Girl Band (foto de Rich Gilligan)

Girl Band estão de volta e com um álbum a caminho

“Shoulderblades” não era só um single avulso mas, como desejávamos, vem na dianteira de The Talkies, o tão aguardado segundo álbum dos Girl Band.

Escusado dizer que “Shoulderblades” é de parar tudo. Os Girl Band regressam do hiato não só com a identidade intacta mas com o redobrar de energia, intensidade e consciência do sublime que vem de uma maior deliberação e contenção. O novo álbum que nunca pensámos vir a ouvir, The Talkies, segue-se ao disco de estreia Holding Hands With Jamie (2015). Foi produzido pelo baixista da banda, Daniel Fox, e será lançado no dia 27 de Setembro pela Rough Trade.

Depois do cancelamento da digressão europeia em 2016, por motivos de saúde do explosivo vocalista Dara Kiely, os Girl Band retornam no auge de uma fervilhante cena musical que eles próprios ajudaram a criar, não só pela marca que o seu som e espectáculos ao vivo deixaram mas também pela colaboração do baixista Daniel Fox com algumas destas bandas (só um pouco) mais jovens. Os Fontaines DC lançaram o seu álbum de estreia, Dogrel, em Abril e os singles dos Silverbacks e dos Just Mustard marcaram a nossa Playlist de Maio.

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The Talkies foi gravado, ao longo do mês de Novembro do ano passado, numa casa solarenga nas imediações de Dublin, chamada Ballintubbert. A sua estranha construção e corredores ofereceram não apenas as condições físicas, mas ainda uma imagem para a versão da sonoridade cataclísmica dos Girl Band que emerge no álbum. Num comunicado de imprensa, o guitarrista Alan Duggan explica que “em vários aspectos, a ideia por detrás do álbum era criar uma representação auditiva da casa” e o baixista Daniel Fox oferece um exemplo desta intenção de fundo: “Gravámos sempre duas vezes a bateria, uma vez no piso térreo, outra na cave, e durante a produção podíamos ir variando entre ambos os sons.”

Quanto ao processo de composição na raiz das canções que constam de The Talkies, o produtor explica: “Depois de cancelarmos a última digressão, não estávamos realmente mais a compor juntos pelo que nos virámos para a composição e gravação de partes que depois editávamos e colávamos no computador, reconfigurando-as assim deste modo.”

Girl Band - The Talkies - Shoulderblades
Capa de The Talkies

O single vem acompanhado de um vídeo realizado por Bob Gallagher, colaborador de longa data dos Girl Band e autor das já icónicas curtas-metragens que acompanham “Paul” e “Pears For Lunch”. O realizador agradece à banda terem-no encorajado a “sair da minha zona de conforto e tentar fazer qualquer coisa sem adereços ou narrativa convencional, articulando uma ideia com dança e movimento.”

A bailarina escolhida para o papel foi Oona Doherty, única capaz de encarnar a procurada “combinação de beleza e violência”. O vídeo nasceu da referência que Dara Kiely faz à personagem de Edward Mordake, lenda urbana que remonta aos finais do século XIX e era caracterizada como possuindo dois rostos. Esta dualidade é o tema explorado na encenação e coreografia, de um modo suficientemente abstracto para gerar diferentes interpretações, explica Bob Gallagher.

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Mal soam os primeiros sons de frequência indeterminada de “Shoulderblades”, um eco pendular e industrial, sabemos em que território nos encontramos. Intacto – mas menos desenfreado, a energia mais concentrada, sem desperdício, a contribuir para a progressiva tensão do tema – surge o rugido gutural de Dara Kiely, com o seu fluxo de consciência, aquela massa verbal sonora da qual apenas se percebem as inflexões e os sentimentos de crescente alienação e desespero. Pode muito bem estar de novo a gritar “Nutella”, que não vamos perceber, nem interessa para o caso. Basta ver os títulos das faixas para desistir de quaisquer veleidades semânticas.

Estamos de volta ao manicómio metálico da modernidade urbana onde a voz humana tenta gritar inerme, em monocórdico delírio, por cima dos sons ribombantes e explosivos da fábrica industrial que a engole. Mas o ambiente é agora mais desolador, a voz reverbera mais solitária numa paisagem sonora que lhe é indiferente, oscilando entre a ira desfocada e o murmúrio resignado, quase interior. É um retrato aterrorizador da solidão contemporânea que, não sendo para os ouvidos de qualquer um, fotografa ainda assim esta doença difusa de que todos padecemos.

GIRL BAND, THE TALKIES | “SHOULDERBLADES”

THE TALKIES | Alinhamento do álbum

  1. “Prolix”
  2. “Going Norway”
  3. “Shoulderblades”
  4. “Couch Combover”
  5. “Aibophobia”
  6. “Salmon Of Knowledge”
  7. “Akineton”
  8. “Amygdala”
  9. “Caveat”
  10. “Laggard”
  11. “Prefab Castle”
  12. “Ereignis”

Maria Pacheco de Amorim

Literatura, cinema, música e teoria da arte. Todas estas coisas me interessam, algumas delas ensino. Sou bastante omnívora nos meus gostos, mas não tanto que alguma vez vejam "Justin Bieber" escrito num texto meu (para além deste).

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