FICLO 2020 | © FICLO

FICLO 2020 | Entrevista exclusiva a Candela Varas e Débora Mateus

O FICLO – Festival Internacional de Cinema e Literatura de Olhão decorreu entre os passados dias 15 e 21 Julho e a MHD entrevistou as suas organizadoras Candela Varas e Débora Pinho Mateus. 

O FICLO – Festival Internacional de Cinema e Literatura de Olhão terminou, mas a Magazine.HD não quer deixar este festival morrer, não só pela dificuldade que teve em realizar esta sua segunda edição, devido à expansão da pandemia COVID-19, mas também pelo facto de ter sido adiado de abril para os dias 15 a 21 de julho. Assim sendo, partilhamos contigo uma entrevista com as responsáveis do FICLO 2020: Candela Varas e Débora Pinto Mateus que juntaram a sua equipa para que esta edição se pudesse concretizar, mesmo com alguns cuidados sanitários.

O processo foi difícil, mas lá o FICLO – Festival Internacional de Cinema e Literatura de Olhão conseguiu mexer o Algarve. No total foram exibidos 28 filmes no Auditório Municipal de Olhão, Algarcine e República 14, onde se destacaram os filmes italianos em reposição e uma retrospetiva ao cineasta Albert Serra, além das sessões de cinema ao ar livre pelas 21h30.

Lê abaixo a nossa entrevista a Candela Varas e Débora Pinho Mateus, responsáveis pela organização do FICLO.

MHD: Como nasceu a ideia para o FICLO – Festival Internacional de Cinema e Literatura de Olhão, um evento ainda pouco conhecido pelo público português?

Candela Varas e Débora Pinho Mateus: Nasceu para dar resposta ao que consideramos um terrível vazio, por um lado a não existência de festivais em Portugal que explorem a relação entre estas práticas artísticas e as coloquem em diálogo, e por outro, não existirem festivais de cinema no Algarve.

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MHD: Esta é apenas a 2ª edição do FICLO – Festival Internacional de Cinema e Literatura de Olhão. Sempre acreditaram no êxito da edição anterior?

Candela Varas e Débora Pinho Mateus: Realmente não podíamos acreditar o tão bem que correu o festival, a adesão foi de todo surpreendente. Mas sempre acreditámos no projecto e sabíamos que tínhamos uma belíssima edição em mãos,a adesão não só a nível regional e nacional, mas também ibérica, visto termos provocado bastante eco no país vizinho, com a presença do Festival Europeu de Sevilha, bem como entrevistas com a RNE3 (Rádio Nacional Espanhola).. Este ano também temos uma bela edição, com mais dificuldade, mas não menos interessante, para a qual convidamos desde já todos os que estejam pelo Algarve a virem a Olhão desfrutar do festival, podem aproveitar e ficar num dos hotéis parceiros do festival (Hotel Cidade de Olhão, Guestmar e Casa Modesta) e tomarem o pequeno-almoço junto a algum dos convidados do FICLO! Estarão por Olhão Tiago Hespanha e Luísa Homem, Rosa Maria Martelo, João Viana, Lluis Miñarro, Javier Tolentino, Bruno Mendes da Silva, Ruth Perez, Mirian Tavares, Ana isabel Soares, Carlos Natálio, Isadora Alves e Bruno Humberto, entre muitos outros.

O Festival Internacional de Cinema e Literatura de Olhão foi um dos eventos afetados pela pandemia COVID-19. Como é que organização se adaptou à nova realidade e quais foram os maiores desafios resultantes da necessidade de adiar o festival?

Candela Varas e Débora Pinho Mateus: Sem dúvida está a ser um ano turbulento. Sim, teve um impacto muito grande. Tivemos de reagendar tudo, com o que isto implica, novos gastos, mais contratações. Este ano quase não contamos com patrocínios privados, portanto, mais gastos e menos recursos. O grande desafio é conseguir manter a serenidade para trabalhar com inúmeras variáveis, e conseguir os apoios do ICA para festivais, estreitar os laços com a Câmara de Olhão e com todas as instituições que tornem possível a continuação do FICLO para o ano que vem. Para os espectadores, o mesmo, manter a calma e a serenidade, e respeitar o distanciamento nos recintos, porém sem deixar de desfrutar do maravilhoso cinema que ao longo dos anos, sempre acompanhou os momentos mais difíceis, alentando poeticamente as nossas vidas.

