Festival Scope | As curtas-metragens da Semana da Crítica

Para além de Makala, o Festival Scope está a disponibilizar online outras obras exibidas na Semana da Crítica do 70º Festival de Cannes, nomeadamente uma seleção de nove curtas-metragens.

 

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LOS DESHEREDADOS (2017) de Laura Ferrés

 

Duas das curtas-metragens em exibição na plataforma online do Festival Scope são mesmo um par de trabalhos premiados pelo júri oficial desta secção paralela do Festival de Cannes. Curiosamente, considerando quanto se tem falado das lacunas de Cannes no que diz respeito à celebração e apoio de mulheres realizadoras, ambos os filmes foram assinados por jovens realizadoras em início de carreira. Los Desheredados de Laura Ferrés venceu o galardão Leica Cine para a Maior Descoberta da Semana da Crítica e é fácil perceber a decisão do júri. Misturando documentário, ficção e uma boa dose de inspirador virtuosismo formal, esta cineasta espanhola apresenta aqui um melancólico retrato do seu pai que, face à falência do negócio de família, recusa-se a sacrificar a sua dignidade pessoal.

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Substancialmente menos pessoal é The Best Fireworks Ever da polaca Aleksandra Terpińska. Este filme, que ganhou o prémio Canal+, toma como pano de fundo um conflito militar a abater-se sobre uma cidade algures na Europa de Leste e examina a vida de três jovens envolvidos num triângulo amoroso que parece ter saído diretamente de um filme da Nouvelle Vague. Apesar disso, Terpińska não demonstra grande nostalgia romântica, adotando uma perspetiva niilista sobre este pesadelo contemporâneo onde os jovens europeus apenas conseguem reclamar controlo sobre as suas vidas no momento da morte.

 

THE BEST FIREWORKS EVER festival scope
THE BEST FIREWORKS EVER (2017) de Aleksandra Terpińska

 

Adotando uma semelhante perspetiva misantrópica temos Jodilerks Dela Cruz, Employee of the Month, uma deliciosa comédia negra do filipino Carlo Francisco Manatad. Aqui conta-se a história de uma jovem empregada de bomba de gasolina numa noite cheia de desgraças e indignidades que culmina com um explosivo ato de violência vingativa que o filme se recusa a mostrar em todo o seu sangrento horror.

 

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EMPLOYEE OF THE MONTH (2017) de Carlo Francisco Manatad

 

Por falar em horror, Real Gods Require Blood do britânico Moin Hussain é a única proposta desta seleção que realmente se apresenta como uma proposta do género de terror. Neste filme, cujo começo recorda os grandes feitos de realismo social de Andrea Arnold, uma jovem chamada Alice é quase forçada a tomar conta das crianças da vizinha e, durante a tarde e noite que passa com elas, vê-se cair num pesadelo confuso que inclui caixas cheias de dentes e um homem mutilado a saltar de uma arca fechada à chave que poderá ser uma porta para o Inferno.

 

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REAL GODS REQUIRE BLOOD (2017) de Moin Hussain

 

Atmosfera e reticência magistral são os principais ingredientes deste exercício desorientador que funciona maravilhosamente bem como uma experiência sensorial, mas cujo final deixa algo a desejar de um ponto de vista narrativo. Möbius, um trabalho do canadiano Sam Kuhn que parece propor a fusão estilística de John Hughes com David Lynch, também usa alguns elementos do cinema de terror, mas fá-lo de modo muito menos bem-sucedido ou interessante.

 

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MÖBIUS (2017) de Sam Kuhn

 

Se formos generosos, podemos também classificar o drama sobre a musa e seu artista Le Visage como um projeto que vai buscar mecanismos ao cinema de terror. Pelo menos em termos de visuais, não há nada nesta seleção de curtas-metragens mais desconcertante que a protagonista deste filme a ser submetida ao processo pela qual a sua cara é traduzida em dados informáticos capazes de reproduzir a sua semelhança num computador. O realizador Salvatore Lista bem salienta o desconforto quase existencialista da transmutação virtual, pintando os procedimentos tecnológicos como uma contínua violação de identidade até que a figura feminina, brilhantemente interpretada por Solène Rigot, literalmente desaparece do filme, podendo apenas existir como um espectro digital algures no éter impalpável de um videojogo.

 

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SELVA (2017) de Sofía Quirós Ubeda

 

Outra curta-metragem que nos mostra pessoas a dissolverem-se na escuridão indefinida do éter é Selva de Sofía Quirós Ubeda. Neste filme, as memórias de uma mulher sobre o seu irmão há muitos anos desaparecido no mar tornam-se na base para a construção de um poema cinematográfico sobre as despedidas que todos guardamos em nós mesmos. Em termos de originalidade, este é um dos projetos mais valiosos desta seleção da Semana da Crítica.

 

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ELA -SZKICE NA POZEGNANIE (2017) de Oliver Adam Kusio

 

Os seus temas de despedidas, longas cicatrizes de mágoa familiar e memórias dolorosas não são, contudo, algo único neste grupo de obras. Ela – Szkice na Pożegnanie debruça-se sobre estes mesmo assuntos, mas fá-lo no contexto da vida de uma jovem polaca que planeia emigrar para a Irlanda e assim deixar para trás a sua família, namorado, trabalho e antigos sonhos na esperança de encontrar uma vida melhor no estrangeiro.

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Esse filme de Oliver Adam Kusio não impressiona apesar de uma premissa muito relevante, mas o mesmo não se pode dizer de Les enfants partent à l’aube. Esta curta-metragem de Manon Coubia é, sem sombra de dúvida, o melhor objeto cinematográfico desta seleção, tanto de um ponto de vista humano como estético. Apoiando-se no formidável trabalho de um elenco de três atores, esta é a história de uma mãe relutantemente a despedir-se do seu filho que se vai juntar à infantaria do exército Francês. Desde uma madrugada tumultuosa até à melancolia solitária da tarde, o filme traça o percurso desta mulher, seu filho e a namorada do jovem, sugerindo e pintando complexos retratos de personagem com minúsculas quantidades de informação. Ao mesmo tempo, a cineasta executa um modesto estudo formal de luz e sombra na paisagem invernal em que a trama decorre, culminando as duas vertentes do seu projeto num fabuloso plano final, tão belo como comovente.

 

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LES ENFANTS PARTENT À L’AUBE (2017) de Manon Coubia

 

Para além das nove curtas-metragens já referidas, o Festival Scope também está a disponibilizar dois microfilmes filmados verticalmente que foram premiados numa competição especial, patrocinada pela Nespresso. Lembramos que, até dia 2 de junho, podes ver gratuitamente todos estes filmes na plataforma online do Scope. Não percas esta oportunidade!

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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