Eurovisão 2022 em Turim | Entrevista a Sheldon Riley da Austrália

Nos preparativos para a Eurovisão 2022 em Turim entrevistámos Sheldon Riley, o representante da Austrália que mostra que não somos iguais.  

Mais um dia de entrevistas com participantes da Eurovisão 2022. Neste terceiro dia de encontros online, falámos com Sheldon Riley, o representante da Austrália na Eurovisão com a música “Not The Same“, vencedora do Eurovision – Australia Decides 2022.

Trata-se de uma das participações mais irreverentes deste ano, das mais brilhantes diga-se de passagem, e que promete arrebatar as almas daqueles que procuram entender melhor quem são, numa sociedade que tantas vezes os marginaliza.

Not The Same, a canção da Austrália na Eurovisão 2022

Sheldon Riley, portador de síndrome de Asperger e queer, tem apenas 23 anos (nasceu a 14 de março 1999), mas é um artista extremamente seguro daquilo que quer mostrar ao público. A sua atuação no palco do Pala Olimpico acontecerá na 2ª semi-final do certame – a 12 de maio – e apesar de não esconder o nervosismo, está preparado para vestir a peça de roupa mais exuberante do ano. O seu vestido pesa 38 quilos, demorou 2.500 horas até ser feito e conta com mais de 90 mil pérolas, penas e cristais. Avant garde, transgressivo, ousado, Sheldon Riley procura mostrar que todos somos diferentes, que a diferença é boa e deve ser respeitada.

Como já disse tantas vezes noutras entrevistas, Sheldon Riley criou “Not The Same” num período  conturbado da sua adolescência, no qual sentia-se marginalizado. Tinha medo de falar, tinha medo de comunicar com os outros. Proveniente de uma família bastante religiosa e conservadora, diz ter sido capaz de vencer o trauma e de espalhar a mensagem que queria dentro do seu meio. Temos aqui um artista cuja imagem excêntrica é inesperadamente uma forma de pureza. É um anjo que volta a bater as asas e que tem na Eurovisão a oportunidade que tem de colocar em cena a sua verdade.

Sente inclusive que a Eurovision Song Contest é o lugar certo para se estar, sobretudo quando na sua bagagem traz passagens por programas de talentos como The Voice Australia ou America’s Got Talent, no qual alcançou os quartos de final. Ainda não lançou nenhum álbum, mas o trabalho está a ser feito e até sonha colaborar com alguns artistas vencedores do festival de Duncan Laurence a Salvador Sobral.

Sheldon Riley interpreta Frozen de Madonna

Abaixo poderás ler a entrevista completa a Sheldon Riley, representante da Austrália na Eurovisão 2022. Partilhamos igualmente o vídeo original da conversa, disponível agora no canal do Youtube da MHD.

MHD: Como é que te sentes ao estar na Eurovisão 2022 em Turim?

Sheldon Riley: Nem consigo acreditar que estou aqui. Nunca estive em Turim e esta é a minha primeira vez em Itália. Estou muito expectante para aquilo que vai acontecer na Eurovisão.

MHD: Tu és bastante novo, mas quando estás no palco a tua performance é muito natural. Não são todos os dias que vemos coisas assim na Eurovisão. Onde vais buscar a tua força?

Sheldon Riley: Isso é bonito. Nunca me vi dessa forma, por isso muito obrigado. Eu acho que quando vens do zero, quando sabes que não tens nada a perder, deves trabalhar ao máximo e ser o mais forte possível. Não deves ter quaisquer expectativas.

Eurovisão 2022
© EBU / NATHAN REINDS

MHD: Tu participaste em vários programas televisivos de caça ao talento como The Voice Australia e America’s Got Talent. Como é que estes programas te mudaram?

Sheldon Riley: Esses programas ajudaram-me a tornar na pessoa que sou hoje. Eu fiz esses programas porque, de certo modo, não sabia definir aquilo que a indústria musical australiana queria de si. Ninguém na Austrália faz aquilo que faço. Eu precisava desses programas para expor as performances que estavam apenas na minha imaginação. Isso ajudou-me a entender como sou hoje. As pessoas pensam que isto é maluco e dizem que nunca viram uma performance assim. Os programas ajudaram-me, pois fiz algo que pensava não ser possível.

Além disso, são programas diferentes da Eurovision. A ESC é um festival tão prestigioso e todos os anos faz-se história. Os programas de talentos ora cá estão, ora desaparecem. Na Eurovisão cada momento é especial.

Eurovisão 2022
© EBU / NATHAN REINDS

MHD: Será que me poderias revelar mais sobre o processo criativo por detrás desta canção?

Sheldon Riley: Eu trabalhei com a diretora criativa Sacha Jean-Baptiste. Queria trabalhar com ela há muito tempo, porque é incrível. Criámos um mundo negro e distópico, em que uma espécie de príncipe é banido do seu castelo. Depois trabalhei com o Alin Le’Kal, o responsável pelo vestuário que utilizo, provavelmente o vestido mais longo que alguma vez usei na minha vida. As ideias da Sacha Jean-Baptiste são impressionantes. Não foi preciso dizer muita coisa. Entreguei apenas algumas anotações e ela criou algo excecional.

Quanto à música em si é sobre uma pessoa que se sente isolada, que sente que não é igual às restantes. Eu acredito que todos, num certo sentido, não somos iguais. Todos poderemos identificar-nos como diferentes das restantes pessoas, porque somos assim. Mas quando algumas pessoas não conseguem realmente integrar-se, não conseguem ser como os outros, isso é difícil e acabam isoladas. Nós queriamos que o palco refletisse isso. Que as pessoas entendam o que é estar sozinho. Pode parecer estranho, mas sabes aquele momento em que vais ao supermercado e a tua mãe deixa-te sozinho na caixa? Era a energia que eu queria transmitida na minha atuação. Esse medo infantil de estar tão sozinho.

