Girl Band (foto de Richard Gilligan)

“Going Norway” é o novo single dos Girl Band

Os Girl Band vão lançar The Talkies e partilharam o segundo single. Apertem os cintos, que “Going Norway” é uma viagem de pesadelo quase dançável. Quase.

Nada mais oportuno do que este regresso dos Girl Band. Numa altura em que estão a explodir várias bandas por eles influenciadas ou até produzidas (o baixista Daniel Fox é também produtor), não poderíamos senão sentir saudades deste quarteto inconformista de Dublin, em hiato desde 2016. Pior, a razão da brusca saída de cena na altura era suficiente para nos fazer temer que não haveria um próximo acto. Foi com surpresa e gáudio, por isso, que recebemos a notícia do regresso da banda e com um segundo álbum nos bolsos. The Talkies, produzido por Daniel Fox, vai sair no dia 27 de Setembro pela Rough Trade. Dele já ouvimos o épico single principal, “Shoulderblades”, e agora é a vez do quase dançável “Going Norway”. Dele disse o seguinte, num comunicado de imprensa, o temperamental vocalista Dara Kiely:

“Going Norway” foi uma das primeiras faixas que completámos mas a melodia vem, na realidade, de uma faixa que compus há cerca de oito anos. Guardei essa melodia e recorri a ela quando já não tinha mais ideias. Também estava, nessa altura, a praticar muita meditação, por isso decidi não usar, nas letras, quaisquer pronomes no tema ou no álbum todo. Isso surgiu-me quando embati na seguinte citação de Buda: “A nada nos devemos agarrar como ‘eu’, ‘me’ ou ‘meu'”. Removi tudo isso de maneira a encontrar um mundo abstracto onde viver.

Apesar desta raiz budista, não existe à partida muito distanciamento ou impassibilidade na sonoridade da banda ou mesmo do que já, até à data, ouvimos de The Talkies. “Going Norway” integra até novas emoções na atmosfera de pesadelo industrial do manicómio para que somos sugados. Há trechos onde um baixo propulsivo, uma guitarra acre sugestiva de Keith Levene ou pura e simplesmente as sirenes trazem algum ritmo e melodia ao ruído, tão maciço quanto minimalista, com que os Girl Band constroem deliberadamente o caos. Mas precisamente esta premeditação da obra artística (nunca fruto da impulsiva espontaneidade e sim da reflexão e da técnica), juntamente com o abandono e solidão da voz de Kiely a bramar no vazio, devolve paradoxalmente aquela atitude meditativa e aquele desprendimento das coisas que estiveram na origem do álbum.

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O vídeo de “Going Norway” resultou, mais uma vez, da perene colaboração dos Girl Band com o realizador Bob Gallagher. As conotações psiquiátricas já audíveis em “Shoulderblades” encontram aqui uma confirmação visual na sessão de psicanálise que serve de enredo. A tensão que a banda tão bem sabe criar na sua sonoridade ao mesmo tempo controlada e desvairada é sublinhada pelo drama do protagonista e pela montagem, numa história onde o mundo aparece como um assalto científico ou moralista a um eu sem problemas ou com problemas aos quais oferece sempre a solução errada.

GIRL BAND, THE TALKIES | “GOING NORWAY”

Maria Pacheco de Amorim

Literatura, cinema, música e teoria da arte. Todas estas coisas me interessam, algumas delas ensino. Sou bastante omnívora nos meus gostos, mas não tanto que alguma vez vejam "Justin Bieber" escrito num texto meu (para além deste).

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