"Fotografia" | © Alambique Filmes

Fotografia, em análise

Fotografia” é um romance modesto da autoria do mesmo cineasta indiano que, em 2013, encantou o mundo com “A Lancheira”.

Há seis anos, o realizador Ritesh Batra estreou “A Lancheira” na Semana da Crítica do Festival de Cannes. O filme, a sua primeira longa-metragem depois de várias curtas, tornou-se uma imediata sensação, sendo aclamado pela crítica e pelo público em igual medida. Um ano depois, após uma passagem por inúmeros festivais de cinema, “A Lancheira” começou a estrear comercialmente fora da Índia e rapidamente provou ser um sucesso tanto dentro como fora do seu país de origem. Nos EUA, por exemplo, foi o filme numa língua que não o inglês a vender mais bilhetes em 2014. Tal foi o sucesso de Batra e sua estreia no mundo das longas-metragens, que várias ofertas para trabalho fora da Índia não demoraram a surgir.

“O Sentido do Fim” é uma adaptação literária britânica com Jim Broadbent e Charlotte Rampling em papéis de destaque e “Nós, ao Anoitecer” tratou-se de uma história de amor produzida pela Netflix e protagonizada por Jane Fonda e Robert Redford. É extraordinário pensar como Batra passou de um cineasta completamente desconhecido a um realizador encarregue de filmar duas das maiores estrelas na História de Hollywood. Já muito insuflado de prestígio e renome internacional, parece que o cineasta finalmente decidiu regressar ao seu país de origem e suas raízes com “Fotografia”, o primeiro filme indiano que ele assina desde “A Lancheira”.

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Tal como aconteceu com “A Lancheira”, se há algo que define a presença de Batra atrás das câmaras é a modéstia com um toque de humanismo sincero do projeto, algo que é transversal tanto à sua narrativa como à concretização formal. Em termos de história, o filme foca-se em duas almas perdidas na cidade de Bombaim dos nossos dias. Rafi é um fotógrafo de meia-idade, solteiro, solitário e de classe baixa que ganha a vida a tirar fotos a pessoas na rua. Miloni, pelo contrário, é uma jovem estudante de classe média, introvertida e calada, que parece quase sentir-se presa pelos limites que vêm de mão dada aos privilégios da sua posição na hierarquia social.

Um dia, estes dois indivíduos cruzam caminhos junto ao monumental Portal da Índia. Como é seu costume, Rafi aparece tagarelando frases bonitas que há muito perderam espontaneidade e agora tresandam ao cansaço da constante repetição. Ele fala de como o sol na cara, o vento no cabelo, as pessoas em redor, tudo isso vai desaparecer, mas uma foto pode preservar tais sensações. Miloni quase nem o ouve, surpreendida pela sua abordagem, enquanto Rafi só a vê como mais uma potencial cliente que desaparece enquanto o fotógrafo procura um envelope para guardar a impressão da imagem. Não há nada de muito dramático neste encontro, mas algo parece marcar as duas personagens.

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Pelo menos, assim acontece com Rafi que, quando é mais uma vez pressionado em relação à possibilidade de se casar, envia a foto de Miloni à sua avó, dizendo-lhe que tem uma noiva em Bombaim. Como seria de esperar, a idosa, que criou o fotógrafo como se fosse seu filho, decide que quer conhecer a rapariga misteriosa e viaja até à cidade para o fazer. Não querendo desapontá-la, Rafi arranja maneira de entrar novamente em contacto com Miloni e os dois fingem ser um casal. Da mentira floresce a verdade e os dois rapidamente sentem um laço íntimo a formar-se entre si, mas uma outra fotografia, tirada pelo pai de Miloni, pode acabar por desmascarar o engodo antes de os dois aceitarem os seus sentimentos. Trata-se do tipo de enredo romântico que em tempos teria feito as delícias das audiências num filme de Frank Capra, por exemplo.

