Um documentário criminal volta a dominar o Top 10 da Netflix, plataforma que é conhecida por fazer documentários sobre os mais variados temas. Desta vez, “The Crash” tornou-se no filme mais visto do streaming em vários países, incluindo Portugal, ao abordar um caso real que começou por ser tratado como um simples acidente rodoviário, mas acabou transformado numa investigação de homicídio.
O documentário mistura imagens reais, entrevistas, documentos judiciais e testemunhos inéditos para reconstruir um dos casos mais polémicos dos últimos anos. A produção acompanha o acidente ocorrido numa estrada isolada, inicialmente classificado pelas autoridades como uma colisão trágica. Contudo, à medida que os investigadores começaram a analisar inconsistências na cena do acidente, surgiram dúvidas sobre aquilo que realmente tinha acontecido naquela noite. Consequentemente, o caso evoluiu rapidamente de acidente para possível homicídio premeditado.
Crash domina o Top 10 de filmes mais assistido da Netflix
O documentário explora o caso que ocorreu na manhã de 31 de julho de 2022, em Strongsville, em Ohio. Um carro que circulava a 160 km\h embateu na lateral de um edifício de tijolo e matou Dom e Davion, o namorado e o amigo de Mackenzie Shirilla, respetivamente. A jovem de 17 anos sobreviveu ao acidente. O grupo ia em direção a casa após a celebração de conclusão do secundário.
Segundo o documentário, vários elementos levantaram suspeitas junto das autoridades. Entre eles estavam contradições nos depoimentos, marcas no veículo incompatíveis com a versão apresentada e comportamentos considerados estranhos após o acidente. Ao mesmo tempo, novas provas digitais e análises forenses acabaram por mudar completamente o rumo da investigação. Aqui, os profissionais responsáveis por investigavam o caso, começaram a suspeitar se não teria sido tudo premeditado, e não apenas um acidente.
“The Crash” explora precisamente a forma como pequenos detalhes acabaram por desmontar a narrativa inicial. A produção mostra como os investigadores analisaram chamadas telefónicas, mensagens, registos de localização e imagens de vigilância para perceber o que realmente aconteceu antes do embate fatal. Além disso, o documentário também acompanha o impacto emocional do caso nas famílias envolvidas. Enquanto algumas pessoas acreditavam tratar-se de um acidente trágico, outras insistiam que existiam sinais claros de crime desde o início. Essa divisão acabou por alimentar ainda mais a atenção mediática em torno do caso.
O filme da Netflix explora a mudança de vítima para culpada de um dos envolvidos no acidente

©Netflix
“O nosso trabalho foi apresentar o ponto de vista de todos da forma mais justa e rigorosa possível. Demos ao público tudo o que precisa para chegar às próprias conclusões”, afirmou o realizador do documentário, Gareth Johnson. Os testemunhos dados por Mackenzie Shirilla ao longo da produção ajudaram a reconstruir a dinâmica da relação entre os três jovens envolvidos. Consequentemente, a jovem deixou gradualmente de ser encarada pela investigação como sobrevivente do acidente para passar a ser considerada a principal suspeita do caso.
Um dos elementos analisados no documentário foi a caixa-preta do automóvel. Os registos mostraram que o carro seguia a cerca de 160 km/h nos instantes antes do impacto, com o acelerador totalmente pressionado durante os últimos cinco segundos da viagem. Além disso, não existiam sinais de travagem nem qualquer tentativa de desvio. Por outro lado, a estrada que conduz ao local do embate apresenta várias curvas apertadas. Segundo os investigadores, para atingir o edifício naquela velocidade, Mackenzie teve de manter o controlo do veículo ao longo do percurso até ao momento da colisão. Os exames toxicológicos também não detetaram consumo de álcool ou substâncias ilícitas. Assim, a acusação construiu a teoria de homicídio com base na relação conturbada entre Mackenzie Shirilla e o namorado, Dominic Russo. A polícia teve acesso a mensagens, discussões e períodos de reconciliação trocados entre os dois, o que ajudou a traçar o historial do casal.
Mais tarde, Angelo Russo, irmão de Dominic, revelou publicamente que o jovem teria tentado terminar a relação várias vezes depois de ambos terem começado a viver juntos. Poucos meses depois do acidente, em novembro desse ano, Mackenzie acabou detida pelas autoridades.
Qual foi a decisão final no caso retratado pela Netflix?
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Mackenzie Shirilla foi julgada como adulta. Durante o julgamento, a defesa tentou utilizar o diagnóstico de POTS (síndrome de taquicardia postural ortostática), identificado em 2017, como parte da argumentação. Ainda assim, o tribunal não considerou a explicação suficiente para afastar a responsabilidade criminal da jovem. Dessa forma, Mackenzie foi considerada culpada pelas duas mortes e condenada a duas penas simultâneas de 15 anos até prisão perpétua, pena que continua atualmente a cumprir.
Apesar da condenação, a jovem participou no documentário da Netflix, algo considerado invulgar num caso desta dimensão. Num ambiente controlado, acompanhada pelo advogado e com tempo limitado para gravação, Mackenzie apresentou finalmente a sua versão dos acontecimentos. Durante a entrevista, quando confrontada com as provas reunidas pela investigação, afirmou: “Não estou a dizer que sou inocente. Eu fui a condutora de uma tragédia, mas não sou uma assassina”.
Entretanto, desde a estreia do documentário na Netflix, o caso voltou a ganhar enorme atenção online, alimentando os debates entre espectadores sobre a culpa, intenção e responsabilidade de Mackenzie Shirilla.
O sucesso do estilo true crime na Netflix

Ao mesmo tempo, vários espectadores têm comparado o filme a outros sucessos do estilo “true crime” da Netflix, precisamente devido à combinação entre suspense, reviravoltas inesperadas e a utilização de provas reais. O documentário tornou-se viral nas redes sociais poucos dias após a estreia, impulsionando-o rapidamente para o primeiro lugar do Top 10 da plataforma, em Portugal.
Apesar de o caso já ter passado por várias fases judiciais, o documentário mostra que algumas consequências ainda se fazem sentir atualmente, tanto a nível legal como pessoal. Além disso, novas entrevistas incluídas na produção reacenderam o debate público sobre aquilo que realmente aconteceu.

