Antonin Thuillier © / AFP

Festival de Cannes 2020: Em maio está cancelado, adiamento logo se vê?

Não foi preciso esperar pelo dia 16 de abril, um comunicado da direcção do Festival de Cannes, chegado há pouco, cancela a 73ª edição pelo menos de 12 a 23 de maio. Estuda-se a hipótese de alterar o formato, talvez mais curto e adiá-lo para as únicas datas possíveis: fim de junho, principio de julho. Mas mesmo assim não vai ser fácil….

O comunicado vem assinado pela equipa do Festival de Cannes que começa por solidarizar-se com as vítimas do COVID-19 e com ‘todos aqueles que estão lutando contra a doença’. A decisão parece muito sensata pois neste momento não há condições para que o Festival de Cannes se realize nas datas que estavam agendadas, de 12 a 23 de maio. E esta decisão surge três dias depois de o presidente Macron ter posto o país de quarentena e declarado uma verdadeira ‘guerra sanitária’. A França, é o país europeu em que o COVID-19 tem tido mais impacto logo a seguir à Itália e Espanha. No entanto, há várias hipóteses em estudo no seio da equipa do Festival ‘para preservar seu progresso, a principal seria um simples adiamento, para o final de junho e início de julho de 2020’. Algo aliás que seria inédito na história do Festival de Cannes, ao contrário de um verdadeiro cancelamento que ocorreu durante os acontecimentos de Maio de 1968, quando um grupo de jovens cineastas da Nouvelle Vague, entre eles François Truffaut e Jean-Luc Godard, decidiram boicotar a realização do evento, para se juntarem às manifestações estudantis e operárias da altura. Contudo, quanto a um possível adiamento deste Festival de Cannes 2020, tudo dependerá da ‘evolução da situação sanitária francesa e internacional que permita avaliar a possibilidade real’, refere igualmente o comunicado da organização, pois como já tinha sido anunciado, haverá sempre uma reunião primeiro com o Estado francês, com a administração da cidade de Cannes, com as autoridades sanitárias e além de um conselho formado, pela administração do Festival, profissionais de cinema e com todos os parceiros do evento. Só assim ficará decidido o cancelamento ou adiamento. Até lá, a equipa do Festival Cannes, continua a trabalhar e vai procurando alternativas, insistindo igualmente no seu comunicado para que todos respeitem civilizadamente a quarentena pedida pelas autoridades sanitárias e ‘demonstrem solidariedade neste tempos difíceis para o mundo inteiro’. Despedindo-se depois com um singular: ‘Até breve’.

festival de Cannes palme dor
Festival de Cannes Palme D’Or | ©Festival de Cannes

Até há pouco tempo o director artístico Thierry Frémaux tinha respondido em declarações à imprensa francesa sobre esta questão do cancelamento do seu Festival de Cannes e da crise do COVID-19, sempre com uma visão bastante calma e optimista: ‘Aqueles que estão preocupados e têm razão para isso, continuam preocupados porque olham o mês de maio com os olhos de 12 de março. O Festival é daqui a dois meses e, até lá, esperamos que a situação seja diferente e que a epidemia, esperamos, tenha diminuído!’ Contudo Frémaux, talvez como nós não esperasse por esta evolução e impacto e, não estivesse mesmo convencido dos dilemas que vamos ter que enfrentar daqui para a frente. Esses talvez muito mais cruciais, nas nossas vidas e profissões, provocados por esta quarentena, pelo recurso ao “teletrabalho” e a comunicações através de Skype. Apesar dos sucessivos adiamentos de outros festivais de cinema, creio que  neste momento todos têm de ser repensados e têm de procurar adaptar-se ao que aí vem, que está para além desta pandemia do COVID-19, que nos tem afectado a todos.

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Lançar um filme para todo o mundo já não significa necessariamente exibi-lo em Festivais como Berlim, Cannes ou Veneza! Começam a haver muitos outros eventos mais pequenos onde a relação dos filmes, dos realizadores e das estrelas com o público e com a crítica é mais interactiva, mais próxima e talvez mais eficaz: Roterdão (Holanda), Sundance (EUA), San Sebastian (Espanha), Toronto (Canadá), Tribeca, Nova Iorque (EUA), entre outros. Depois nas plataformas, como Netflix, Disney +, Apple TV ou outras disponíveis no mercado, inclusive as dedicadas ao chamado cinema de ‘arte e ensaio’ ou cinema independente, oferecem agora além de excelentes obras audiovisuais que chegam aos Óscar, como Roma, de Alfonso Cuarón, programas de alta qualidade e sobretudo séries de televisão, que competem fortemente com os filmes convencionais. Cada vez mais se vão afirmando manifestações de cinema e obras audiovisuais que foram desprezadas ou banidas durante vários anos, por preconceito ou arrogância de muitos críticos, programadores e curadores de festivais de cinema. As questões de segurança provocadas por causa do terrorismo e no futuro ao que parece de requisitos sanitários —  os vírus tornar-se-ão mais perigosos e provocarão mais medo do que qualquer ataque terrorista — passarão de facto a ser prioritários e tendem a complicar cada vez mais a organização desses grandes eixos de lançamento cinematográfico, com passadeira vermelha, fotógrafos, feira de vaidades, mas também com complexos dispositivos de segurança; questões essas que retardam a entrada nas sucessivas e inúmeras sessões para a imprensa, sujeita a grandes filas e agora também, por causa do online, limitadas por fortes regras de embargo, antes da sessão oficial de um filme. Finalmente, a pressão ecológica está começando a dar os seus frutos, defendendo que algumas viagens de avião não são essenciais para estar in loco. Muitos atores, sobretudo os mais activistas começam a resistir em fazer viagens transcontinentais para apresentar um filme, na maior parte das vezes por dois ou três dias e para participar nas aborrecidas, cansativas e formatadas entrevistas em grupo (junkets), organizadas pelos ‘publicists’ nos hotéis, para quase sempre os mesmos jornalistas e com as mesmas estúpidas perguntas. E cada vez menos os jornais e os media em geral, pagam a um jornalista para permanecer duas semanas nesses três grandes festivais, em que as diárias se tornaram absurdamente despendiosas.

