DocLisboa ’16 | Funerals (on the art of dying), em análise

Uma das obras mais invulgares do DocLisboa, Funerals (on the art of dying) marca o final da carreira em cinema de Boris Lehman, um importante e vanguardista autor belga.

Por muito marcante e singular que seja a filmografia do cineasta belga Boris Lehman, é compreensível que haja algumas dúvidas e questões a colocar em relação à legitimidade da sua presença no DocLisboa. Afinal, não é esta uma celebração do documentário e os filmes de Lehman, admitidas fantasias e versões fictícias da sua vida? É evidente que tais dicotomias e barreiras categóricas, apenas acabam por limitar a apreciação de arte, mas estas questões são pertinentes à análise da obra iconoclasta de Lehman, um realizador de filmes experimentais que sempre se colocou a si mesmo como principal sujeito do seu trabalho. Por consequência, as suas obras são partes integrantes de uma gigantesca autobiografia em celuloide e esta sua derradeira película não foge à regra.

funerals doclisboa boris lehman

Independentemente de quaisquer classificações ou considerações de género, Funerals (on the art of dying) é, essencialmente, um ponto final na filmografia de Lehman.  Aqui, a morte de uma carreira e de uma vida no cinema é literalizada em jocosos rituais de morte e luto, e mesmo o uso de motivos repetidos de filmes anteriores marca este projeto como uma conclusão. O próprio início, onde encontramos Lehman a ser reconhecido pela sua adorada cadela, depois de esta o encontrar na margem de um rio, serve como seguimento aos momentos finais de uma das suas obras anteriores, Story of My Hair.

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Ao longo de Funerals há muitos outros piscares do olho à audiência conhecedora da filmografia deste autor belga, mas talvez um dos mais importantes seja a apresentação da separação entre o cineasta e os seus bens materiais, representantes físicos do seu trabalho e conhecimento. Esta acumulação é um tema constante em Lehman e aqui dá-se a final destruição desses objetos, numa encenação ritualista que não deixa de ser algo real apesar da sua teatralidade. Estamos, de facto, a ver Lehman destruir a sua propriedade, a desfazer-se dos seus bens materiais enquanto pondera a morte que se aproxima dele a passos largos.

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A acompanhar estes pontos de realidade no meio da fantasia, Lehman volta aqui a recorrer ao uso de takes compridíssimos, onde a ação mais banal se desdobra em tempo real perante os olhos da audiência. Se considerarmos ainda que o cineasta tem uma predileção pelo uso de poucos takes e que é um devoto apreciador de erros e acidentes imprevistos, temos aqui uma perfeita amalgama entre o que é o documento de uma ação real e a fixação em celuloide de uma encenação. Tudo isso contribui para um filme dotado de um ritmo sonolento e muito longe de quaisquer noções de eficiência dramática, o que consegue ser indubitavelmente frustrante, mesmo para as mais generosas audiências.

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Mas não se equivoquem e julguem que este filme é uma austera tortura audiovisual a um público entediado. Apesar de ocasionalmente aborrecido e profundamente melancólico, Funerals é um filme que é também marcado por sublimes momentos de humor negro, idiossincrático e profundamente típico de Lehman. Veja-se, como suprassumo exemplo disto mesmo, a hilariante cena em que Lehman vai às compras de um caixão. Da inocuidade antidramática e quase documental, esta situação rapidamente se desmorona num teatro de absurdos que goza com algo com que poucos realizadores alguma vez se ousaram a brincar, a mortalidade humana e, mais especificamente, a própria mortalidade do cineasta.

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Em conclusão, Funerals é uma obra onde a indulgência artística de um realizador anda de mãos dadas com uma mostra de lancinante honestidade autoral. Isso impede o filme de ser um objeto digno de admiração total, sendo que, separada da restante obra de Lehman, a fita tem pouco valor, mas concede-lhe uma potência humana de dimensões monumentais. Os múltiplos finais que encerram o filme são o perfeito modo de explicar essa dicotomia e simbiose. É precisamente a partir da insularidade estilística dos momentos e sua arritmia estrutural que trespassa a dor de um homem a dizer adeus ao cinema como carreira, percurso, razão para viver e como um meio artístico em celuloide. Assim nos despedimos de Boris Lehman, um dos mais invulgares cineastas europeus da modernidade que, não obstante alguns fracassos relativos, deixa para trás uma filmografia de impor respeito e despertar curiosidade a qualquer cinéfilo generoso o suficiente para apreciar as suas idiossincrasias pessoais.

O MELHOR: O delicado balanço tonal entre acutilante dor e melancolia com jocoso humor e ironia.

O PIOR: O frustrante ritmo e sua sonolenta languidez que são tão despropositados e desnecessários quão irritantes para o espetador.


 

Título Original: Funérailles (De l’art de mourir)
Realizador:  Boris Lehman

DocLisboa | Drama. Comédia, Experimental, Documentário, Biografia | 2016 | 97 min

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CA

 

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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