MHD: Quão importante é para cada um de nós dizer aquilo que realmente sentimos?

Sheldon Riley: Acho que cabe a cada indivíduo. Eu venho de uma família muito religiosa e disseram-me quem eu deveria ser durante muito tempo. Eu não queria viver esta vida se não pudesse ser a pessoa que sou, que eu sabia que era.

Eurovisão 2022
© EBU / NATHAN REINDS

Para mim foi extremamente importante. Para alguns é mais fácil, para outros é dez vezes mais difícil do que foi para mim. Eu acho que queremos seguir o sonho de quem nós realmente somos. Eu não queria ser como os restantes rapazes da escola. Não era uma questão de integração ou não.

Deveríamos falar mais sobre isto. Há pessoas que sentem pena de nós porque dizem que não somos capazes de nos integrar. Não é bem assim. A diferença é boa. Não vale a pena procuramos uma solução para o facto de não sermos idênticos. Não vale a pena mudares quem és, temos é que começar a respeitar as pessoas como são.

MHD: Achas possível alterar o sistema para eliminar os pensamentos mais conservadores, para acabar com ambientes tóxicos?

Sheldon Riley: Não acredito que seja possível, pelo menos para o mundo todo. Tenho imenso respeito pelas pessoas e para com os seus pensamentos. Tudo o que peço é que me respeitem de volta. Não é preciso mudarmos as pessoas. Se respeitássemos as ideias uns dos outros, então o mundo estaria bem.

Acho que é uma parvoíce dizer que queremos mudar o mundo por completo. Eu não quero fazê-lo. Existe tanta beleza na religião, beleza na arte e beleza em apenas sermos diferente dos outros. Eu não quero fazê-lo porque senão seriam todos idênticos.

MHD: O que dirias aos jovens aspirantes a artistas que têm medo de seguir os seus sonhos?

Sheldon Riley: Todos temos que trabalhar os nossos medos. Eu tenho muitos traumas com os quais tento lidar todos os dias. Quero dizer às pessoas que se sintam assim que não estão sozinhos. Existem pessoas que os entenderão.

Eu não estava num espaço que permitisse ser quem sou, então trabalhei bastante todos os dias. Não chegas a nenhum lado sem trabalho. Trabalha árduo para que as pessoas vejam aquilo que fazes. Tenho a certeza que alguém verá o teu trabalho e nesse momento algo vai mudar. O meu conselho é mesmo trabalhar e confrontar os medos, aprender com eles. Os momentos em que tive mais medo foram também aqueles em que atingi o que queria.

MHD: Como é representar a Austrália na Eurovisão?

Sheldon Riley: Eu queria isto desde que me lembro. A minha vida, na verdade, só começou quando eu tinha 13 ou 14 anos e não me lembro do que como as coisas eram antes. Foi nessa altura que vi a Conchita Wurst no palco da Eurovisão em 2014. Apaixonei-me por essa mulher com barba.

Conchita Wurst é uma referência para Sheldon Riley

Como artista independente, sem casa discográfica, sinto-me tão orgulhoso por representar o meu país. Estou grato por ter pessoas que acreditam em mim e naquilo que faço. Não reflito a indústria musical da Austrália e isso significa muito, porque vou contra as regras. É muito divertido.

MHD: Qual a tua atuação preferida de sempre da Eurovisão?

Sheldon Riley: “Voilà” da Barbara Pravi. É a minha favorita de sempre, porque mudou a forma como vejo a Eurovisão. Eu também adoro o Salvador Sobral de Portugal. Para os australianos a Eurovisão é dança, pum-pum-pum-pum e fogo de artifício e quando vi a atuação do Salvador apaixonei-me imediatamente. Uma canção emotiva pode vencer o festival.

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MHD: Com quem gostarias de colaborar?

Sheldon Riley: Com o Duncan Laurence, mas também com a Barbara, o Salvador, o Gjon’s Tears da Suíça. Gostaria ainda gravar algo com a Tamara Todevska da Macedónia do Norte.

MHD: Quais são os próximos projetos? Vais lançar um álbum?

Sheldon Riley: Definitivamente. Estamos a trabalhar num álbum e gostava de trabalhar com o Krystian Ochman que representa a Polónia este ano. Estou a planear tours e estou a pensar viver na Europa pelo menos durante algum tempo. Na Austrália estamos demasiado longe.

MHD: Como gostarias que a audiência se sentisse ao ver a tua performance no palco?

Sheldon Riley: Eu espero que as pessoas oiçam apenas a canção, porque esta canção mudou a minha vida.

Entrevista a Sheldon Riley da Austrália (com vídeo)

Esta entrevista foi traduzida e editada livremente do inglês para o português de forma a não perder o seu sentido original. Poderás ver a entrevista da Magazine.HD com Sheldon Riley através do nosso vídeo.

Virgílio Jesus

Era uma vez em...Portugal um amante de filmes de Hollywood (e sobre Hollywood). Jornalista e editor de conteúdos digitais em diferentes meios nacionais e internacionais, é um dos especialistas na temporada de prémios da MHD, adepto de todas as formas e loucuras fílmicas, e que está sempre pronto para dois (ou muitos mais!) dedos de conversa com várias personalidades do mundo do entretenimento.

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