"Bacurau" | © MOTELX

MOTELx ’19 | Bacurau, em análise

Depois de ter passado pelo Festival de Cannes, onde ganhou o Prémio do Júri, “Bacurau” chega a Portugal, através do MOTELx. O novo filme de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles integra a secção Serviço de Quarto do festival lisboeta.

Quando vemos um filme no contexto do MOTELx, há uma tendência a considerá-lo através do prisma histórico e estético do cinema de terror. É muito diferente ver “Bacurau” em Cannes, como parte de uma competição de grandes nomes do cinema de autor, do que o ver numa festa do terror e do grotesco. Neste caso, existem várias passagens no projeto que citam abertamente a imagética do terror. Isso encontra-se tanto em grandes explosões de sangue e vísceras como no vislumbre de figuras hostis a correr no fundo desfocado da composição. O que é interessante é como “Bacurau” subverte essas convenções e indiretamente questiona o modo como elas têm sido usadas e manifestas ao longo da História do terror.

Muitas são as histórias sobre exploradores em terras exóticas, ocidentais destemidos, que são perseguidos por nativos monstruosos, selvagens. Nos anos 30 era o cinema de aventura onde essas fórmulas mais brilhavam, mas, quando saltamos para as décadas de 70 e 80, o que encontramos são pesadelos de canibalismo e selvajaria. Todos esses filmes concediam o protagonismo aquelas figuras que estavam mais próximas do seu espectador idealizado. Ou seja, estas eram histórias sobre homens brancos de países desenvolvidos, feitas por homens brancos de países desenvolvidos e para homens brancos de países desenvolvidos.

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Mas afinal, quem é que define o que é um país desenvolvido? Além de fatores económicos, há muitas questões consideradas para tais definições que definem certas nações como algo de segunda categoria. Quem deu o direito a quem para definir tais classificações? Porque é que alguns se veem no poder de ditar o que é civilizado e o que é selvagem? Por que é que a ideia de um mundo civilizado está tão ligada a valores Ocidentais? Por que é que na nossa cultura global, o Ocidente está definido como está? Porque é que a América Latina não é normalmente englobada no Ocidente? Porque é que o Brasil é um país de segunda categoria? Porquê, porquê, porquê?

Começar com convenções do cinema de terror e acabar em tais questões pode parecer despropositado, mas não é. O cinema, especialmente aquele influenciado pelo modelo de Hollywood, tem sido definido por aquelas culturas que se impõem hegemónicas sobre o resto do mundo. A História do cinema, especialmente do cinema de terror, é uma história de privilégio e preconceito, uma história de racistas e xenófobos a usarem as narrativas do entretenimento popular para confirmarem e promoverem a sua visão do mundo. Nada disto é necessariamente intencional, mas é sistemático.

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O modo como “Bacurau” apela a tais imagens põe a nu a base venenosa sobre a qual estas convenções foram construídas. De facto, o terror nem é o principal género cuja iconografia é habilmente subvertida pelo filme. Acima de tudo, “Bacurau” deve muito ao western, com suas histórias de outros heróis civilizados a lutar contra o monstruoso índio. Admitimos, no entanto, que o filme de Mendonça Filho e Dornelles é esteticamente mais Leone dos anos 60 do que é Ford dos anos 30. Além disso, ao nível narrativo não há nada mais próximo que a história que John Sturges foi roubar a Kurosawa.

Tal como as comunidades no centro de “Os Sete Magníficos” e “Os Sete Samurais”, também a população de “Bacurau” se encontra sob ameaça violenta do exterior. Algures no sertão brasileiro, Bacurau é um antigo quilombo isolado e com pouca gente. A paisagem à volta pode ser verde, mas há falta de água potável, que tem de ser regularmente trazida numa carrinha. Um dia, essa carrinha traz consigo furos de balas e, quase em simultâneo, dois motoqueiros misteriosos e vestidos em néon passam por Bacurau. No mesmo dia, o sinal telefónico desaparece e a povoação varre-se dos mapas online.

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Sem saberem, estes brasileiros de um futuro próximo são a nova atração turística para americanos em viagem por terras exóticas. Bacurau é zona de safari e, para os turistas, a temporada de caça já começou. Políticos locais e elites urbanas, pensam-se em pé de igualdade com os forasteiros, mas mesmo eles não são mais que outros alvos para as suas armas. Quando o que une aliados é o privilégio que sentem sobre outras pessoas menos poderosas, mais tarde ou mais cedo um dos intervenientes vai-se achar superior ao outro e no direito de o espezinhar. Assim é e assim acontece em “Bacurau”.

Contudo, isto não é um conto moral sobre opressores e colonialistas em espirais de mútua destruição. Pelo contrário, esta é uma fantasia vingativa e satírica sobre um Brasil no caminho da perdição. Ao contrário dos aldeões que são salvos pelos pistoleiros de Hollywood e os espadachins do Japão, as personagens de “Bacurau” precisam de pouco auxílio exterior para se defenderem. A ajuda de uns eco-terroristas seus conterrâneos é bem-vinda, mas não é preciso mais que isso. Num gesto de particular gozo, as ferramentas da sua defesa provêm dos templos que preservam a História do povo. Por outras palavras, o armamento é tirado das paredes do museu.

“Bacurau” é raiva, é fogo e fúria em forma de filme. Esta é uma sátira política que deita a língua de fora aos bons costumes e celebra a indisciplina dos seus autores. Há imensas ideias em jogo, demasiadas até. Pelo meio, algumas são deixadas ao abandono e outras são retratadas com a subtileza de uma caricatura infantil. No entanto, parte do seu charme e do seu triunfo deriva dessa mesma falta de foco, da sua relutância em explicar os seus heróis e da sua vontade de gozar abertamente com os seus vilões. É subtil? Claro que não. É coerente? Às vezes. É bom cinema? Sem dúvida.

Bacurau, em análise
bacurau critica motelx

Movie title: Bacurau

Date published: 2019-09-11

Director(s): Kleber Mendonça FIlho, Juliano Dornelles

Actor(s): Barbara Colen, Thomas Aquino, Silvero Pereira, Thardelly Lima, Ruben Santos, Wilson Rabelo, Sônia Braga, Udo Kier, Karine Teles, Antnio Saboia, Buda Lira, Clebia Sousa, Danny Barbosa

Genre: Terror, Mistério, Ação, 2019, 131 min

  • Cláudio Alves - 85
  • José Vieira Mendes - 75
80

CONCLUSÃO:

“Bacurau” é uma burlesca sátira política, com muito terror e western à mistura, que os realizadores Juliano Dornelles e Kleber Mendonça Filho nos apresentam com sorrisos matreiros na cara e uns quantos triunfos escondidos na manga. Com atores do calibre de Udo Kier e Sônia Braga na equipa, grande fotografia, montagem e um guião endoidecido, o filme é um triunfo que entretém e galvaniza.

O MELHOR: O desejo de bom regresso a um burro que carrega consigo aquele que é, quiçá, o mais desprezível selvagem de toda esta história.

O PIOR: A natureza meio didática da comédia e o modo como tantas personagens, incluindo a aparente protagonista, são relegadas à periferia quando os verdadeiros vilões do conto mostram a sua cara.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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