Festival de Cannes
©Festival Cannes

Muitas vezes já são cobertas em parte, sobretudo para determinado sector da crítica, através de um esquema, de alguns dias de hospedagem que são pagos pelo festival ou através dos júris Fipresci (Associação de Internacional de Críticos de Cinema). Mas quase sempre são para os mesmos críticos! Se é privilégio e um luxo é também de um grande desgaste, com programações cada vez mais intensas e em simultâneo, para um jornalista cobrir eficientemente os grandes festivais de cinema. Quem corre por gosto não cansa…é verdade…mas gasta e desgasta-se! Não tarda estaremos a participar nos festivais e a fazer as nossas análises das selecções oficiais e dos filmes através de links, aliás como aos pouco vem acontecendo com também pouco a pouco com os habituais visionamentos de imprensa nacionais. Vamos perder claro o enorme prazer de ver os filmes no ecrã dos grandes auditórios como do Festival de Cannes (ou dos outros)? Um modelo de grande festival que parece agora longínquo e foi concebido nos tempos em que os veteranos quase nonagenários directores Pierre Viot e Gilles Jacob (veja-se o livro La Vie Passera Comme Un Reve) que ainda estão vivos e com memórias, estavam no activo? É neste contexto de fim de uma era dos festivais ou da necessidade de mudança de paradigma, que também um dos membros do conselho de administração do Festival de Cannes, constituído por 28 pessoas, tem em declarações à imprensa francesa, feito pressão para reformatar-se o evento. E esta pode ser obviamente uma das fortes opiniões para uma mudança ou uma experiência de mudança de formato, desta ainda possível, apesar de tudo edição 73: ‘Temos que torná-lo talvez mais curto, menos pomposo, mais simples e abrir a porta para os novos gigantes da produção’, referindo-se obviamente à Netflix e Cª, que nos últimos anos têm provocado a polémicas: filmes que não estreiam na salas de cinema e exclusivamente nas plataformas, não devem entrar na selecção oficial do Festival de Cannes. ‘Vamos aproveitar este golpe para nos reinventar-mos. Se não o fizermos, seremos vencidos por outro festival’, conclui esse vogal da administração, que assistiu aquilo que já não acontecia há muitos, muitos anos: a Palma de Ouro de Cannes 2019, Parasitas, do coreano Bong Joon-ho, tornar-se o grande vencedor dos Óscar 2020. O problema é que nem todos os membros do conselho de administração concordam com este projeto ‘revolucionário’ de mudança de formato.

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Festival de Cannes | ©José Vieira Mendes

Os actuais líderes Pierre Lescure, (presidente) e Thierry Frémaux, (director-artístico) da equipa do Festival de Cannes, parecem não estar muito de acordo com quaisquer mudanças — mesmo que tenham de se sujeitar a elas este ano — para defenderem o seu território e o dos grandes distribuidores e exibidores da indústria francesa de cinema, a maior da Europa. Certo é que esta novela que incluí o fim de uma era dos grandes festivais e da consequente afirmação das grandes plataformas só está agora a começar e o seu resultado é ainda muito imprevisível.  Relativamente ao cancelamento já não necessitamos esperar pela conferência de imprensa a 16 de Abril. Relativamente ao adiamento, veremos, mas vai ser difícil. Mas será decerto um até breve, porque Cannes é Cannes e ‘La Vie est un Festival’.

JVM

José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colaborou no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’  (2014) e 'Mar Urbano Lisboa (2019). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’ (2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’ (2012), Mostras de Cinema da América Latina (2010 e 2011), 'Vamos fazer Rir a Europa', (2014), Mostra de Cinema Dominicano, (2014) e Cine Atlântico, Terceira, Açores desde 2016, até actualidade. Foi Director de Programação do Cine’Eco—Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela de 2012 a 2019. É membro da FIPRESCI.

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