Especial Westworld | Season Premiere, em análise

Westworld é um convite audaz e atrevido ao velho Oeste que jamais conseguirão declinar.

Westworld já não é um “novelle nom”, já nos havíamos cruzado com tal referência “faroestiana” em 1973, se os vossos registos cinematográficos ainda se recordarem do homónimo filme de Michael Crichton. Quarenta e três anos depois, eis que O Mundo do Oeste volta a ver a luz do dia pelas mãos da cadeia televisiva norte-americana HBO – que com o advento do final de “A Guerra dos Tronos” – pretende lançar os alicerces do seu natural sucessor. E se naquela altura, em que muitos de nós ainda não passávamos de futuros projetos, já havia quem sonhasse com realidades distópicas muito além do seu tempo, aonde humanos pudessem interagir com robôs num parque temático indistinguível da vida real. Claro que, uma ideia tão “avant-garde” só poderia estar associada ao excêntrico realizador J.J. Abrams – que aqui é diretor executivo – na companhia de Lisa Joy Nolan e Jonathan Nolan (irmão de Christopher Nolan) – os criadores desta nova série sci-fi com potencial para se tornar num clássico instantâneo.

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The Original” – que é já um dos pilotos mais caros da estação com um custo de um quarto de cem milhões de dólares (mais cinco que o de “Games of Thrones”), respeita as ideias basilares da antiga obra de Crichton, revelando esta espécie de “Disneylândia” só para adultos abastados (new-comers) ávidos por satisfazer os seus prazeres mais fugazes e obscenos, num cenário que não poderia ser mais libertino e provocador em todos os sentidos. Aqui, pessoas de carne e osso convivem com autómatos humanos (anfitriões), que só justificam o uso de tal terminologia se quisermos ser mais técnicos, porque neste novo faroeste do Dr. Robert Ford (Anthony Hopkins) os humanoides são tão perfeitos e avançados que dispensam qualquer teste de Turing para aferir a sua inteligência artificial.

“Assim que nós nascemos, choramos por nos vermos neste imenso palco de loucos.”

Claro que o guião dos Nolan vai permitindo discernir com as devidas reservas quem é quem, mas tal vislumbre só é vagamente acessível nos bastidores do palco principal, num vasto complexo científico envidraçado, aonde os andróides são escrupulosamente examinados e exaustivamente interrogados na sua forma mais despida e desprovida de emoção, atestando a sua fiabilidade para continuarem no ativo ou serem descomissionados para um armazém solitário. No terreno, os seus chips mentais são programados com base num guião de eventos preestabelecido, a fim de garantir aos visitantes as mais loucas aventuras sem qualquer tipo de punição ou consequência, como se o crime e a imoralidade fossem a derradeira fantasia do homem.

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Dolores (Evan Rachel Wood), filha de um rancheiro, é uma das anfitriãs desta pseudo-localidade de cavalos e pistoleiros, formatada para assimilar a sua realidade como quem pinta um quadro solarengo à beira rio sem desconfiar do mal instalado no mundo, mas cedo atentamos na sua condição especial, na sua predisposição para ousar questionar a sua própria existência. E é nesta tónica que reside a riqueza do enredo, quando colocamos a questão a nós mesmos sobre o que de facto nos torna humanos? Essa resposta é-nos oferecida num formato grotesco e vil, mas talvez a maior suspeita que se possa extrair do primeiro embate com Westworld é que, Jonathan e Joy queiram explorar a possibilidade das máquinas poderem adquirir alguma forma de consciência através da nossa crescente desumanização, assumindo que a robotização inteletual é tão computável quanto a sua perceção do real.

“O Inferno está vazio e todos os demónios estão aqui.”

