14º IndieLisboa | Free Fire, em análise

A secção Boca do Inferno volta a afirmar-se como o píncaro de diversão e entretenimento do IndieLisboa, desta vez com o insano dilúvio de violência que se abate sobre doze homens em fúria e uma desesperada femme fatalle em Free Fire, o mais recente filme de Ben Wheatley.

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Segundo o realizador inglês Ben Wheatley e a sua parceira criativa Amy Jump, a receita perfeita para caos e absoluta destruição necessita aí de umas cinquenta diferentes armas de fogo, um espaço fechado e quantidades industriais de testosterona, ganância e pura estupidez. Pelo menos é essa a fórmula de Free Fire, o mais recente projeto da dupla que, depois do fascinante desastre que foi High-Rise, está de volta às boas graças da crítica e do público com aquele que é o seu primeiro filme passado nos EUA. Também é, se formos sinceros, o seu trabalho mais acessível, talvez devido ao facto que se trata de um filme de série B cheio de violência e humor negro.

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Em termos narrativos, Free Fire conta a história de uma noite de carnificina dentro de uma fábrica abandonada nas docas de Boston em 1978. Aí, encontramos Chris (Cillian Murphy), um agente do IRA a tentar comprar metralhadoras para um futuro esquema, o seu fiel braço direito Frank (Michael Smiley), Stevo (Sam Riley) e Bernie (Enzo Cilenti), dois imbecis que estão lá para servir de motoristas e burros de carga, e Justine (Brie Larson) a americana que organizou o negócio. Dentro do já referido armazém, eles encontram-se com o grupo de traficantes de armas em posse das metralhadoras, o carismático Ord (Armie Hammer), o insuportável Vernon (Sharlto Copley), o misterioso Martin (Babou Ceesay) e mais dois burros de carga que dão pelo nome de Gordon (Noah Taylor) e Harry (Jack Reynor). Logo ao início, apercebemo-nos que a tensão está alta mas é só no momento em que uma rixa pessoal explode entre Stevo e Harry que se acende o pavio para o barril de pólvora metafórico.

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Para salientar o impacto do momento e dar poder ao primeiro tiro disparado entre inimigos, Amy Jump, que tratou da montagem, recorre ao único uso de slow-motion em todo o filme, dando às personagens e ao público uns segundos para respirarem e se prepararem para o que virá a seguir. A partir daí, todo o filme se desdobra numa incessante espiral de caos, carnificina e muita diversão. Ninguém aqui fala como num filme de Tarantino, apesar das preguiçosas comparações feitas por muitos críticos, mas os insultos chovem generosamente sobre a ação que, a certa altura, se torna tão frenética e violenta que é impossível termos noção de onde as personagens estão situadas ou quem está a disparar contra quem. Mais do que um erro de raccord, isso é uma escolha deliberada dos cineastas para nos colocar na mesma posição desorientada das suas idióticas personagens.

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O tiroteio entre 13 pessoas (existem umas quantas surpresas cruéis espalhadas por esta noite infernal) quase traz à cabeça o tipo de cinema de ação cheio de sangue e incessantes agressões que caracteriza muitas produções de Hong Kong e outros mercados asiáticos mas que raramente se manifesta no cinema anglófono. Aliás, um bom exemplo comparativo a Free Fire seria mesmo a animação dos Looney Tunes, sendo este filme uma desenvergonhada comédia anárquica. Só que, ao invés de patos refilões a levarem um tiro de caçadeira na cara e saírem ilesos, o elenco de Free Fire não tem muita sorte ou miraculosa resiliência física. Tiros em diferentes partes do corpo, cacos de vidro a rasgarem-lhes as mãos, seringas suspeitas a lhes furarem a pele e banal exaustão vão progressivamente afetando as personagens desta farsa sanguinária até ao ponto em que o espetador está a testemunhar um macabro ballet de bonecas partidas.

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Essa visceralidade não nega nenhuma da natureza de filme B deste projeto, mas permite-lhe exibir alguma complexidade, nem que seja somente ao nível do trabalho dos atores. Para compensarem os píncaros de irracionalidade furiosa das suas figuras, eles sempre se podem ir apoiando na excruciante experiência física proporcionada pela situação. Poderíamos mesmo dizer que esta é a melhor coleção de atores na filmografia de Ben Wheatley. De algum modo, que talvez tenha envolvido magia negra, o realizador até conseguiu modular os habituais exageros de Sharlto Copley e despertar o carisma inato de Armie Hammer como poucos realizadores conseguiram no passado. Em suma, não existe um único elo fraco, sendo que Brie Larson e Sam Riley, nos papéis mais racionais e hilariantemente estúpidos respetivamente, ameaçam roubar o filme sempre que a câmara se decide focar neles.

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Em termos de execução, o projeto é uma modesta maravilha de virtuosismo desde os seus coloridos figurinos e expressivo cenário à sua magistral sonoplastia, onde o caos sónico se torna numa orquestra de violência perfeitamente estudada mas sempre pronta a surpreender o público. Igualmente inegável é quão o filme peca pela falta de originalidade, e quão alguns dos seus detalhes textuais deixam um pouco a desejar. O ano da ação, por exemplo, pouco afeta o desenrolar dos eventos a não ser no que diz respeito à conspícua falta de telemóveis, e o desenvolver das diversas personagens varia imenso, ao ponto em que, pelo menos, dois indivíduos poderiam ser excluídos do filme sem se perder grande coisa.

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Como se esperaria de um filme de série B, Free Fire não é nenhum estudo acutilante sobre a condição humana (se estão à procura disso no IndieLisboa, mais vale irem ver Inimi cicatrizate), mas sim um objeto de entretenimento popular. Existe muita misantropia latente ao seu enredo e até uma boa dose de prazer sádico na sua comédia, mas isso não o torna necessariamente em algo desprezível. Não se trata de nenhuma obra-prima ou de um filme perfeito, mas uma coisa é certa, é um viável espetáculo escapista. Para além disso, quem desejar seguir tais linhas de pensamento, pode encontrar considerável relevância sociopolítica num filme situado nos EUA em que o que poderia ser uma rixa de bar se torna num tiroteio de proporções apocalípticas graças à presença de armas de fogo ou como Free Fire nos apresenta uma situação em que a resposta a agressão com mais agressão se prova como o caminho para a garantida aniquilação de todos os envolvidos.

 

Free Fire, em análise
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Movie title: Free Fire

Date published: 2017-05-06

Director(s): Ben Wheatley

Actor(s): Sharlto Copley, Brie Larson, Armie Hammer, Sam Riley, Cillian Murphy, Jack Reynor, Michael Smiley

Genre: Ação, Comédia, Crime, 2016, 90 min

  • Cláudio Alves - 80
80

CONCLUSÃO

Tão desesperante como divertido, Free Fire é uma explosão de entretenimento leve que vai deleitar tantas pessoas como as que vai chocar e repugnar com as suas detestáveis personagens, violência gráfica e desenvergonhada amoralidade.

O MELHOR: O génio cómico de todo o elenco e o trabalho de som merecedor de um Óscar ou dois.

O PIOR: Os marcados desequilíbrios entre o desenvolvimento das diferentes personagens e suas perniciosas consequências dramatúrgicas.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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