Retrospetiva Jane Campion | Fumo Sagrado (1999)

Em Fumo Sagrado de Jane Campion, um deserto filmado como uma alucinação febril é o palco em que Kate Winslet e Harvey Keitel usam o sexo como arma principal para reclamarem a autonomia sobre as suas identidades.

 


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Depois do sucesso de O Piano, Jane Campion viu todo o seu prestígio balançar no fio da navalha que seria o seu próximo projeto. Infelizmente, o público de 1996 não estava preparado para o tipo de crítica literária por meio de cinema que foi a sua versão do Retrato de Uma Senhora de Henry James e, de repente, uma das mais promissoras autoras do momento tornou-se num nome irrelevante. Em tempos mais antigos, quando Sweetie foi vaiado em Cannes e a realizadora passou a noite em branco a chorar o seu fracasso popular, tal reação poderia ter afetado Jane Campion de forma considerável mas esta mestra do cinema mudou muito nos anos seguintes. Basicamente, Campion estava a borrifar-se para o que os gostos do mainstream pensavam do seu trabalho. Retrato de Uma Senhora foi a primeira expressão dessa nova atitude e o seu projeto seguinte, Fumo Sagrado, seria a sua caótica apoteose, onde não existe sequer a amarga possibilidade de qualquer tipo de concessão criativa.

Isso nunca é mais evidente do que nas insanas sequências em que o filme parece estar a parodiar o tipo de comédia sobre famílias disfuncionais que se tinha vindo a tornar uma das mais recorrentes fórmulas do cinema australiano nos anos 90. Com grande ajuda da cenógrafa e figurinista Janet Patterson e do diretor de fotografia Dion Beebe, Campion conjura um mundo de kitsch televisual sufocante, onde a ideia de “normalidade” suburbana se torna tão grotesca que simultaneamente nos repugna, entristece e diverte. Diga-se de passagem que, longe do humanismo de Sweetie, o retrato que Jane Campioon faz aqui de um clã de classe média cuja pátina de respeitabilidade banal esconde uma série de putrefactas hipocrisias é uma cruel caricatura, onde a realizadora revela como, infelizmente, não tem um grande olho para filmar comédia por muito explosiva que seja a sua abordagem satírica.

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Mas, há que se salientar, nenhuma dessas caricaturas australianas se assume como protagonista de Fumo Sagrado. Esse papel cabe à princesa da família, Ruth, que, quando o filme começa, está a viajar pela Índia com uma amiga. Como não podia deixar de ser num filme de Jane Campion, Ruth é uma jovem à procura de identidade própria e, como muitas das heroínas da autora, os seus primeiros esforços nesse sentido revelam uma dependência por uma figura masculina dominante, neste caso um guru. Ela efetivamente parece ter um despertar espiritual, tornando-se numa pessoa que a sua família, por uma série de razões que incluem uma boa dose de xenofobia, não consegue reconhecer como a sua pequena e inocente menina. Aliás, quando a mãe de Ruth vai à Índia para falar com a filha e lhe implorar que ela vá a casa visitar o pai que está à beira da morte depois de um enfarte, ela parece tão chocada com o país exótico como com a filha que, por exemplo, consegue pela primeira vez chorar na sua vida.

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Ruth eventualmente regressa à Austrália para visitar o seu pai, que na verdade está bem de saúde, e levar a mãe para casa após esta ter uma espécie de bizarro esgotamento provocado por uma overdose de vendedores de rua. É claro que, como a audiência bem sabe, ela está a caminhar para uma armadilha orquestrada pela sua família que, seguindo o modelo da comunidade local de O Piano, como não consegue compreender a protagonista, decidem mudá-la à força, mesmo que isso implique a aniquilação da sua presente identidade. As motivações da família são relativamente benignas e apresentadas como uma leve comédia até ao momento em que realmente testemunhamos a confrontação de Ruth com o seu plano. Ela é encurralada como um animal, chora, pede piedade ao seu adorado irmão e parece não querer acreditar que a sua família lhe pode estar a fazer aquilo. Pela primeira vez, o filme desfere um potente murro emocional na audiência e o seu impacto reverbera pelo resto da narrativa como uma pulsante lembrança que, existem sempre dolorosas realidades humanas subjacentes à mais absurda paródia de Jane Campion.