FICLO 2020
A Aventura | © FICLO

Mas uma das consequências do adiamento que está seriamente a colocar em causa a continuidade do FICLO, deve-se ao facto de estarmos este ano em condições de concorrer ao apoio do ICA a festivais (pois realizamos agora a 2ª edição do festival, e o ICA pede duas edições consecutivas para se estar em condições de nos podermos candidatar), mas não vamos conseguir cumprir com um dos requisitos que advém directamente da pandemia que vivemos. Em tempos de normalidade a convocatória coloca como requisito para podermos concorrer termos pelo menos 2500 espectadores (visto que o festival tem lugar num concelho com menos de 100 000 habitantes), ora em tempos de pandemia como a que vivemos, com uma caída em Junho de 98,9% de espectadores nas salas de cinema face ao ano de 2019, percebemos de imediato que precisaríamos de um milagre para chegar a esses números. Claro, os outros festivais não estão com esse problema, porque estão-se a candidatar com os números da edição de 2019. Devemos ser mesmo os únicos a enfrentar esta questão, pois que tenhamos conhecimento não sabemos de mais nenhum festival que vá agora em 2020 na sua 2ª edição. Mas esperamos que o ICA reconsidere este requisito para festivais que completem a sua 2ª edição este ano.

MHD: De facto, com a pandemia COVID-19 parece ser mais fácil reabrir as salas de cinema e realizar eventos em cidades mais pequenas, como por exemplo, em Olhão. Será que eventualmente existirá uma maior descentralização dos festivais de cinema de metrópoles como Lisboa e Porto?

Candela Varas e Débora Pinho Mateus: Mais fácil não sabemos se será… Se estamos a falar da pandemia, talvez seja mais fácil, por vários factores. Estando em Olhão não precisamos de entrar em transportes públicos colectivos para ir de um sítio a outro, de forma que o público pode ir de sala de exibição, em sala de exibição, para os espaços das actividades paralelas sempre a pé. Outro factor imbatível são as nossas noites de verão com temperaturas fantásticas para se estar ao ar livre.

Agora, sem dúvida, que é muito mais difícil realizar festivais fora dos grandes centros como Lisboa e Porto, podemos dar apenas dois exemplos: legendagem electrónica, não temos em todo o Algarve nenhuma associação ou empresa que realize esta actividade, logo temos de a contratar em Lisboa, o que acarreta um incremento no valor do serviço, pois para além do serviço em si temos de pagar ainda viagem, alojamento e alimentação; outro exemplo, é quando temos de em plena produção deslocar-nos a Lisboa para entrevistas ou reuniões.

Mas a pergunta é muito pertinente, para além da pandemia, deveriam haver muito mais festivais fora dos grandes centros.

MHD: Porquê a aposta no cinema italiano e em nomes vanguardistas da histórias das imagens em movimento como Rossellini, Visconti ou Antonioni? Porquê a escolha de Itália como país convidado desta edição?

Candela Varas e Débora Pinho Mateus: Se há um filme que segundo os cahiers inaugura um novo tempo do cinema, é a “Viagem em Itália” de Rosselini. Este ciclo está composto por filmes que reflectem magistralmente sobre o desafio de levar a nova narrativa contemporânea ao cinema, procurando o seu equivalente visual cinematográfico. Desde “Journey to Italy” (1954), inspirado nas últimas páginas de “Os Mortos”, conto do “Dublinenses” de James Joyce que, segundo os Cahiers, inaugura um novo tempo no cinema, até ao Antonioni do Nouveau Roman com “The Passenger” (1975), onde se emprega a ambiguidade da imagem como recurso especificamente cinematográfico (para expressar a dissociação da consciência).

neorrealismo italiano
VIAGEM A ITÁLIA (1954) de Roberto Rossellini | © Italia Film

MHD: O FICLO – Festival Internacional de Cinema e Literatura de Olhão tem alguma colaboração com a Festa do Cinema Italiano ou com a Associação Il Sorpasso?

Por enquanto não. Ainda que o Adriano Smaldone colabore com o FICLO.

MHD: Albert Serra é um dos mais importantes cineastas independentes espanhóis que mais trabalha a relação entre cinema e literatura. Em que medida pode a cinematografia deste cineasta espelhar os ideais do vosso festival?

