Golden Globes 2026: Prestígio, Indústria e Popularidade
Previsões dos vencedores dos Golden Globes 2026 e a eterna disputa entre prestígio, bilheteira e narrativa política antes dos Oscars. Será mais uma vez este ano?
A semana antes dos Golden Globes é sempre igual: jornalistas, críticos, fãs e apostadores acordam obcecados com previsões, favoritismos e aquela ilusão doce de que a indústria, crítica e imprensa estrangeira sediada ou não em Hollywood — na nova versão que foi estendida a quem anda pelos maiores festivais internacionais — é um organismo democrático onde a “melhor performance” vence pela sua pureza artística. Claro que não. Os Globes são um jogo de poder, charme, calendário e ocasião e é por isso que continuam mesmo assim a ser fascinantes. A cerimónia acontece amanhã domingo, 11 de janeiro, às 20h na CBS (1h da manhã em Lisboa), e volta a ter Nikki Glaser como anfitriã, o que significa humor afiado e estrelas a morder o lábio com medo do próximo punchline. Há ainda duas homenagens para dar respeitabilidade à noite: Helen Mirren recebe o Cecil B. DeMille Award e Sarah Jessica Parker leva para casa o Carol Burnett Award, entre discursos emocionados, palminhas solidárias e duas ou três frases sobre “o poder da arte”, “as mulheres no cinema”, “o privilégio de ser parte da comunidade”, e quase certo umas “bocas ao Trump”. Ah, e depois há uma categoria nova: podcasts. Sim, os podcasts chegaram também à gala dos Golden Globes 2026. Como se não bastasse terem invadido os nossos dias no ginásio, no trânsito e no duche, agora também recebem Globos. Falta pouco para existirem galardões para newsletters e threads do Twitter.
TRÊS FILMES, TRÊS MODELOS DE PODER
Passando ao cinema nos Golden Globes 2026, há três forças magnéticas a atrair toda a atenção e a polarizar as apostas: “Hamnet”, “Batalha Atrás de Batalha” e “Pecadores”. Cada um representa uma facção distinta da indústria. “Hamnet”, de Chloé Zhao é o drama literário de pedigree, filmado com detalhe milimétrico e sensibilidade universitária, daqueles que colecionam críticos apaixonados e corações partidos. “Batalha Atrás de Batalha” é o monstro calculado de Paul Thomas Anderson, que entra na competição com nove nomeações e o charme silencioso de quem sabe que dificilmente sai de mãos a abanar. E “Pecadores”, de Ryan Coogler, representa a categoria mais adorada pelos americanos: o blockbuster com alma (ou com vampiros, o que para muita gente é equivalente). Na categoria de Melhor Filme (Drama), “Hamnet” avança com porte aristocrático e a habitual espuma simbólica: temas literários, aura trágica, elevada densidade emocional e uma protagonista capaz de partir o coração e as estatísticas no mesmo plano. “Pecadores” pode tentar roubar o troféu, mas é mais provável que a solução política seja dividir o bolo: o drama vai para “Hamnet”, enquanto “Pecadores” recebe o galardão “Cinematic and Box Office Achievement”, o famoso prémio que diz “nós vimos, nós lucrámos, nós aprovamos”, ou seja receitas e bilheteira. Já no campo “Musical ou Comédia” o suspense é quase inexistente: “Batalha Atrás de Batalha” está tão avançado que “Marty Supreme” e “Bugonia” só disputam a prata, que não é entregue. Anderson tem boas hipóteses de sair da gala com aquele hat trick silencioso que Hollywood tanto respeita: filme, realização e talvez também argumento. Se que depois pode perder o Oscar, porque os votantes são outros, o que ninguém morre; Oliver Stone já viveu isso e continua vivo.
VÊ TRAILER DE “O AGENTE SECRETO”
AS INTERPRETAÇÕES E AS NARRATIVAS
Nas interpretações para os Golden Globes 2026 há um mapa emocional definido. Jessie Buckley, com “Hamnet”, domina a categoria de Melhor Atriz em Drama com uma performance que parece concebida cientificamente para agradar votantes: literária, intensa, sofrida, concentrada. O tipo de trabalho que se vê e se sublinha. No lado masculino do drama, a história pode ser brasileira: Wagner Moura, com “O Agente Secreto”, tem todas as ferramentas de uma vitória que faria manchetes de Los Angeles a São Paulo. Seria o primeiro brasileiro a vencer na categoria e tudo o que rompe a norma encanta os Globes. Michael B. Jordan corre por fora com “Pecadores”, mas o “momento histórico” pesa mais do que a bilheteira. Timothée Chalamet, por sua vez, reina em Melhor Ator em Comédia/Musical com “Marty Suprem” e, não só porque interpreta bem, mas porque é o príncipe indie-pop oficial de Hollywood. Há actores que vencem pela performance; ele vence pela performance e pela mitologia.
