Veneza 75 | ©La Biennale di Venezia

Festival de Vennes ou Canneza?

As últimas notícias dizem que o Festival de Veneza 2020 vai mesmo acontecer de 2 a 12 de setembro e sem a ‘colaboração’, do 73º Festival de Cannes, que ainda oficialmente não se afirmou claramente como ‘cancelado’. Será que é possível um Festival de Vennes ou Canneza?

O aparentemente novo e fogoso presidente da Bienal de Veneza, o produtor de cinema Roberto Cicutto, — que entretanto substitui o quase eternizado Paolo Barata — anunciou no inicio desta semana que a edição 2020 da famosa 77ª Mostra (ou Festival) de Veneza, o evento cinematográfico de larga escala mais antigo do mundo, irá mesmo avançar. Pese embora ainda as ameaças da pandemia do Covid-19, a Mostra vai em principio realizar-se de 2 a 12 de Setembro como estava marcado, no calendário da temporada de festivais. Roberto Cicutto, ‘envenenou’, imediatamente qualquer tipo de colaboração com o Festival de Cannes: ‘Com Cannes tudo é possível, mas acho desconcertante que Thierry Frémaux continue a dizer que está a analisar a situação e não diga o que quer fazer’, comentou Cicutto à agência noticiosa italiana ANSA, em declarações publicadas em vários jornais e revistas da especialidade .

Festivais de Cinema
O Festival de Veneza mantém reservas para setembro. | ©José Vieira Mendes

Por outro lado e insistentemente Thierry Frémaux, director artístico do Festival de Cannes, afastada que está a possibilidade de fazer uma edição na internet e de as duas datas de adiamento, terem sido inviabilizadas pelas decisões sanitárias do governo francês, em nenhuma ocasião, até agora, afirmou um cenário de cancelamento. Nem mesmo nas comunicações enviadas para os participantes do Mercado do Filme, que vão ter uma possível edição on-line, para no mínimo fazerem os seus negócios, num cenário também de grande crise mundial para a indústria cinematográfica. Contudo, uma coisa é o que diz o ‘papa’ outra coisa é o que dizem os ‘santos’. Ontem Alberto Barbera, director artístico da Mostra de Veneza, em declarações também à ANSA citadas pela revista Variety sobre a decisão do seu presidente Roberto Cicutto, revelou que a edição 2020 será, ‘experimental’, com menos jornalistas, com menos estrelas americanas na passadeira vermelha, — que é normalmente mais descontraída que a da Croisette — com máscaras e, não afastando de todo a possibilidade de uma acção diplomática e ‘solidária’ com o Festival de Cannes. A primeira questão começa se será possível manter Cate Blanchett, como presidente do júri? O número de inscrição de jornalistas acreditados vai ser limitado? Como vai ser feita essa selecção de jornalistas acreditados? Há garantia de todos ou a maioria dos acreditados conseguirem entrar nas sessões, já que atendendo mesmo ao número normal de jornalistas isso nem sempre é possível? No entanto Barbera reafirmou que a 77ª Mostra de Veneza, vai ter certamente com menos espectadores, ‘provavelmente menos jornalistas acreditados’,— terão de ser respeitadas as medidas de distanciamento social, — o que não vai ser fácil, tendo em conta às dificuldades características da má organização italiana ou ao limite de número de lugares nas salas — e será acrescentada uma componente digital à existência física dos filmes e espectadores na sala. ‘É claro que muitos dos filmes internacionais não serão acompanhados pelas suas equipas, que não quererão, ou não poderão, vir’, disse Barbera, sublinhando ainda que se vão organizar conferências de imprensa e realizar sessões online para lançar os filmes. Mas entende que haja muita gente e muitos jornalistas que não queiram ir ao festival, embora aqueles que forem terão mais ‘vantagens’, como por exemplo, presença na red carpet, entrevistas individuais e não as habituais entrevistas em grupo (press junket), além da ‘insubstituível’ atmosfera do Lido de Veneza.

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Festival de Cannes | ©José Vieira Mendes
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No entanto, tudo isto é relativo e facilmente , porque a imprensa normalmente não tem grande interesse (nem tempo) para ir à passadeira vermelha, quais as estrelas que se vão predispor a arriscar a ir a Veneza inclusive a presidente do júri Cate Blanchett? Tornou-se agora corrente com a quarentena, os jornalistas começarem a fazer as entrevista por Zoom ou Skype, até porque têm poupado bastante dinheiro em deslocações às distribuidoras internacionais. Concordo apenas é que a atmosfera do Lido de Veneza, no início de setembro é efectivamente deliciosa, tornando a Mostra um dos festivais mais aprazíveis da temporada. Mas os tempos não são para grandes romantismos. Barbera admitiu ainda que a edição 2020 poderá ter uma maior preponderância de filmes italianos na programação, do que tem sido habitual, já que será mais fácil garantir a presença dos actores e realizadores nacionais. Mas também não está ‘pessimista’ em relação à possível presença do cinema e de estrelas do cinema europeu. Na generalidade depois dos momentos dramáticos, dos números da pandemia do coronavírus em Itália e em outros países europeus, a curva das novas infecções parece na generalidade estar a estabilizar, entrar num percurso descendente e até setembro estarmos a viver dentro dos limites, com alguma normalidade. Face à contundência das declarações do director da Biennale, Roberto Cicutto, em que afastava qualquer projecto de colaboração com o ‘cancelado’ Festival de Cannes, — colaboração essa que a equipa da Croisette parecia desejar — Barbera, pôs água na fervura, não pondo ele de parte ‘uma real colaboração’ com o Festival de Cannes. Segundo ele, seria ‘uma forma de solidariedade para com a comunidade cinematográfica global, que está a atravessar um período duro’, e que anularia completamente a ideia várias vezes passada de que existe uma certa ‘concorrência’ entre os dois festivais. A Variety diz que não existe nada de concreto em relação a esta colaboração dos dois festivais, mas existem de amigáveis conversas entre os dois directores artísticos, aliás já realçadas em declarações do francês Thierry Frémaux.

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Cate Blanchett, a ainda possível presidente do júri de Veneza 77, em “Blue Jasmine” | © Focus Features International

Apesar do elevado número vítimas, cerca de 23 mil mortos, por Covid-19, e com uma Itália destruída economicamente, o produtor de cinema Roberto Cicutto, vai em frente e não parece hesitar na realização do seu festival, cuja a programação, pode vir a beneficiar de um conjunto de filmes que de outro modo estreariam na Selecção Oficial da Croissete. O novo presidente da Bienal de Veneza, igualmente na declarações à agencia ANSA, mostrou-se inclusive confiante de que o governo italiano — ao contrário do governo francês — concederá à Mostra de Veneza uma licença especial para ‘abrir seis ou sete salas’ para exibição dos filmes durante o festival, que pelos vistos e como óbvias imposições sanitárias vai mesmo realizar-se de 2 a 12 de setembro, no Lido de Veneza.

José Vieira Mendes

José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colaborou no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’  (2014) e 'Mar Urbano Lisboa (2019). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’ (2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’ (2012), Mostras de Cinema da América Latina (2010 e 2011), 'Vamos fazer Rir a Europa', (2014), Mostra de Cinema Dominicano, (2014) e Cine Atlântico, Terceira, Açores desde 2016, até actualidade. Foi Director de Programação do Cine’Eco—Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela de 2012 a 2019. É membro da FIPRESCI.

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