes prontos para o próximo ano? Como se irão realizar novamente os festivais? Tal como a crise de 1929 ou a Segunda Guerra  Mundial — recorde-se que as salas de cinema em Portugal nunca fecharam, nem mesmo em tempos de guerra — a Covid-19 vai certamente marcar uma nova era do cinema. Vai haver certamente uma reorganização entre os diversos players do negócio e uma redefinição nas formas de consumir, ver e sentir o cinema ou o audiovisual. Transformações essas que já estavam em curso, diga-se e passaram a ser involuntariamente postas em prática, aliás como outras como por exemplo o teletrabalho, que muitas empresas e trabalhadores pareciam resistir. Neste cenário, é mais que provável que o circuito de exibição das salas de cinema seja reduzido e se torne, cada vez mais, num lugar especial para a exibição de blockbusters em grandes formatos como o IMAX ou 3D. Só efectivamente as grandes salas de cinema e até é possível que algumas regressem a uma passado e voltem a crescer como as velhas salas do passado, serão capazes de gerar receitas de bilheteira suficientes que justifiquem um lançamento massivo e expressivo. Esse será pois um cenário que já se vinha desenhando pouco a pouco, igualmente com pouco espaço para os filmes independentes e menores que estavam espremidos em poucos horários e salas mais pequenas — é provável o regresso a um modelo Quarteto ou de duas salas interagindo uma com a outra em termos de programação — num, processo que vai certamente ser acelerado por esta situação excepcional de pós-Covid-19 ou de prolongamento das medidas de distanciamento social. Isso, parece ainda mais claro se de facto ainda for possível e rentável, encontrar alguém ou grandes estúdios que se permitam a correr o risco de investirem cerca de US$ 100 milhões, para realizarem uma superprodução de cinema e com perspectiva de obterem grandes lucros. Até que ponto as séries de televisão não serão mais rentáveis e as salas grandes sejam, também num regresso ao passado, substituídas pelos cinemas ao ar livre e os famosos drive-in, tão em voga que até já a Comic Con e o Festival de Avanca aderiram ao formato? Qual será o futuro do cinema? Ninguém sabe. Mas a imagens e a sociedade do espectáculo, mais do que nunca estarão cada vez mais presentes no nosso quotidiano e certamente o cinema não morrerá!

José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colaborou no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’  (2014) e 'Mar Urbano Lisboa (2019). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’ (2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’ (2012), Mostras de Cinema da América Latina (2010 e 2011), 'Vamos fazer Rir a Europa', (2014), Mostra de Cinema Dominicano, (2014) e Cine Atlântico, Terceira, Açores desde 2016, até actualidade. Foi Director de Programação do Cine’Eco—Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela de 2012 a 2019. É membro da FIPRESCI.

2 thoughts on “Especial | O Cinema às Voltas Com o Futuro (1)

  • Grande ensaio, li de fio a pavio mas atenção ao erro ortográfico recorrente: ‘haviam’. O verbo haver não tem plural. Havia uma pessoa que // Havia várias pessoas que.

  • Olá Ana, obrigada pela correção 🙂

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