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OS SECUNDÁRIOS E O CHARME NÓRDICO
Nas categorias de comédia feminina nos Golden Globes 2026, quem se destaca é Rose Byrne com o maravilhoso título “If I Had Legs I’d Kick You”, um filme que praticamente ninguém viu em Portugal (nós vimos), mas que toda a gente adora repetir só pelo nome: traduzido à letra seria “Se eu tivesse pernas, dava-te pontapés”, falta só dar uns chutos. Nos secundários, o favoritismo puxa para o norte da Europa, com Stellan Skarsgård e Inga Ibsdotter Lilleaas, ambos do maravilhoso filme norueguês “Valor Sentimental” de Joachim Trier — com data de estreia prevista para 29 de janeiro — que ainda têm uma deslumbrante Renate Reinsve (“A Pior Pessoa do Mundo”), projecto elegante e melancólico que permite à América sentir que está a celebrar cultura europeia sem ter de ler legendas durante duas horas. É sempre uma troca justa.
VÊ TRAILER DE “IF I HAD LEGS I’D KICK YOU”
OS PARALELOS QUE FECHAM O MAPA
Os prémios paralelos dos Golden Globes 2026 ajudam a compor a geografia emocional da noite. Melhor Canção Original deve ir para Golden, do fenómeno KPop Demon Hunters, uma escolha que garante trending topics no TikTok e dá aos Globes a ilusão de que estão sincronizados com a juventude. Melhor Filme em Língua Não-Inglesa (ou Internacional) aponta para “O Agente Secreto”, não apenas pelo filme, mas pela ideia geopolítica de que o cinema brasileiro está num ciclo internacional desde “Bacurau”, passando por “Ainda Estou Aqui”. E, claro, o Cinematic and Box Office Achievement voa praticamente sozinho para “Pecadores”, porque vampiros + bilheteira + culto pop = carimbo aprovado.
TELEVISÃO E O TABULEIRO DOS STREAMINGS
Na televisão, o mapa dos favoritos aos Golden Globes 2026 é quase militar e com cartas marcadas: HBO Max lidera o drama com “The Pitt”, Apple TV+ domina a comédia com “The Studio” e a Netflix quer hegemonia no limitado com “Adolescência”. Os Globes gostam desta sensação de equilíbrio estratégico entre plataformas, como se estivessem a gerir a Liga dos Campeões dos streamings. Os intérpretes seguem a mesma cartografia: Noah Wyle, Seth Rogen, Rhea Seehorn, Stephen Graham e Sarah Snook formam o que parece ser o quinteto ideal da noite para levarem o ouro. E para completar o bingo emocional, Ricky Gervais deve ganhar o prémio de stand-up televisivo, porque ninguém desconforta celebridades com mais gosto do que ele.
PALPITES E A ILUSÃO DE DEMOCRACIA ATÉ AOS OSCARS
Resumindo tudo em português simples: os Golden Globes 2026 vão dividir o poder entre três linhagens distintas — “Hamnet” (prestígio), “Batalha Atrás de Batalha” (indústria) e “Pecadores” (popularidade). No meio disto, “O Agente Secreto”, do Kleber Mendonça Filho, que andou muitos anos pela crítica de cinema e mexe-se muito bem entre a crítica e a imprensa internacional, pode fazer história para o Brasil e “tirando uma casquinha”, mais uma vitória para o cinema em língua portuguesa; também Wagner Moura pode subir um degrau na escada que leva aos Oscars. Segunda-feira, críticos e influencers vão dizer que houve “mudança” e “diversificação”. Terça-feira tudo volta ao normal e seguimos para os Oscars, onde as facas são mais afiadas e o dinheiro mais pesado. Até lá, brindemos com champanhe tépido e a esperança infantil de que a próxima sessão de prémios será mesmo justa. Até 17 de Março.
JVM