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A captura de Ruth representa o final do primeiro ato do filme, sendo que, tirando algumas breves revisitas à família da protagonista, Fumo Sagrado torna-se, a partir daqui, num filme diferente. Mais especificamente, torna-se num duelo de agressões psicossexuais entre dois combatentes, Ruth e P.J., um americano que a família da jovem contratou pois é um alegado especialista em purgar os efeitos de cultos em raparigas inocentes e facilmente influenciáveis. O cenário para esta luta é o deserto australiano, aqui pintado em agressivos tons de tóxico laranja e azul que marcam o local tanto como um palco tão alucinatoriamente artificial como primordial. É, em suma, perfeito para a luta de sexos entre a mulher independente e o condescendente patriarca decidido a quebrar a vontade da sua companheira. Pela sua parte, Kate Winslet e Harvey Keitel seguem a linha de estilização proposta pela fotografia colorida e dão aqui duas das suas prestações mais destemidas, levando-se um ao outro a extremos que por vezes transcendem o absurdismo cómico da situação e se tornam em algo feio e aterrador.

Eventualmente, este segundo ato de abuso psicológico chega ao seu fim quando P.J. consegue efetivamente despir Ruth da sua nova identidade apoiada nas crenças de um guru indiano. Só que, não é uma mundana menina dos subúrbios quem emerge desta experiência, mas sim uma jovem desesperadamente vazia que vê no seu corpo a sua única fonte de entendimento sobre si mesma. Este ponto de viragem proposto pelo esvaziamento identitário é uma grande recorrência no trabalho de Jane Campion, mas só em Fumo Sagrado é que a protagonista reage a este vácuo libertador com um impulso destruidor. Como uma Eva maquiavélica, ela usa a arrogância e confiança no privilégio da autoridade masculina do seu Adão dominador para orquestrar a sua desgraça, seduzindo P.J. como o primeiro passo no processo da sua subjugação à vontade feminina.  O sexo torna-se na moeda de troca entre os dois e na arma principal desta mulher abusada e destroçada, cuja fúria é titânica, levando à sistemática humilhação do seu companheiro numa inversão da dinâmica de poder que revela extremos ainda mais monstruosos do que os que antes tínhamos visto desse duo.

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Chegado este ponto da sua história, Jane Campion revela como Fumo Sagrado não é bem a acídica parábola feminista que poderia ter parecido até aqui. Dizemos isto pois, neste final terço, o filme torna-se num estudo em como o poder desequilibrado de uma pessoa sobre a outra parece necessariamente germinar abuso, mesmo que a um nível inconsciente. No momento chave deste estudo, P.J. escreve as palavras “Be Kind” na testa de Ruth e, quando se olha ao espelho, ela parece ter uma terrível epifania, apercebendo-se que a sua nova busca por identidade tinha consistido no abuso e privação da identidade pessoal da sua vítima. Isto leva ao terror existencial de Ruth, à temporária recuperação de poder de P.J., à fuga da mulher e, eventualmente, uma perseguição louca pelo deserto que acaba por incluir alguns dos familiares da jovem numa autêntica explosão de comédia absurdista e desesperante drama psicológico. Mas, no final, tal como em Sweetie, a compaixão humanista e o ato de perdoar e aceitar o outro é a moral de Fumo Sagrado, o derradeiro caminho para a coexistência pacífica entre seres humanos e a chave para Ruth se encontrar a si mesma.

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A conclusão de Fumo Sagrado acaba por ser surpreendentemente esperançoso, mesmo que profundamente ambivalente. O destino de Ruth é incerto e não tem nenhuma da finalidade otimista de, por exemplo, Um Anjo à Minha Mesa mas, de um modo geral, Jane Campion consegue conjurar o milagre de um final relativamente coerente para a sua caótica mistura de tonalidades dramáticas e satíricas. Isso não implica que o filme não seja um pouco brusco em termos estruturais, um pouco compartimentado de mais e que a direção de atores nas secções mais humorísticas do filme tenda a ser aborrecidamente perfunctória, mas existe uma vibrante energia por detrás de toda a construção deste objeto cinematográfico. Se há algo que trespassa todos os momentos de Fumo Sagrado é a intoxicante confiança de Campion e a sua obstinada impetuosidade enquanto uma contadora de histórias e uma autora provocadoramente formalista. Se há algo que Fumo Sagrado prova é que Jane Campion, mesmo quando nos exibe o seu filme mais problemático e infeliz, continua a ser uma das autoras mais interessantes do cinema contemporâneo.

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Fumo Sagrado foi o primeiro filme de Jane Campion com duas personagens principais de sexos opostos. As suas duas obras seguintes vão seguir o mesmo modelo de modos completamente diferentes. Primeiro sob a forma de um thriller erótico e depois numa narrativa de época baseada no romance verídico. Na próxima página, poderás então descobrir o resultado da primeira dessas propostas que é talvez o filme mais controverso e polarizante na carreira da realizadora.

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