O que é mais fascinante e frustrante em “Fotografia” é que a história de amor entre os dois protagonistas, a sua faceta mais convencional, é a parte que menos funciona em todo o engenho narrativo. Também é o elemento a que o próprio realizador parece prestar menor atenção, preferindo encarar o filme como um estudo de barreiras geracionais, económicas, sociais, religiosas, geográficas e até gastronómicas que, ao mesmo tempo, funciona como uma carta de amor à cidade onde Batra cresceu. Nawazuddin Siddiqui e Sanya Malhotra também merecem alguma da culpa. Os dois atores são bastante bons nos seus papéis, sugerindo os conflitos internos que o guião se recusa a ilustrar diretamente, mas não têm grande química enquanto uma potencial parelha romântica.

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Considerando que “Fotografia” é um romance, que a sua estrutura remete para um certo classicismo romântico e que a resolução da história se centra no casal, o seu fracasso neste aspeto é uma fragilidade considerável. Contudo, por cada fracasso, o filme tem sempre dupla quantidade de triunfos a oferecer ao espectador. O que queremos com isto dizer é que, “Fotografia” mais do que se redime, sendo um exímio estudo de personagens e um encantador postal urbano. Veja-se, por exemplo, como Batra filma a sua atriz principal, isolando-a em ambientes domésticos em que tudo o que a rodeia está desfocado ou fragmentando o seu gesto com reflexos e molduras dentro de molduras.

Para Miloni, mais do que uma atração romântica, a relação com Rafi parece ser uma manifestação de um desejo de pertencer a outra classe social. Nem ela nem o filme glamourizam a pobreza de Rafi e sua família, mas há uma clara vontade de pertencer, ou experimentar pertencer, a esse mundo e escapar às pequenas prisões do privilégio de classe média, escapar às expetativas da família e às regras a que uma rapariga na sua posição tem que obedecer. No entanto, há sempre algo que a impede de fazer isso, algo que a relembra do seu lugar na sociedade fortemente hierarquizada da Índia. Isso pode ser uma empregada que vem da mesma aldeia que Rafi ou o próprio corpo de Miloni, cujo estômago apaparicado toda uma vida não consegue suportar sequer o consumo de um doce comprado a um vendedor de rua.

A biografia de Batra tem semelhanças à história de Miloni e tais ligações pessoais sentem-se pelo filme. “Fotografia” trespassa o afeto de um cineasta pelos seus sujeitos, sejam eles pessoas ou as paisagens de uma cidade que até na feiura consegue ser bela – tudo depende do olho do observador ou da habilidade do fotógrafo. Por isso mesmo, apesar de se reconhecerem grandes problemas na conceção final de “Fotografia”, é impossível desprezar o filme. Esta é uma obra gentil e delicada, humana e portadora de grande beleza para quem estiver disposto a ser embalado pelos seus ritmos calmos e humilde sinceridade.

Fotografia, em análise
fotografia critica

Movie title: Photograph

Date published: 2019-08-09

Director(s): Ritesh Batra

Actor(s): Nawazuddin Siddiqui, Sanya Malhotra, Sachin Khedekar, Denzil Smith, Brinda Trivedi, Lubna Salim, Saharsh Kumar Shukla

Genre: Drama, Romance, 2019, 110 min

  • Cláudio Alves - 70
  • José Vieira Mendes - 60
65

CONCLUSÃO:

“Fotografia” é uma história de amor anémica em romance, mas rica em observações sociais e detalhes de personagem. Ritesh Batra volta a mostrar ser um dos realizadores mais gentilmente humanistas do cinema atual, encontrando notas de graça num filme cuja humildade narrativa e formal parecem ser uma escolha estudada. Só pelas imagens de Bombaim em toda a sua glória, o filme seria algo prazeroso, mas, felizmente, tem muito mais que isso para oferecer ao espetador.

O MELHOR: O modo como Batra, apesar de preferir uma estética realista aos excessos mais bombásticos de Bollywood, demonstra um enorme afeto para com o cinema popular do seu país. Canções invadem a paisagem sonora de “Fotografia” em momentos cruciais e há duas cenas num cinema que são das mais belas e marcantes do filme.

O PIOR: A falta de química entre os atores principais e, curiosamente, a banda-sonora instrumental que é demasiado melosa e sacarina.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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