E se nós humanos temos a necessidade obrigatória de amar, os ciborgues em última instância gozam igualmente do mesmo privilégio, isto é, de simularem um sentimento equiparável ao amor, pelo menos é esse o fado de Dolores para o bem ou para o mal, encontrando em Teddy (James Marsden) o seu cavaleiro andante, que aparece e desaparece à velocidade de uma bala. Isto porque ao fim do dia todas as unidades sofrem um “reboot” e as rotinas de ontem são diferentes das de hoje, oferecendo múltiplos desfechos para a estória da mesma personagem, sendo que o grosso da intriga pareça gravitar em torno da nossa “host”. Mas falar em Dolores seria quase descabido sem invocarmos o misterioso Homem de Negro (Ed Harris) – que regressa a este “plateau” carregado de sentenças para executar. Rodrigo Santoro também faz a sua aparição máscula e pretensiosa na pele de Hector Escaton, um fora da lei com uma esperança de vida curta, ao que parece, mas suficiente para deleitar o olhar felino de Maeve (Thandie Newton).

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E é ao som dos pianos raivosos e violinos excitados do aclamado compositor Ramin Djawadi, que as cadeiras rodopiam até ao teto e os coldres desgastam-se com o sacar compulsivo das pistolas para gáudio das mentes mais enfadonhas ou desilusão do programador da peça, que não obteve o final desejado. Sim, porque este jardim de ódios e paixões não se esgota em si mesmo, existe toda uma “sub-plot” associada aos atores que atuam em pano de fundo e gerem as diversões dos outros com um certo gozo pessoal. Bernard (Jeffrey Wright) é um desses intervenientes, o chefe da programação responsável pela “AI” daqueles seres cada vez menos mecânicos, que o Dr. Ford insiste em humanizar com “devaneios”, correndo o risco de os seus pecados o poderem ultrapassar. Mas o primeiro episódio é pródigo neste tipo de puzzles morais, com uma linguagem vernácula amansada pela cordialidade shakespeariana da época.

“Esses prazeres violentos, têm fins violentos.”

Este Westworld bem que poderia ter caído nos “clichés” fáceis de setenta e três, e embora eles existam porque sim, são precisamente esses momentos tipificados que geram nostalgia, com o “twist” das dinâmicas representativas serem hoje muito mais credíveis e naturais. Presenciarmos a atriz Evan Rachel Wood a sair do seu modo humano para o “modus machina” como se estar vivo e estar quase inanimado estivesse ao alcance de um simples botão; ou acompanharmos os diálogos filosóficos entre Ford e Bernard sobre a humanidade das suas criações artificiais; ou até mesmo os monólogos recreativos de Ford com velhas carcaças de lata reformadas…O universo de Westworld não se resume às superficialidades de um oeste selvagem, que antes são um meio para atingir um fim, o fuel para maquinações e interações pessoais mais densas e profundas.

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Westworld não poderia ter deixado uma melhor impressão na sua estreia, e arriscamos mesmo a dizer que, provavelmente, estaremos aqui na presença de um caso sério de sucesso. Jonathan Nolan parece que anda a aprender uma coisa ou duas com o seu irmão mais velho, e pelos vistos quem sai aos seus não degenera. Já não ficávamos assim tão entusiasmados desde “Fringe” – que também possui a chancela de J.J. Abrams, o que só prova como o futurismo e o classicismo podem coexistir pacificamente, afinal de contas, o que seria do futuro sem o passado. O Mundo Do Oeste caminha a passos largos para se tornar no próximo fenómeno da televisão por cabo, um que reúne aquele elenco de luxo que comanda a audiência, e aquele argumento polémico só ao nível de grandes intérpretes.

P.S. – “This Is as Good as We’re Going to Get”



Título Original:
Westworld

Realizador:  Jonathan Nolan, Lisa Joy Nolan
Elenco: Anthony Hopkins, Evan Rachel Wood, Ed Harris, James Marsden, Thandie Newton
TVSéries | Sci-fi | 2016 | Segunda-feira | 22h45

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Miguel Simão

Jurista e Poeta em algumas horas vagas. Cinéfilo incurável com forte pancada pelo sci-fi, que se perde algures pelo vício noturno de umas quantas séries televisivas de renome; amaldiçoado pelo perfecionismo estético de uma resma de palavras mais ou menos caras. Podem encontrar-me a divagar entre a Terra e o Espaço no meu blogue premiado Última Transmissão Humana.

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