Finch | © Apple TV+

Finch, em análise

Finch” é a mais improvável das aventuras dramáticas apocalíticas, mas uma que nos enche o coração de ternura e comoção. Hanks, um cão e um robô lamechas só poderia resultar numa patuscada épica.

Os dramas apocalíticos sempre estiveram na moda, talvez porque o cenário de que um dia o mundo possa mesmo acabar, atiça-nos a curiosidade de conjeturar acerca desse angustiante e fatídico desfecho. E no contexto pandémico em que vivemos, este “Finch” não poderia vir em melhor altura, relembrando-nos a todos de como é uma benção estarmos vivos, mesmo que sejamos só nós, um cão e dois robôs numa autocaravana a caminho de S.Francisco. No fundo, a fita dirigida pelo cineasta britânico, mais notabilizado pelo premiado trabalho em “A Guerra dos Tronos”, traz-nos uma espécie de comédia negra otimista acerca de um cataclismo natural que destruiu a camada de ozono e deixou o planeta terra num local praticamente inóspito. Tom Hanks é Finch Weinberg – um cientista eremita que vagueia pelos escombros de St.Louis (Missouri), num camião basculante, à procura de mantimentos na companhia do seu utilitário robô (Dewey) em forma de carrinho de compras. E é numa dessas perigosas e imprevisíveis saídas rotineiras de fato Hazmat com o céu a brilhar a 70 graus centígrados, ao qual Finch se refere como um autêntico “queijo suiço”, que uma arenosa tempestade ciclónica precipita os preparativos de uma significante viagem há muito adiada.

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Na sua essência, o guiãozinho redigido por Craig Luck (“Sense8”) e Ivor Powell (“Blade Runner”) não podia engonhar com uma premissa de história mais simples e retilínea, que pese embora subsista em grande medida às custas do habitual carisma de Hanks, ainda consegue lançar uma bola curva surpreendente por quem dá voz ao antropomórfico robô, Jeff. Efetivamente, é o jovem ator texano Caleb Landry Jones (Três Cartazes à Beira da Estrada), quem vocaliza de forma apaixonante a prodigiosa criação de Finch, concebida com o único propósito de cuidar e proteger o seu amiguinho patudo (Goodyear) na sua ausência. A fórmula de contracenar com um objeto ou elemento inanimado fisicamente não é uma novidade para Hanks, que em “Cast Away” serviu-se de uma bola de voleibol como o seu amigo imaginário. Aqui, Jeff também não se dilui numa digitalização total que só ganha vida ao receber da voz de Caleb o seu lado mais pueril e sonhador, tranformando-se naquela que será uma das mais complexas e sofisticadas renderizações de um andróide inteligente da história do cinema. Na verdade, a versão de Jeff finalizada a computador em termos de animações faciais e linguagem corporal é simulada a priori em cena por Caleb, através de um fato mecânico assente em parafitas que mimetizam o andar inclinado e pesado de um ser cibernético maravilhado com uma realidade virgem.

Finch Corpo
Finch | © Apple TV+

Poder-se-ia argumentar que já existiram estupendas recriações de humanóides com o perfil espirituoso de Jeff, e assim de repente vem-nos à memória “Chappie” de Neill Blomkamp – que mais se aproxima ao nível de autenticidade e espontaneidade orgânica exibido em “Finch”. No entanto, a partir do momento em que colocamos os olhos nesta cabeça apepinada de tanque gasoso com mãos de basebol e uma envergadura de jogador de basquetebol desengonçada, que se exprime num estranho e afável inglês monocórdico mal amanhado num sotaque meio russo, é impossível não ficarmos completamente enternecidos com a sua personalidade dócil e fervilhante. Até mesmo a interação de Finch com o seu castiço e galhofeiro cão “Goodyear” deixa transparecer um vínculo muito puro e natural, sentindo-se uma ligação humanamente significativa entre ambos. Aliás, o guião de Luck e Powell destaca-se dos demais por enaltecer a temática da sobrevivência humana em função da sobrevivência animal, e não o inverso, que Hanks faz questão de defender sem nenhuma conotação cínica, afirmando que “o cinismo neste tipo de filmes seria a opção por defeito”. Assim, é com esta noção altruísta, que Miguel Sapochnik pinta-nos este quadro de um mundo decadente, sociofóbico até, que nas palavras do realizador: “pega nesta ideia de uma personagem falível, tornando-a no último bastião da humanidade”, escapando da banal heroificação declarada dos protagonistas. É por isso, que a filmografia de Sapochnik privilegia os enquadramentos focados precisamente na criação de uma suculenta intimidade de grupo, capitalizando no espírito familiar a força motriz capaz de ultrapassar e suportar qualquer adversidade.

