EX Machina, em análise

 

ex machina poster      Ficha Técnica

  • Título Original: EX Machina
  • Realizador: Alex Garland
  • Elenco: Alicia Vikander, Oscar Isaac, Domhnall Gleeson, Corey Johson
  • Género: Drama, Sci-Fi
  • Universal Pictures | 2015 | 108min

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Ex Machina é o flirt digital mais arrebatador e retorcido do neo sci-fi noir. Alex Garland assina uma obra de arte vanguardista, que desafia os limites absolutos da inteligência artificial num atrevimento indistinguível do ser humano.



Olá, Eu Sou A AVA!

Desde que o Homem é homem e venera uma divindade sobrenatural, que muito se tem imaginado e teorizado sobre a existência de seres com inteligência artificial. Na antiguidade clássica, a mitologia grega já enaltecia o tecnicismo metalúrgico do Deus Hefesto na criação de tripés mecânicos inteligentes, que acabariam por cantar o seu automatismo na Ilíada de Homero. E se Pamela McCorduck já dizia que a I.A. começou com “um desejo antigo de forjar os deuses”, Alan Turing materializou em “Vitória” o primeiro conceito vitorioso para a ciência da computação, que viria a ser decisiva no desfecho da Segunda Guerra Mundial.

Volvidos setenta anos de código binário e microchips, eis que o Homem educa a ignorância do seu estatuto divino a favor da paternidade de um descendente aparentemente semelhante. Uma Eva surgida da máquina com um rosto imaculado e um corpo translúcido de circuitos florescentes. Foi assim que, o bilionário Nathan “Almighty” (Oscar Isaac), idealizou a génese da nova “civilização” transhumana baseada nas especificações temáticas do seu “Google” proprietário “Bluebook”. E se os motores de pesquisa constituem um indicativo da personalização individual, então “AVA” (Alicia Vikander) já arrecadou todos os atributos físicos e psicológicos de uma Miss Universal. Assim pensará inconscientemente o seu “wetware” cerebral, e três milhões de internautas ligados à maior barra “search” do mundo.

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O Teste De Turing

Mas não basta produzir a “verdadeira consciência sintética”, sem que haja uma interação real que permita comprovar a existência de uma “singularidade”, isto é, a fusão impercetível entre humano e máquina. É por esse motivo elementar, que Caleb (Domhnall Gleeson) é convidado a entrar numa residência minimalista exilada nos confins selvagens do Alasca, aonde o superego omnipotente de Nathan parece ter-se esgotado num certo niilismo existencial. E enquanto emborcar garrafas e levantar pesos parecem sintomas de um eremita que perdeu o jeito para lidar com pessoas de carne e osso, Caleb deslumbra-se com os encontros acrílicos que visam testar a resposta inteletual de “AVA”.

Contudo, o que à vista desarmada parecia ser um escape relaxante da rotina diária num hotel de ar limpo, rapidamente começa a soar a cativeiro com privilégios premium. Por entre corredores monocromáticos e portas com leds limitadas ao acesso do cartão “selfie” de cada usuário, Caleb pressente o imediatismo daquela premonição secreta e sinistra que invade as noites apagadas da mansão laboratorialmente geminada. E enquanto chefe e empregado tentam relacionar-se como dois compinchas de longa data, as sessões com o andróide feminino passam a ser tudo menos isso.

Vê também: Ex Machina | A criação de AVA (Clip)

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Ligações Perigosas

Quando o diálogo socrático redunda numa inversão de papeis entre examinador e examinado, o propósito do teste da inteligência torna-se obsoleto pelos cânones femininos, porque um homem será sempre um homem, vulnerável a certos estímulos do sexo oposto. E Vikander é tão automaticamente arrebatadora na personificação humana, que até o milissegundo de resposta da sua linguagem corporal atinge-nos como um raio de encanto dopaminado. Mais ainda, se o simulacro daquela forma de vida começar a distorcer a perceção da realidade em que Glesson participa como um meio para atingir um fim.

Paulatinamente, os dois interlocutores encontram-se no impulso convergente da promessa de respirar o céu indisponível, ostentando uma química contagiante que se alimenta das fragilidades mútuas. A sociedade dos jovens atores não poderia ser mais convincente na explanação genuína de ambas as personalidades, coadjuvadas pelo fulgor de um Oscar Isaac possessivamente controlador e cordialmente sadista, que reserva a contemplação da belíssima paisagem norueguesa como uma cortesia exclusiva ao comum dos mortais. É nesta colisão triangular, que Garland vai controlando habilmente o volume arrepiante dos pontos de tensão entre a dialética da liberdade natural e a prisão claustrofóbica.

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Criação Vs Criador

A premissa categórica do argumento de Garland reside na necessidade mais básica e primitiva da existência humana: o direito de não ter que se pedir permissão para se ser livre. E se até um animal irracional numa forma de “pensamento” rudimentar consegue discernir o agressor dessa proibição, o que poderá pensar um robô com neurónios que se sente despojado do mundo físico e social? Garland não poderia disparar uma resposta “kubrikiana” mais crua e maquiavélica, que agarra os sentidos num choque de adrenalina psicologicamente envolvente e eroticamente sugestivo.

Para um novato em matéria de realização, o argumentista britânico – que fez digressão com Danny Boyle – executa o seu produto cinematográfico com a mestria dramática de um autor com créditos firmados. E se uma incursão prévia pudesse indicar um desgaste da trama pela repetição dos cenários primários, as transições certeiras entre o recinto soturno e a flora nativa acabam por refrescar a visão de um certo aprisionamento visual. A fotografia a cargo de Rob Hardy é de cortar a respiração, e os arrufos eletrónicos do instrumentalista dos Porthishead (Geof Barrow) colocam um vibrato melancólico numa direção artística deveras genial.

Lê também: Guia das Estreias de Cinema | Maio 2015

ex machina

Ex Machina ainda poderá estar a algumas décadas da sua concretização material, mas já possui o mérito de conseguir oferecer, talvez, o vislumbre mais credível até à data sobre o futuro das mentes artificiais. É uma obra futurista assustadoramente realista e mentalmente perturbadora, um clássico instantâneo que irá abanar as fundações da ciência e o propósito de toda a Humanidade.

PS – “Nada é mais humano, que a vontade de sobreviver”.

MS

Miguel Simão

Jurista e Poeta em algumas horas vagas. Cinéfilo incurável com forte pancada pelo sci-fi, que se perde algures pelo vício noturno de umas quantas séries televisivas de renome; amaldiçoado pelo perfecionismo estético de uma resma de palavras mais ou menos caras. Podem encontrar-me a divagar entre a Terra e o Espaço no meu blogue premiado Última Transmissão Humana.

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