Candela Varas e Débora Pinho Mateus: Albert Serra esteve em Março em Olhão com um Seminário de ‘Metodologia e Cinema Contemporâneo’, que correu maravilhosamente bem. Serra é um artista muito interessante e poder estar 3 dias a conhecer melhor e em relação directa o seu trabalho foi muito gratificante. Acho que todos os que participámos ficámos com um entendimento diferente da sua obra depois do seminário. Serra, de facto, é uma escolha natural para um festival que promove a relação entre cinema e literatura. Todos os seus filmes partem da literatura, especialmente da literatura universal, ainda que não conte com nenhum filme que seja uma adaptação propriamente dita. “Honor of the Knights” é livremente inspirado nas personagens principais de El Quijote; “Birdsong” vai beber à Bíblia; “Story of My Death” foca-se nas memórias de Casanova e na figura de Drácula; “The Death of Louis XIV” inspira-se nas memórias de Saint Simon, e por aí a fora… A literatura universal ou a grande literatura serve de inspiração para os seus filmes. Mas podemos mesmo ir mais longe e dizer que Serra é para além disso tudo um poeta das imagens.

A retrospectiva permite conhecer a obra do autor a fundo, pois trata-se de uma retrospectiva integral, onde podemos acompanhar toda a evolução, do primeiro ao último filme, do realizador. Ressalvamos um dos seus filmes da retrospectiva pela singularidade dentro do seu universo. “The Lord Worked Wonders in Me” é, segundo o próprio realizador, uma brincadeira em forma de ‘Making of’ dos seus filmes passados e dos seus futuros filmes. Mostra-nos o lado divertido ou lúdico com que Serra trabalha juntamente com a sua equipa, na realização dos seus filmes, que normalmente o público não vê no formalismo dos seus outros filmes.

MHD: Que outros eventos ou projetos gostariam de destacar desta edição do FICLO – Festival Internacional de Cinema e Literatura de Olhão?

Candela Varas e Débora Pinho Mateus: A Obra Criativa, que é uma secção do festival que nasceu logo na 1ª edição em 2019. É uma aposta clara de termos obra criativa produzida no âmbito do FICLO. Na 1ª edição convidámos 4 escritores (Alexandra Lucas Coelho, Gonçalo M. Tavares e Nuno Moura em parceria com Candela Varas), para desenvolverem um diálogo com 3 filmes mudos, que foram depois exibidos juntamente com a leitura ao vivo dos escritores. 3 filmes performativos que muito êxito tiveram o ano passado. Este ano convidámos o realizador Tiago Hespanha (que também tem o seu último filme, Campo, na competição Oficial), para vir em residência artística a Olhão para escrever um argumento que se relacione com as vivências do realizador na região. A residência contou com 3 partes, uma das quais está a ter lugar agora mesmo. Tiago chegou a Olhão ontem, dia 7 de Julho, e nesta última parte da residência ficará alojado num barco, que estará atracado uns dias na ilha da Culatra e outros no porto de Olhão. Esta residência continha uma alargamento com o convite ao encenador Rogério de Carvalho para fazer uma Leitura Encenada a partir do argumento escrito pelo Tiago Hespanha. Esta actividade ficará para a 3ª edição em 2021. E podemos desde já dizer que a Obra Criativa para a 3ª edição está pensada e terá grande impacto na cidade.

FICLO
“Valley of Souls” / “Tantas Almas” de Nicolás Rincón Gille © FICLO

MHD: Já discutiram a possibilidade de realização da 3ª edição do FICLO?

Candela Varas e Débora Pinho Mateus: Outra questão que nos trouxe a pandemia com o adiamento é que estamos a fazer produção desta 2ª edição ao mesmo tempo que estamos a preparar já a 3ª edição, a candidatura ao ICA de Apoio a Festivais em Território Nacional está quase pronta, só nos falta saber se nos vamos conseguir candidatar por causa do requisito dos números de espectadores. De qualquer modo até dia 22, não saberemos se por milagre conseguimos esses números ou não ou mesmo se o ICA vai suspender este requisito restritivo em tempos de pandemia, para festivais com 2ª edição em 2020. Mas sim, se tudo correr bem, o FICLO terá 3ª edição em Abril de 2021.

MHD: Muito obrigado pelo vosso tempo. 

Virgílio Jesus

Era uma vez em...Portugal um amante de filmes de Hollywood (e sobre Hollywood). Jornalista e editor de conteúdos digitais em diferentes meios nacionais e internacionais, é um dos especialistas na temporada de prémios da MHD, adepto de todas as formas e loucuras fílmicas, e que está sempre pronto para dois (ou muitos mais!) dedos de conversa com várias personalidades do mundo do entretenimento.

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