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E para uma produção cinematográfica que passa a maioria do seu tempo confinada em áreas fechadas: primeiro num búnquer laboratorial e em seguida numa autocaravana, seria crucial que a lustrosa cinematografia de Jo Willems deixasse a personagem existir livremente nesses espaços, dando-lhe alguma folga na corda para improvisar e “fazer a sua cena”, resultando, assim, numa imagem mais autêntica e realista. Curiosamente, a preferência de Willems por lentes anamórficas que abrem o plano imagético e conferem um “look” mais natural e etéreo, em justaposição com fontes de luz práticas tonalmente temperadas, conseguem homogenizar a carga negativa de certos locais potencialmente mais sisudos, de onde passa a emergir uma certa sensação uterina de algum conforto e calor. Mas claro que a fita de Sapochnik apesar de almejar aquela tonalidade do “feel good movie”, não poderia erradicar o seu substrato mais melancólico, que aqui é meritoriamente e cirurgicamente harmonizado, deixando transpirar as emoções nos momentos certeiros. E mais do que isso, esse fio condutor é trabalhado não como o habitual cliché de uma fatalidade obrigatória à procura da sua salvação, ao invés, o grau dramático é subvertido em prol da sua aceitação pacífica, catapultando, assim, a batida argumentativa ao patamar da introspeção vivencial.

Finch Corpo
Finch | © Apple TV+

Assim, é na plataforma de uma filosofia de pensamento positivo em que assenta o chamado “character building”, que assistimos ao desabrochar evolutivo da persona inerente a Jeff, que Finch acolhe, nutre e educa como se de um filho se tratasse. E nessa medida, a química entre os dois atores não poderia enlaçar-se de forma mais simbiótica e fraternal, acenando aqui, obviamente, ao simbólico ângulo das relações parentais. Jeff é este mastodonte esquisito de máquina que assustaria uma mera formiga, mas foi agraciado com uma AI auto-cognoscente programada com os ditames morais de Finch, e com capacidade de percecionar emoções. Tal como um pré-adolescente que vai questionando o mundo, errando e aprendendo com as suas experiências pessoais, também Jeff é confrontado com os mesmos desafios, sendo forçado a fazer crescer o seu conhecimento em virtude das circunstâncias para cumprir o seu mandato existencial. É nesse quesito que Sapochnik ganha o coração do espetador, ligando e tratando seres vivos e artificiais não pelo que são, mas pelo que dão uns aos outros em termos de laços afetivos. E isso é comovente e inspirador, precisamente quando o pano de fundo é sombrio, pernicioso e aterrador. A ilusão de autenticidade é impressionante, mesmo que ainda se note a interferência pontual do “CGI” a escalar a espetacularidade visual, que embrulha tudo num apelativo pacote terreno com ventoinhas gigantes a soprar lufadas de areia e pó, enquanto a câmara de mão portátil inserida no claustrofóbico capacete de Finch trepida por tudo quanto é lado. Willems descreve o massacrado aspeto “como se o filme tivesse levado uma lixa para retirar-lhe todo o gloss”.

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Mas polimento interpretativo é coisa que não falta a “Finch”, que do princípio ao fim cola-nos à conversação sentimental de um homem, um cão e um robô, que partem para uma marcante “road trip” repleta de embaraços, provações e lições de vida tanto pessoais como coletivas. Especialmente quando se metem à estrada, Sapochnik ludibria-nos com o infalível gancho da imprevisibilidade, criando cuidadosamente cada cenário com uma intenção quase didática no contexto da profundidade representativa, que vai permitindo desincrustar paulatinamente o clímax de toda a trama. “Finch” é, assim, uma pequena pérolazinha com temáticas humanistas bastante vincadas que batem cá dentro, relembrando-nos a todos que a humanidade já não é o que nos separa dos outros animais, mas o que nos separa da nossa própria extinção.

Miguel Simão

Finch | Em Análise
Finch Em Análise Póster

Movie title: Finch (AppleTV+)

Movie description: Tom Hanks é Finch, um homem que embarca numa poderosa e emocionante aventura para encontrar um novo lar para a sua família improvável - o seu adorado cão e um robô criado por si - num mundo perigoso e totalmente devastado.

Country: Reino Unido, Estados Unidos

Duration: 1h55min

Author: Miguel Simão

Director(s): Miguel Sapochnik

Actor(s): Tom Hanks, Caleb Landry Jones, Lora Martinez-Cunningham, Marie Wagenman, Oscar Avila

Genre: Drama, Ficção Científica

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  • Miguel Simão - 80
  • Manuel São Bento - 70
75

CONCLUSÃO

“Finch” é um pequeno conto de cariz filosófico acerca das ligações afetivas humanas e supra-humanas, que nos toca na alma como um raio divino. Finch, Jeff e Goodyear são um deleite para os olhos, oferecendo-nos todo um espectro de emoções que vão desde a risada pegada à lagriminha no canto do olho. E se Tom Hanks não sabe fazer más interpretações, Caleb Landry Jones agora já sabe que a sua vocalização de Jeff ficará gravada nas nossas memórias…

Pros

  • Tom Hanks é intratável
  • Caleb Landry Jones imortaliza Jeff
  • Cinematografia impecável
  • Guião bem executado

Cons

  • Questão climatérica algo superficial
  • Alguns clichés demasiado óbvios
  • Cadência por vezes monótona
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Miguel Simão

Jurista e Poeta em algumas horas vagas. Cinéfilo incurável com forte pancada pelo sci-fi, que se perde algures pelo vício noturno de umas quantas séries televisivas de renome; amaldiçoado pelo perfecionismo estético de uma resma de palavras mais ou menos caras. Podem encontrar-me a divagar entre a Terra e o Espaço no meu blogue premiado Última Transmissão Humana.

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